segunda-feira, 24 de abril de 2017

devo(l)ta

quero sair de Deus
no entanto
Ele sempre me acha...
ainda que na ira,
Ele me adivinha
nos olhos de cão
que imito
de Dona Hilda.

Mariana Belize

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

O exercício da Crítica Literária

Tenho lido um monte de sites de resenhas de livros. Não entendo o porquê de nenhum deles ter alguma crítica a algum ponto negativo dos livros.
As obras são realmente tão boas que não merecem, sim, “merecer” é o verbo certo, uma análise mais aprofundada e crítica no sentido de partes criticáveis que toda obra tem?
Uma grande questão se apresenta a partir do momento que alguém pode dizer: “ah, mas é só uma resenha-resumo… não tem a intenção de ser crítica…”
Respondo que isso não existe, a partir do momento que sua opinião está presente no texto, então é uma resenha crítica, só que constando apenas pontos positivos.
Sinceramente, passar a mão na cabeça do autor não faz meu tipo.
se tiver que criticar e falar o que não gostei e o porquê, farei e pronto…
essa é a linha que sigo. com qualquer obra, a crítica, neste sentido, estará lá. E também o lado positivo vai aparecer. Se houver algum.
Esse é o primeiro sentido de “crítica” que o pessoal pensa quando lê a palavra: “Análise avaliativa de alguma coisa; ação de julgar”.
O pessoal tem medo de usar essa palavra, por conta do sentido negativo que deram a ela. Mas qual seria o papel da crítica, então? Calar-se quando a perspectiva da obra é medíocre? Ou usar um óculos de lentes cor de rosa?
Inclusive quando a página do Projeto Literário Olho de Belize foi criada, a primeira coisa que me disseram: “olha, não usa a palavra crítica. Usa ‘análise’, que é uma palavra mais simpática.”
Mas se o trabalho que faço é o de crítica literária, usar a palavra ‘análise’ apenas para agradar aos ouvidos e olhos e egos dos outros não seria uma traição, tanto ao meu trabalho quanto à minha proposta para comigo mesma? sim.
É por isso que estou retomando os trabalhos neste ano de 2017, custe o que custar, carregando o termo “crítica literária”. É o que me proponho a fazer, esse é o nome correto e não “análise”.
Os autores aceitem ou não. Isso não me afeta em nada.
É crítica literária o que faço, apesar dos pesares e dos preconceitos…
“ah, mas vc é só uma graduanda… vc não pode dizer que é crítica literária o que vc faz”…
Isso aí já é uma discussão pra outro momento.
Mas fica a pergunta: O exercício da crítica literária é apenas uma questão de diploma? Ou de conhecimento técnico da área? Ou de doutorado? OU será que todos os anos de faculdade, escrevendo resenhas críticas não me serviram de nada?
No mais, digo que continuarei… “against all odds”.
O Projeto Literário Olho de Belize é uma página de resenhas críticas a todos os tipos e modos de arte e artistas.
E, à propósito, o que é resenha crítica?
“Resenha-crítica:
É um texto que, além de resumir o objeto, faz uma avaliação sobre ele, uma crítica, apontando os aspectos positivos e negativos. Trata-se, portanto, de um texto de informação e de opinião, também denominado de recensão crítica.”
http://pucrs.br/gpt/resenha.php
E é isso que se faz aqui.
Desde já agradeço.
Laroiê!

Mariana Belize

Sobre sagrado feminino

Sobre sagrado feminino:
sim, a ideia é linda, parece perfeito. “vc vai ter uma aceitação do seu corpo, vc vai ter uma conjunção perfeita entre mente e alma, vc vai ter ‘poder pessoal’” entre outras ideias que chamam a atenção de mulheres que estão perdidas, inseguras, que vem de épocas traumáticas, se sentindo fracas, e também mulheres insatisfeitas com suas vidas, etc, etc, etc ou com as religiões tradicionais…
Sagrado Feminino é uma utopia. Pq?
1. vão ter milhares de mulheres manipuladoras se fazendo de “mestras” de outras mulheres e repetindo padrões de violência psicológica sim. Se vc acha que não, experimente discordar delas algumas vezes.
2. rola dinheiro. Sim. Você começa com um livrinho e daqui a pouco, vem os cristais, os cursos de alinhamento de chakras e vários blá blá blá que podem te dar uma ilusão de ajuda, e no fim, só vão mesmo te fazer pagar muito caro.
3. existem mulheres de mal caráter. sei que disse isso no número 1, mas não custa nada reforçar. E normalmente, como boas psicopatas que são, se disfarçam muito bem, com seus sorrisos e palavras decoradas.
4. já falei dos vampiros energéticos. então, existem vários nesses lugares, sendo “mestres” e se alimentando da energia das incautas. E do dinheiro também. Existem também alunas vampiras. E “vampiro” aqui, se vc é espiritualista pode crer que é nesse sentido. Se vc não é, então entenda como metáfora.
5. Conselho: procurem terapia, ao invés dessas esquisoterices. Busquem autoconhecimento, uma relação saudável entre você e você mesma, sem interferência de gente de fora. Se procure, se cuide, se olhe. Olhe para dentro. Anote o que gosta, o que não gosta, por que não gosta, por que gosta. As perguntas e as respostas de vocês, só vocês é que podem saber. Nem igreja, nem mestre, nem companheira, nem porra nenhuma dessas coisas vão saber e descobrir por vocês. Conheçam seus corpos, suas mentes, seus desejos. Pinte, borde, faça música, cante… vá pra Arte. Sério.
6. Charlatões existem em todos os lugares. Só mudam de endereço.
7. Laroiê, Exu!
8. Não somos celtas. Não somos indígenas. Não somos xamãs. Não somos deusas. Não somos gregas. Não somos. Somos mulheres brasileiras. Aceite quem você é e onde você está. Abrace o tempo do agora. Se acredita em reencarnação, ótimo! Mas não adianta ficar “puxando” um passado que já foi, pra viver agora. Não vai funcionar.
9. Regressão é perigoso.
10. Hipnose é perigoso.
11. Não vou responder a nenhum comentário pq não tô a fim.

Mariana Belize


Sobre a ação

A gente tem a obrigação de fazer aquilo que acredita, desde que não prejudique o coleguinha. Mas defender a própria posição é necessário pra não viver engasgado com a própria voz.
às vezes eu repito isso pra mim mesma, pra que eu possa acreditar outra vez no que faço.
Foi tanta gente dando pitaco na minha vida toda, do início ao fim e não digo que foi por mal ou por bem, mas tem uma hora que a gente se dá conta de que o pessoal tá vivendo cada um as suas vidinhas.
E que a você só resta viver a sua da melhor forma possível pra vc mesmo, de acordo com as suas ideias, sonhos e proposições de alma.
É complicado, é um equilíbrio, é pau, é pedra, é o fim do caminho.
É andar num fio de navalha, é ter gente achando que você é grosseiro, mas sinceramente vale mais a pena usar amarelo pq vc quer, do que a blusa preta que o outro acha mais bonito.
O autoconhecimento é a raiz disso, é o que eu acho que é melhor pra mim. o tempo é que vai dizer se tô certa, assim como diz pra todos.
Insistir no erro? tbm posso, se quiser.
É aquela história:
“não sei onde tô indo, mas sei que eu tô no meu caminho…”
Parece doideira, mas a individuação é necessária.
E é clichezão daqueles bem Pequeno Príncipe… mas, sempre é melhor ouvir a própria intuição.
E o próprio coração.

Mariana Belize

Sobre vampiros energéticos

Aos vampiros energéticos conscientes:
existe gente que sabe da existência de vocês. Sim, existe MUITA gente que sabe. Você não é o fodão, nem a fodona. Não adianta se esconder atrás de nenhuma ideologia. Nesse ponto você são todos iguais. Sempre usam o mesmo método. Sempre.
Primeiro, você começam com todos os sorrisos do mundo. Vocês conquistam até os mais inteligentes. Pq não é questão de inteligência. Eu achei que era, mas não é. É uma questão emocional e, eu como umbandista, me arrisco sim a dizer que é algo espiritual também. Mas continuemos no lado emocional que o pessoal é laico…
Então, vocês vem com os sorrisos, os elogios e vão pegar um bode expiatório. Esse “bode” será sempre tomado como diabólico, o errado, o demônio, o ignorante, entre outros. A vítima não… a vítima, por enquanto, será o dourado. O dourado é aquele em que estão todas as qualidades. E isso é bom, isso vai no ego, naquela carência que a gente nem sabia que tinha. Vai lá no fundo do coração que muita gente acha que nem tem. Vai lá na auto estima… e afaga.
Então. É nessa hora que o bagulho fica doido. Pq o vampiro começa a pirar depois de um tempo de fazer vc de pilha. Você, cansado, não dorme direito, não come direito e provavelmente pensa mais no vampiro do que em você mesmo.
Mano, mana, acorda. Você não tá louco. Nem louca.
Isso é um relacionamento abusivo. PARA. PENSA. ANALISA.
SIM.
Esse vampiro pode ser qualquer um: pai, mãe, padre, pastor, namorado, namorada, amiga, amigo, feminista, de direita, de esquerda, do caralho a quatro.
SE LIBERTA E SOME ENQUANTO HÁ TEMPO.
PS: depois vc vai descobrir que o bode de ontem é simplesmente alguém que não conseguiu escapar a tempo e saiu tão na merda que fudeu a própria vida inteira e todas as relações saudáveis que tinha.
PS: Fica a dica, vampiro: a gente vai te caçar até o fim. Exu tá de ronda.

Mariana Belize

Sobre leituras

Tem que ler as mulheres. Tem que ler sim. Tem que ler to-das as mulheres.
Mas tbm tem que ler os ômi. Sabe por quê? Pra saber como funciona a mente deles. Tem que ler a “Alta Cultura”, tem que ler sim. Pra debater bem, pra meter a espada deles, neles mermo. E lá no fundo, lá onde eles conhecem, lá na autoconfiança deles. Lá onde eles pensam que “mulher não entende filosofia”, que “mulher não sabe ter pensamento filosófico”.
Tem que ler Adorno, não porque ama a Alemanha e tudo é lindo, mas pra entender a sociedade de indústria cultural, tem que ler o Kant pra entender os desdobramentos dele na sociedade, tem que Hegel, tem que entender Heidegger. Tem. Tem que ler os conservadores? Tem sim. Toma um dramin e lê.
Sabe por que? Porque temos que compreender os mecanismos que inventaram essa sociedade, o que está na infraestrutura, o que está nos alicerces que nos mantém aqui, presas, ganhando salários menores, sofrendo humilhação.
Tem que saber fazer o movimento contrário. Tem que conhecer essas filosofias, sociologias, essas logias todas sim.
Pra discutir melhor. Pra combater melhor. Pra pensar melhor diante da estrutura.
Sabe pq?
A gente não vai quebrar tudo e fazer tudo de novo.
Primeiro, a gente que sobreviver a toda essa merda que tá aí pronta e fedendo e querendo ver a gente morta. A gente tem que sacar essa merda. Entender essa merda. Saber da onde veio essa merda, pra onde quer ir, pra onde quer levar todo mundo nesse balaio de gatos.
A gente tem que ir minando essa desgraça toda, por baixo. Infraestrutura. Infraestrutura…
Aí sim. Tudo desaba.
Mas sem estratégia?
Nada será feito.

Mariana Belize

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Calunga

a morte é um peixe:
sem pálpebras
observa a humanidade.
dorme, seus temíveis olhos
mantendo-se como escancaradas janelas
e joga seu véu sobre a cidade.
uma escama dela se
esparrama
sobre meu olho
e já era.
Envergo a coluna sob a obsessiva
Lua.
Ela, a que canta para a Morte
mas, para si,
não resta nada.
A noite calada é neutra
pétala da Lua...
se doura nas lágrimas dos insones poetas...
se machucando em cada verso branco.
De dentro, seu silêncio me escolhe
e desenha em mim estas histórias.
Eu, Matinta-Pereira.
Mariana Belize

Ontem


sob o esquerdo peito
vermelha rosa
surgiu...
Amor, eu respondo:
a rosa é a chama branca.
Eu sou a Paloma.
Mariana Belize

10 dias


fraude na verdade, ela me conta
ela é o silêncio incrustado nas paredes
Ó Mãe, sim, eu a chamo "mãe"
e grito até o delírio meus porquês.
todo nome é uma capa
um esconderijo tirano
um breve black-out
num piscar de olhos.
minha mãe, a deusa,
a grande estrela da manhã
e o sol também:
é a Dúvida.
Mariana Belize

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Ingênua lua

Encontrei o Sol
mas estou cega.

se não com coração
de lírio,
como verei
o amor
outra vez?

Mariana Belize

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Urtiga

As ações
julgadas
perdidas
guardadas na memória
da Árvore da Vida...

Por toda eternidade,
inscritas com fogo
e furor
em cada risco
concêntrico de seu caule...


Mariana Belize

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

O Pensamento é todo sentimento:
luz da Lua.


Mariana Belize
Quatro palavras que lês,
nenhuma compreendes.

"ah! é só uma moça ingênua..."

sim...
mas, aquela que leu as estrelas
ouvia, antes, a voz de Deus.
e toda profecia é engano

até, irmão... até que se faça cumprir.

Mariana Belize
ouço, portanto, o que o céu grita
em silêncio.
Da Lua... Desvio.
Engulo o Sol. Cinzento estômago... brilha.
Define a matemática da Beleza,
coloca na linha, une x e y, erra o cálculo, apaga:
volta.

Ouço, portanto, o silêncio.
imprimo o documento.
entrego a carta.
E
me mato de Amor.

Mariana Belize
qualquer mistério escrito:
hipnótico enigma.
qualquer designado fruto:
julgamento do combate.
qualquer grupo de pessoas
cala o silêncio em um segundo.

fique só.

Não se entregue à perdição.

Mariana Belize
ouço tudo a minha volta sem vírgulas.

Mariana Belize
pense
ontem.

Mariana Belize

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Segredo

Vivo no passado todos os erros que cometerei.
o presente que me restará, não sei. Umas vírgulas e estarei bem.
Não sinto nada. Isso é um problema.
Às vezes, choro enquanto monto outro personagem.
Nesse intermezzo não sinto nada. A lua é só a lua. Não há lobos. O latim me persegue, algo assim.
Mas depois nascem as flores, colho os frutos e consummatum est.
Quando a cruz desce, no próximo ano, é hora de regar os corpos com leite e mel
desenterrar da memória as cantigas... Recolher as espigas.
E depois de agosto, as coisas começam a desandar. O vidro embaça, a voz se intranquiliza. Ossos quebram.
A máscara descolore.

E outra vez começaremos a construção.
Gritaremos Feliz Ano Novo!
E mais uma máscara está feita.

Enterrada a memória, quem saberá?

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Existir como quem se arrisca

Não sei que quero mais procurar o verso perfeito, uma rima brilhante que a todos iluminaria e tiraria desse tédio. Não sei se o que procuro, já achei ou nunca vou sentir. Meu corpo me diz as verdades em linguagens ininteligíveis, indecifrável coração, tirano obtuso. Bato a cabeça tentando entender tudo e não morrerei antes de aprender a desaprender de quem sou ou estou. Nada é essencial, somente os banhos de chuva trazem as verdades benditas do céus. As nuvens beijaram os ossos de Goethe antes que eu pudesse vê-los. Ele morrerá novamente. Eu também, mas posso ainda identificar o jasmim lá longe. Sem vírgulas, estes são os meus textos mais sensatos. Não sei parar de escrever simplesmente. Não consigo me trair a esse ponto de pensar que é loucura sentar e tratar de escrever, repetir, desdizer e sim, principalmente mentir. Mas fico calada quando a chuva cai porque o encanto vem do silêncio que faço e não da palavra que escrevo, não do dedo que me aponta, não do homem que me julga impunemente. Os textos nos quais não respiro, a língua portuguesa se apresenta com alguma verdade inquestionável que não conheço e não consigo explicar pra alguém. Todos entendemos tudo errado. Os ossos de Goethe são os poemas que foram pro lixo. E do mesmo Goethe quem veio depois não fui eu, mas outro alguém e começaram a usa-lo como bandeira de qualquer coisa que ele nunca concordou. Eu não sou bandeira. Eu não sou Bandeira. Nem ele é ele ao qual cultuam. As pessoas cagam, copiam os textos, sem entendê-los, não querem trabalho de ler e ler e ler outra vez. Outras vezes em que me calei foi porque o silêncio que me invade é inexplicável e saiu como a lágrima que o pássaro me deu de presente. Escreva sóbrio, revise sóbrio. Eu estou sóbria do alcool, mas embrigada de Chopin que é uma das poucas coisas que ainda me move a existência. É ouvir e calar diante do homem e sua arte, Deste homem, seus dedos, seus olhos, sua arte, O piano ficaria calado nas minhas mãos, mas nas de Chopin o piano sei lá. Goza.

Escrevo porque não tenho psicanalista.
Escrevo pra não morrer em dívida comigo mesma.
Escrevo porque estou só. E não tenho dúvidas:
encaro a verdade de que morrerei só.
E isso é beleza! isso é fúria! isso é tempestade!

Isso é Amor.

Todo Mundo

todo mundo sabe das tuas rixas
consigo mesmo
todo mundo quer saber quando você vai
se matar (pra ligar a filmadora na hora certa)
todo mundo quer o espetáculo
dos olhos estreitos pela noite rolando aquela voz horrível que te diz
que toda tragédia é perfeita e bem vinda
todo mundo quer tua dor pra café-da-manhã (no youtube)
teu sangue pro almoço (no twitter)
teus ossos pra roer na noite obtusa durante o programa do Jô
todo mundo quer saber por que você não se deita logo, porra
Anda em círculos procurando algo nessa tarde estreita
a ideia perfeita
todo mundo te rejeita
e você é todo esse mistério
e você é todo esse segredo
e você é esse humano divino

todo mundo te odeia.


Mariana Belize

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Dúvida

fico agoniada porque sei que o silêncio não tem recompensa.
ela me culpava por tudo, inclusive por eu querer sempre ser vista.
egoísta, egoísta, ela berrava.
fico agoniada por ficar calada e a verdade sumir.
justiça lenta, faca amolada.
o povo amarrou meu coração no poste e imolou.
tudo corre em círculos nas minhas cabeças.
e escrevo quando tudo corre
para que as palavras não silenciem.

beijo o mundo, as cartas voam
ninguém lerá

talvez eu não tenha encarado toda maldade do mundo...
talvez.

Mariana Belize

14

baú de escorpiões
e sou Pandora nessa vida.
Nada, nada de carregar bandeira.
Sou a parteira do novo silêncio.

Mariana Belize

Diário 2

"Nunca subestime o poder da negação."

Nada a ver. Eu sempre disse sim. Assumidamente sincera.
Mentira.
Você usava o Freud na sala de aula feito um maníaco. As frases saíam quase automaticamente. Eu lembro de algo, mas logo esqueço. Só com você as memórias são verdadeiras. O resto é pieguice de pedir perdão e dizer que errei sem verdade alguma. Os olhões castanhos engambelam muita gente ainda. Menos seu Freud, carta escondida na manga. Ninguém sacou.

Ainda se sente no lugar errado? Aquele tédio como um tapete vermelho indo de uma sala a outra? O quadro quebrado. Só a sintaxe faz sentido.
Dentro do mundo, perfumo a existência com as lembranças engraçadas. Depois tudo ficou trágico e eu prefiro esquecer. De você, guardo as idealizações com carinho numa caixa de Pandora. E gosto mesmo sendo terrível. Amargo homem, que bicho te mordeu a memória?

Mentira. O homem encharcado da hipocrisia alheia se torna o monstro que todos negavam. O espelho incalculável, o bode expiatório. Sei que inventaram muita coisa e você sempre foi o inimigo perfeito pra eles baterem, inclusive eu bati também. mas eu bati de ódio. Você sabe que não perdoo ter sido deixada de lado. Mas é isso e pronto. Eu assumo, você sabe. Tudo certo.
Tudo certo?

Tem algum erro aqui, tem? Você está aqui. Mora aqui. Come algo aqui. Eu sempre deixo um pedaço meu aqui. Não joga a carne fora.
Não dessa vez.

Eu sei que é você e você sabe que sou eu. Isso basta.

Isso basta?

Mariana Belize

Diário 1

"Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se, 
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. 
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos."

C.D.A.


Hoje, amor, estão vendo aquele filme que você gosta. O "Beleza Americana". Você nem lembra quando falou dele pra mim, mas tenho certeza de que você achava que eu era aquela menina loira... Na virgindade e na covardia. Por que eu não iria até o fim nos meus anseios, né? Não mesmo.

"Teu ombros suportam o mundo"

Gosto de quando o protagonista morre e vejo a sua cara no lugar da dele. É bom, sabe? 
Dá uma leveza...
Ainda não consegui te sequestrar... acho que você não cabe no porta-malas... sei lá, você ia ficar se debatendo. Ia ser chato ter que te surrar pra enfiar no banco de trás. Ainda tem os engarrafamentos... e a despesa com comida. E minha preguiça de cozinhar pra você, banhar você, trocar de roupa...

"Tempo em que não se diz mais: meu amor."

Bom, às vezes eu penso em arrumar o cubículo lá fora e te deixar lá uns três meses mofando.
Em outras penso como você ficaria bonito pendurado num poço de cabeça pra baixo. Eu gritaria seu nome e ele ecoaria...
Mas eu amo. É, amo cheia de ódio. Bem ódio mesmo. Daquele bem brilhante, genial e bonito que só eu tenho. E que arrancaria todos os seus dentes um por um... Com muito amor.
O ódio sempre escorre pelos corredores dos meus sonhos quando esbarro numa porta daquelas com retângulos de vidro... e seu perfume sai de lá, volátil feito as memórias.

"Alguns, achando bárbaro o espetáculo, 
prefeririam (os delicados) morrer."

Eu não sou loira.
Mas você queria que eu fosse alguma coisa diferente.
Tenho medo de aceitar a ideia de que você foi o único que me aceitava como eu era.
Aceitação é difícil entre covardes. Você é um menino ainda. E eu falo com você por causa disso.
É claro que você nunca ouve. Prefere ver o Roland Garros nos meus sonhos.

Mas você pequeno era mais fácil de cuidar. Agora... eu já não sei. Só amarrado, amordaçado, quebrado, surrado. Belíssimo! Sem óculos, rasgado, diplomas flutuando... sem memória. Chutado.
As feridas abertas. Algumas outras costuradas porcamente. Homem inflamado. Homem cego de um olho. Olho guardado num frasco. Homem cobaia de laboratório. Eu ainda bato na mesa quando falo.

Você me acha burra.
Não, não é uma pergunta. Eu sei.

"A vida apenas, sem mistificação."

Mariana Belize