terça-feira, 29 de agosto de 2017

Rum

meu corpo é um tambor
batizado e alimentado
é o som do orixá
que brota
assim, assim
de lá pra cá
mas também sou o vento
que cega a lâmina da maldade
o trilho, o parafuso e o trem
da minha cidadela
não julgo, nem absolvo
não me compete esse cargo
guerreio
sentado na estrada fumando tabaco
quizilo o homem
furando seus sapatos
quizilo a mulher molhando seus cabelos
vinho de palma, azeite de dendê
água de cabaça, samba pra vencer
quem me aguenta
ultrapassa a si mesmo
e essa dor de estar sozinho
e essa dor de estar sozinho
essa dor de estar sozinho
é uma pétala inexata
da flor inesquecível.
esse dom de estar sozinho
esse dom de estar sozinho
é o combate amargo.
molha o combate
com água que arde.
molha a dor
com água que arde.
ria comigo.
brinque comigo.
fume comigo.
não há pecado.
laroiê!

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Ubuntu

Não dê a Afrodite essa sobrevida
de uma energia que não
é dela
nunca foi
Não dê a Afrodite essa sobrevida
querida
essa sobrevivencia
sofrida
que ela nunca teve

A Nzinga me disse:
"Nossos deuses são reais."
Meu pai respondeu:
"Estamos vivos"

Não dê aos seus mortos deuses mortos jeovás
furiosos em enterros, raivosos entre túmulos
e tudo mais de crisântemos e terra escura infértil
Não dê ao seu deus morto
essa sobrevida
que, em nada, é divina.

Quem canta Laroyê
é porque conheceu a dor.
A verdadeira dor
aquela diáspora que permeia
pele, osso, corpo, mente
coração de todos
e um só
Ubuntu
que só quem é, sabe
que só quem é, conhece
quem só quem é
verdadeiramente
abraça
Ubuntu
beija Ubuntu
a força
ubuntu
sagrada.

Não dê aos seus mortos essa sobrevida triste
sem dinâmica
meus espíritos estão nas árvores, atravessam tempos
e jamais definharam
porque vivem
no Orí
Ubuntu, fêmur Nagô.

Nzinga me ensinou:
"Peça misericórdia a Xangô."
Eu pedia vingança.

Não dê aos seus deuses essa sobrevida
aculturando
desculturando
transculturando
o que não te pertence.

Meu fêmur é meu.
Orí é um.
Ubuntu é só pra quem viveu.
E vive.
Sobre tudo,
vive.

Laroiê!

Mariana Belize

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Corretamente

te vejo procurar no passado
repassando
procurando algum erro
cometido

não há erro.

te vejo desesperado
despreparado
um sorriso
e uma lágrima
no mesmo gesto

não há erro.

te vejo correndo
nadando
voando
indo-e-voltando
sem consentimento
e sem glória

não há erro.

é isso.
o passado é o que foi
e não o que poderia ter sido.
toda palavra dita
foi
nada é maldito no passado
nenhum erro
cometido.

não há erro.
o que foi
é porque tinha que ter sido
daquele jeito
naquele momento
o último beijo
em segredo.

a noite não erra.
você não errou.
não há erro.

mas há mistério, detetive,
há segredo...
há a lua escura do meu olho esquerdo
há a sombra que me persegue
há o cruzeiro
e eu, a estrela maldita, vermelha em brasa,
repito
ao anoitecer o caminhar do sol
e me deito lânguida nas montanhas
repetindo
pra te consolar:
não há erro,
não há erro, meu amor.
não há erro.

Meu olho direito reflete a verdade do mundo
enquanto me escondo nas tintas escuras da noite
sem mistério, meu brilho não te alcança
e você corre em círculos
pra esquecer
que está vivo.

não há erro.
eu escrevo.
não há erro.
repito.


e estamos vazios
eu, você
e a lua.

é o fim
inenarrável.

é o fim correto.
longe, um do outro, não há mistério.
e a vida escorre pelos meus dedos.
sem lágrimas.

não há erro.
só o fim.

Mariana Belize

domingo, 20 de agosto de 2017

Três

Dei o mapa.
Mas esqueci de explicar
que as pedras são tortas
e que,
pra cair,
basta estar de pé.
Mariana Belize

sábado, 19 de agosto de 2017

nuvens cinzentas
em coelho da rocha.
ilha das flores:
mulheres
procuram repolhos
num rio de alumínio.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Mulher do deserto

Eu não ia falar nada, mas
a verdade é que sonhei
sonhei que as igrejas todas eram pequenos cassinos.
Zarvos, não avisaram pra eles que a vida já é um jogo?
Willer, não avisaram que a banca sempre ganha?
Piva, meu deus, por que não dizem nada?
Eu fico esperando os homens se ´posicionarem.
Mas eles não falam nada.
Frida, pra mim, você não é uma bolsa.
A revolução não será televisionada.
E tudo virou slogan, meu amor.
Onde estamos só tem esterco e um rio de alumínio.
Eu vejo o fim do mundo por um buraco
na parede da sala.
As janelas estão fechadas.
Torço por aquele cara, todo errado.
Um dia, São João da Cruz vai aparecer na cama dele
vai gritar: Noctívago, desperta. Lázaro, desperta.
Teresa te aguarda
mas poderia ser Madalena apócrifa
as heresias não esperam.
Eu não ia falar nada.
Mas ele já se mantém em silêncio por nós todos
né, Deus.
Então porquê eu ficaria mais calada do que ontem
Desde ontem a cidade mudou
Não roubo versos
nem margarinas.
Nem o amor.
Sou mulher, é o que me resta.
Assumo estes seios que a terra há de comer.
Meu olho em transe não adivinha nada
Eu vejo em espelho
Hoje entendo
É, acabou o vinho
tiraram de nós o pão.
Mas não vou esconder mais meus versos
Foda-se o mundo, foda-se se são realmente ruins
Vou continuar escrevendo.
Paulo, Paulo,
enquanto ficava calada era teu eco
Quando falo por mim
sou Hagia Sophia
e uma capela de ossos.
Prefiro.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Pobreza

falo grego:
as palavras ainda
são experiências.

enquanto isso
os best sellers
vendem

e eu cato a migalha da boca
do meu cão.

Mariana Belize

Urbi et orbi

uma pétala
uma lágrima
descendo pelo rosto de Deus
uma montanha
uma enxurrada de contas
pra pagar
um vidro de perfume
da minha avó
um espelho antigo
rachado

eis meu olho
de navalha
eis o murro
na ponta
da faca
eis meu punho
sem útero

meu coração aflito se exalta
em Capricórnio
meus joelhos doem
Câncer está exilado
o Sol se foi.

que as rosas floresçam em vossa cruz
na minha
não

todas as pétalas em pranto
minha cruz de agonia e encanto
encontro Deus e ele está só
eu não encontrei

li todos os livros
ouvi todas as músicas
e estou só
esbarro na noite
sinto o temor
Deus se foi
e o sol se escondeu

uma pétala
um mistério de nome
um segredo da carne
um passado
um qualquer

eis meu nome
eis meu rosto
eis minhas mãos esquerdas
meus pés

eis-me aqui
mas Deus diz:
não há missão.

sou um soldado sem guerra
sou uma bomba sem chão
sou um desalmado passado
sou um futuro inexistente

eis-me aqui
mas Deus diz:
não há missão.

eis-me aqui,
eu grito.

fraquejando, sigo.
não sigo.

entre covardias
e letras,
não sigo.

parada.
estagnada.
deslizo entre as próprias lágrimas

eis-me aqui
mas Deus é surdo
eis-me aqui e mataram Deus
eis-me aqui

e não há missão

eis-me aqui
em oração.

eis-me aqui.
mas é o fim.

Mariana Belize

Tao

arranquei uma pétala
mas era só
meu braço.

Mariana Belize

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Sensível

se alguém perguntar onde está meu tesouro
faço silêncio e não dou resposta
quem tiver olhos que veja
o coração que, ardente,
me habita
presente do universo, dom de Deus
dê a ele a alcunha que quiser
não importa o nome
basta o fato
Sou mulher do fogo
e vigio para que arda.
E se, dentro de mim, há chama divina
é porque alcancei, de dentro da lama, algum aspecto estranho
um degrau
um mistério
uma coisa em si
Inominável.

Mariana Belize


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Alquimia

ressuscitei o macarrão
que você fez anteontem
e lembrei do beijo
estalado

que
só comi ontem.

Mariana Belize

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Dona Helô

Heloísa Buarque sempre foi uma figura com a qual não tive a menor simpatia, mesmo durante a faculdade e sabendo a importância dela para a literatura e estudos literários.
No dia que ela foi na UFRRJ, há anos atrás, eu a ouvi com bastante má vontade porque tinha e, ainda tenho, uma ignorância passional que não cabe em mim. Eu tinha certeza de que estava certa na implicância, assim como tinha certeza de um monte de coisas que, na verdade, estava errada.
Ainda bem que o tempo passa e a gente amadurece. Hoje vejo as coisas de outra forma.
Não deixo de problematizar certas falas, de certas pessoas que ocupam determinados espaços. Mas também não posso dizer que, mediante o esforço de Dona Helô durante todos esses anos, ela não seja corajosa.
Veja bem, trabalhar com literatura marginal não é pra qualquer um. Os canônicos estão aí que não me deixam mentir, os clássicos se mantém clássicos e se mantém sem serem lidos.
Lembremos da surpresa quando Leminski foi o mais vendido... E com POESIA. Que todo mundo enche a boca pra dizer que não vende!
Lembremos dos olhos de Ana C.
Lembremos de Caio F.
E, sobretudo, ouçamos Heloísa.
Mariana Belize.
PS: Dedico este texto ao meu orientador Nonato Gurgel que foi o grande motivador pra que eu baixasse a bola e me tornasse essa que estou hoje

De dentro do meu útero

O branco transformou o silêncio de Buda em fetiche. O branco transformou o mistério em fetiche. O branco fez de um profeta árabe um personagem no qual cabiam seus concílios. Mas tudo isso é muito maior que o branco. Por isso não morrerá.
A branca transformou a "amiga" negra em token, chama de "mana" a mesma mulher que, no fundo, odeia. A branca é frustrada. A branca transforma o próprio cabelo numa imitação, num fingimento de uma realeza que jamais possuiu ou possuirá. A branca OUSA dizer que Vênus veio antes de Oxum. Não só comete erros históricos graves, como zomba da antropologia que o próprio povo branco inventou... ciência de raiz eurocêntrica.
A branca não conhece sua própria raiz, repito, porque tem vergonha da mãe que a pariu, cuidou e alimentou. Da avó, das tias, das primas, das irmãs de sangue. Vergonha da própria família. Não a instituição, nãome venha com seu Foucalt, branca, comigo não cola.
Enquanto, branca mimada, você não souber reverenciar o útero verdadeiro do qual saiu, sem romantizar "Mãe Gaia", sem tokenizar uma crença que não te pertence, você continuará sendo apenas essa poeira perdida nessa egotrip infantil e narcisista.
Repito: Você não é uma deusa. É o resultado histórico e social dos privilégios que sua cor herdou em cima do sangue alheio, do suor alheio...
Não adianta fazer yoga e não lavar a própria louça.
Eu posso falar de igual pra igual com você, branca. Porque eu SOU branca, criada branca de útero branco.
E se estou um quase nada mais lúcida nesse caminho de vida, não devo um milésimo à arrogância branca que tanto cultivei e todo mundo sabe.
Todo mundo sabe porque eu mesma já falei mais de mil vezes a minha perspectiva cultural eurocêntrica de leituras e pensamentos.
Muito pelo contrário, devo sim ajoelhar e agradecer à misericórdia que Exu teve de mim. Oxalá, Ogun, Nanã, Oxum, Oyá... Eles sim. E, sobretudo, ELAS.
E aí sim, eu pude entender meu papel, meu lugar, minha responsabilidade.
Por isso tõ aqui, branca, embaixo desse eclipse olhando pra tua cara que, assumo, também é meu espelho.
Ao contrário de você, eu não tenho vergonha desse meu reflexo pálido. Não te chamo "mana", nem "miga", nem "flor, nem "deusa".
Te chamo de Eu. E de Tu, meu outro igual e diferente.
Nós, o padrão, a branquitude, a palidez.
E é de dentro desta escuridão de eclipse que não temo, de dentro deste temor que não tremo, de dentro desta sabedoria que me deram, de dentro deste útero que fisicamente me pariu. Dentro deste Escorpião vermelho que nos observa da Lua.
De dentro dessa meia-noite, de dentro do meu Orí é que parte, branca, não um pedido. Mas uma ordem:
-Cala-te. Agora e para sempre.