terça-feira, 21 de novembro de 2017

Dríade

"Rimas, de ventos e velas
Vida que vem e que vai
A solidão que fica e entra
Me arremessando
Contra o cais"

Meu nome é barco
O mar do coração 
tempestade e fúria
som sem sentido
que me arrebata

Meu nome é rio
mas sem sorriso
eu multiplico
e me renovo escondida
numa caverna de ouro
e pérola
Ostra

Meu nome é campo
E de dentro de mim
as flores
e Deus permanecem em candura 

Meu nome é céu.

Mariana Belize
olhodebelize.wordpress.com

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Água fervida

"nada mais vai me ferir
é que eu já me acostumei
com a estrada errada que eu segui
com a minha própria lei"

Fabriquei em mim uma ferida
que mantenho aberta por vaidade
não tenho medo que me enfraqueça
ou me engula,
de verdade.
A pele é macia, o osso duro
o sangue cor de rosa por causa da anemia
também é ralo quando escorre
fácil de limpar e limpar e limpar
e é um rio que escorre do meu peito
um rio de delírios, imagens, rostos e deformações de teorias aparentemente
bem explicadas cientificamente
mas eu continuo sendo a minha ferida
irmanada com ela desde o princípio ativo do mundo
a ferida uma boca aberta aguardando a morte
a ferida uma fome grande
a ferida do mundo
sou eu

a ferida minha ferida
o mundo
e eu

o coração é grande e onde não teve martírio
nem crucificção
nem sacrofício
continua sendo meu
território vasto inafiançável
não tenho aquele medo
não ouvi as histórias que contaram
nem me retirei quando mandaram
nem dormi quando deram
o chá

eu alucinei sozinha nos campos
com o pólen
e disseram que era rinite
mas eu vi dionísio e as bacantes
eu arranquei a cabeça do homem pequeno que sombreou o sol

e não era nada
um espantalho rindo.
Apresentei ao rei
a cidade continuo
caçaram as barbas e os rios
encheram-se de corpos de monstros

mas o filho tinha morrido

eu alucinei sozinha
mesmo com os antialérgicos em dia

mas era só uma tevê ligada

no meio da floresta bárbara.

Mariana Belize
olhodebelize.wordpress.com
fb.com/olhodebelize

Andrea Doria - Legião Urbana

Às vezes parecia que de tanto acreditar
Em tudo que achávamos tão certo
Teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais
Faríamos floresta do deserto

E diamantes de pedaços de vidro
Mas percebo agora que o teu sorriso
Vem diferente
Quase parecendo te ferir

Não queria te ver assim
Quero a tua força como era antes
O que tens é só teu
E de nada vale fugir
E não sentir mais nada

Às vezes parecia que era só improvisar
E o mundo então seria um livro aberto
Até chegar o dia em que tentamos ter demais
Vendendo fácil o que não tinha preço

Eu sei, é tudo sem sentido
Quero ter alguém com quem conversar
Alguém que depois
Não use o que eu disse contra mim

Nada mais vai me ferir, é que eu já me acostumei
Com a estrada errada que eu segui e com a minha própria lei
Tenho o que ficou
E tenho sorte até demais
Como sei que tens também

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Zeitgeist 90

Nascemos pós
vivemos a pós
do pré
e o antes do fim é só o início
de tudo.
Travesseiros feitos de nuvens e
nada.
Vivemos pós sem compreender o método
anterior
a estrutura de marfim e pérola
invisíveis
essas cadeias de sangue, ódio, tortura e ira
Somos as consequências
Colhidos depois da maturação
da degenerescência
Não, que nada!, era um tempo mau
Nós não temos flores nem desgínios
Nós não temos frutos nem fé
Não teremos tempo de culto nem de amassar argila

Telas, contratos, requisições
Documentos, atas, processos
A mente mente e nos engasga
Confeitos da ignorância
sobre nossas cabeças sem número

Aos pés, a lápide
a rescisão
uma pane no sistema
o abandono do mundo não é tão ruim
basta um aperto no botão
E mudamos de canal
Batemos em retirada de qualquer senso
crítico
Somos a chapa branca
quente
à pé concordamos que o cinema
não era vida
perscrutamos atentamente...
e era somente duas horas
depois três
de propaganda.

vendemos nossa criatividade
ao marketing
nossos desejos tragados pelas internets
nosso sexo engolido pela indústria
nossas letras ministeriais
não são mais belas

secas e tórridas histórias
perscrutamos diligentemente
até o osso

Assentimos fielmente
ao denso panorama de nossas cartas natais
Ficamos sem sinal nos celulares, aí já é demais...
E nossos ídolos ainda são os mesmos
as aparências nos invadem, colorem, ressoam
Ídolos de pedra e gesso aos quais adoramos
quietos
enquanto eles roubam nossos cartões de crédito.
Débito em conta, é pra já, meu senhor.

Analisamos as vertentes estéticas
percebemos que o certo era o certo
e a arte, o tráfico de drogas, a política
eram a mesma e indefinida instituição de caridade.
E nós esquecemos de que a impiedade é secularizada.
E a piedade não nos cobre a bunda
desde os anos 70.

A piedade...como é velha a piedade....

Atrasados, antiquados, maquínicos
mexendo os dedos assim
Somos os perdidos de 90
os das balas de festim

Somos os 90 do meio
Sustentados pelas múmias paralíticas
e mal abrigados do pus
que a sociedade secreta
de seus ais
Esse país inexistente tem sua razão
em regra de três

Inoculados de Golfo
Odiando a Etiópia
Somos os 90 brancos
Criados a leite e pera
Rechaçamos o carnaval

Somos os desconhecedores da História contada
e recontada
e transtornada
Somos os minúsculos
A poeira conivente com o tapete
Somos os entre-eras
Os restos
Somos os que ninguém escuta
sobre assunto nenhum
Somos os que não ouvimos nada
também

E ninguém
repito
ninguém nos ouve
porque estamos sempre equivocados
e obsoletos
Não temos nosso próprio tempo
e os vampiros do teatro
somos nós.
Não escrevemos nem ditamos
nossas próprias historietas.
Somos incapazes
de enxergar o mundo a nossa volta
o mundo de dentro
o mundo do mundo
e o fora do mundo.

Somos umbigos ambulantes
sujos
sórdidos
pérfidos
mas exclusivamente bem educados
cordiais
e simpáticos.
Sim, damos bom dia ao porteiro.
Inclusive, às vezes, somos o porteiro.
Mas não somos nós que fazemos as leis.

Somos uma bandeira de sangue
Somos um ódio escondido
Somos uma ira abafada
Somos um bando de protofascistinhas
Todos de uniforme da escolinha particular
Amando e tratando muito bem
a tia Cotinha

Os que não são protofascistas
sim, porque eles existem!
tentar bater coontinência
a outros reis
invisíveis

Não somos sábios.

E os que não são
uma coisa
nem outra
Equilibram-se nas cordas do intestino grosso
Pensam em torres fulminadas
e em porquê Dragonball terminou mais cedo
um absurdo
uma abominação

Arcanos fulminados
almas em declínio
engolimos lixo
vomitamos ouro
ou achamos isso

pais obsoletos
counter strike
um lolzin pra garantir

paint
win
qualquer coisa
assim

tivemos pais obsoletos como eu dizia
e fomos amamentados por mulheres narcistas
uns úteros infelizes
que pensavam nas pensões alimentícias
os espermatozóides combinando
de quinze em quinze dias
visita ao filho
ou a filha
ou a alguma coisa que se mexe ali dentro
ali dentro
ali
dentro do berço, do cachecol
depois dou um presente
e peço a rescisão

e nossos cordões umbilicais cortados
foram rapidamente ligados
a caixa economica federal

Somos os que não deveriam ter vindo
porque a pílula já existia
Mas vieram
porque temos caras de cheques bem polpudos
e trevos da sorte
e somos escudo para a geração anterior e
suas digníssimas merdas

Nascemos de planos sórdidos de sinhazinhas
entre novelas de golpes de barriga
das mulheres lindas e terríveis
e bundas e peitos inocentes
e vilezas que moram na alma
que bebeu o sangue dos mortos
abortos anteriores
não valeram de nada.

às vezes eram nós mesmos
às vezes outros
às vezes fel.

Somos os peritos criminais
meros carcereiros de nós mesmos
um resto de poeira no espelho da mãe
um resto de tinta na caneta do pai

Somos os filhos terceirizados

Somos o resto do século XX
o lixo orgânico da congestão fabulosa
somos o entrave do novo milênio e da era de aquarius
esse lixo que vocês inventaram
a custa de lsd e cadáveres mutilados

e nós é que somos mentirosos e cheio de vilezas.
vilanias e cercados de ovelhas negras

Aos 10 anos, fomos o bug do sistema.
A falha da Matrix aos 11.
Aos 12, já reconhecemos Lord Voldemort.
Aos 15, Osama Bin Laden.
Aos 18... qualquer coisa entre fuzis e AR-15.

E à nossa frente um eterno futuro
desconhecidos somos sem passado
nem pátria

Não gostamos de tropicalismos
não sabemos de macunaímas
nem nos interessa o fim da raça indígena
não entendemos a importancia da alegria
nem essa guerra qualquer em todo canto qualquer
se com um botão
puf
já era

não apreciamos a arte propaganda
Hollywood formou nosso zeitgeist
entre traumas e rolês
Nosso espírito da época
é um dementador cego.
Nosso patrono é antigo, mais antigo que as trevas.

O tropicalismo foi a boca do século XX.
Somos o cu.

Não mudamos o mundo.
Nem mudaremos.
Não lavamos nossas roupas
Nem escovamos nossos dentes
Não

"Estou muito triste porque não tenho dinheiro."
Porque nao sou dinheiro
Porque não valho nada

Estamos tristes porque não somos Midas
assim nascemos
filhos da cólera e da tristeza
netos da miséria e da ignorância
bisnetos da hipocrisia da raça branca

Uma apareência de família louvável
dourada na crosta
essencia podre
que nós dilaceramos e
nos tornamos ocos
e sujos
Na perspectiva de que tudo é
nada.

Nós sobreviveremos.

Nada aconteceu.

Pois bem, mudou o mundo
mas assim é o mundo
assim são as coisas que o cercam
coisas são pessoas

e todo dia
aguardamos ansiosamente
o apocalipse
como única diversão real
impossivelmente real

não sentimos medo
não sentimos nada

Amor pela destruição
foi-se o tempo

nem tédio
nem caos

nem filhos da revolução.

Não viemos gerar ordem
nem nova, nem velha.
Viemos aguardar a destruição.

Somos fortes e cínicos.
Somos redemunhos esfaimados.
27, somos o 90.
Os 90 trabalhos de Hércules.

E o mal de nossa geração?
O silêncio inominável.
A abominação eterna.
Somos o mal desnecessário
de pisar na terra.
Um deletério sistema
Posso ouvir nossos gritos
Todos louvando juntos
o eterno salário mínimo
Todos anotando o verdadeiro
pacto
"Eles vão suportar
o impacto?"
"Vão!"

Estudamos, mas não lemos.
Trabalhamos, mas não fazemos.
Sabemos, mas não ensinamos.

Venha a nós
Seja feita a nossa vontade
assim no céu como na terra
e no inferno triplo.

E não somos nada.

Choramos nossas lágrimas de Letes
Que não conhecemos
Tudo foi feito pelos livros
enquanto nós dormíamos.

Nossa geração não existe.
Somos, ao fim, um amontoado
de erros freudianos.

Nem Édipos, nem Antígonas.
Nem Tirésias.

Meu olho avista nosso santo sem véu
E no computador Win 95
posso enxergar nosso padroeiro sem corpo

Rezemos um Pater Nosso
A nosso padrinho:
Salve, salve
a cabeça de São Penteu.

Mariana Belize

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Rum

meu corpo é um tambor
batizado e alimentado
é o som do orixá
que brota
assim, assim
de lá pra cá
mas também sou o vento
que cega a lâmina da maldade
o trilho, o parafuso e o trem
da minha cidadela
não julgo, nem absolvo
não me compete esse cargo
guerreio
sentado na estrada fumando tabaco
quizilo o homem
furando seus sapatos
quizilo a mulher molhando seus cabelos
vinho de palma, azeite de dendê
água de cabaça, samba pra vencer
quem me aguenta
ultrapassa a si mesmo
e essa dor de estar sozinho
e essa dor de estar sozinho
essa dor de estar sozinho
é uma pétala inexata
da flor inesquecível.
esse dom de estar sozinho
esse dom de estar sozinho
é o combate amargo.
molha o combate
com água que arde.
molha a dor
com água que arde.
ria comigo.
brinque comigo.
fume comigo.
não há pecado.
laroiê!

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Ubuntu

Não dê a Afrodite essa sobrevida
de uma energia que não
é dela
nunca foi
Não dê a Afrodite essa sobrevida
querida
essa sobrevivencia
sofrida
que ela nunca teve

A Nzinga me disse:
"Nossos deuses são reais."
Meu pai respondeu:
"Estamos vivos"

Não dê aos seus mortos deuses mortos jeovás
furiosos em enterros, raivosos entre túmulos
e tudo mais de crisântemos e terra escura infértil
Não dê ao seu deus morto
essa sobrevida
que, em nada, é divina.

Quem canta Laroyê
é porque conheceu a dor.
A verdadeira dor
aquela diáspora que permeia
pele, osso, corpo, mente
coração de todos
e um só
Ubuntu
que só quem é, sabe
que só quem é, conhece
quem só quem é
verdadeiramente
abraça
Ubuntu
beija Ubuntu
a força
ubuntu
sagrada.

Não dê aos seus mortos essa sobrevida triste
sem dinâmica
meus espíritos estão nas árvores, atravessam tempos
e jamais definharam
porque vivem
no Orí
Ubuntu, fêmur Nagô.

Nzinga me ensinou:
"Peça misericórdia a Xangô."
Eu pedia vingança.

Não dê aos seus deuses essa sobrevida
aculturando
desculturando
transculturando
o que não te pertence.

Meu fêmur é meu.
Orí é um.
Ubuntu é só pra quem viveu.
E vive.
Sobre tudo,
vive.

Laroiê!

Mariana Belize

domingo, 20 de agosto de 2017

Três

Dei o mapa.
Mas esqueci de explicar
que as pedras são tortas
e que,
pra cair,
basta estar de pé.
Mariana Belize

sábado, 19 de agosto de 2017

nuvens cinzentas
em coelho da rocha.
ilha das flores:
mulheres
procuram repolhos
num rio de alumínio.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Mulher do deserto

Eu não ia falar nada, mas
a verdade é que sonhei
sonhei que as igrejas todas eram pequenos cassinos.
Zarvos, não avisaram pra eles que a vida já é um jogo?
Willer, não avisaram que a banca sempre ganha?
Piva, meu deus, por que não dizem nada?
Eu fico esperando os homens se ´posicionarem.
Mas eles não falam nada.
Frida, pra mim, você não é uma bolsa.
A revolução não será televisionada.
E tudo virou slogan, meu amor.
Onde estamos só tem esterco e um rio de alumínio.
Eu vejo o fim do mundo por um buraco
na parede da sala.
As janelas estão fechadas.
Torço por aquele cara, todo errado.
Um dia, São João da Cruz vai aparecer na cama dele
vai gritar: Noctívago, desperta. Lázaro, desperta.
Teresa te aguarda
mas poderia ser Madalena apócrifa
as heresias não esperam.
Eu não ia falar nada.
Mas ele já se mantém em silêncio por nós todos
né, Deus.
Então porquê eu ficaria mais calada do que ontem
Desde ontem a cidade mudou
Não roubo versos
nem margarinas.
Nem o amor.
Sou mulher, é o que me resta.
Assumo estes seios que a terra há de comer.
Meu olho em transe não adivinha nada
Eu vejo em espelho
Hoje entendo
É, acabou o vinho
tiraram de nós o pão.
Mas não vou esconder mais meus versos
Foda-se o mundo, foda-se se são realmente ruins
Vou continuar escrevendo.
Paulo, Paulo,
enquanto ficava calada era teu eco
Quando falo por mim
sou Hagia Sophia
e uma capela de ossos.
Prefiro.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Pobreza

falo grego:
as palavras ainda
são experiências.

enquanto isso
os best sellers
vendem

e eu cato a migalha da boca
do meu cão.

Mariana Belize

Urbi et orbi

uma pétala
uma lágrima
descendo pelo rosto de Deus
uma montanha
uma enxurrada de contas
pra pagar
um vidro de perfume
da minha avó
um espelho antigo
rachado

eis meu olho
de navalha
eis o murro
na ponta
da faca
eis meu punho
sem útero

meu coração aflito se exalta
em Capricórnio
meus joelhos doem
Câncer está exilado
o Sol se foi.

que as rosas floresçam em vossa cruz
na minha
não

todas as pétalas em pranto
minha cruz de agonia e encanto
encontro Deus e ele está só
eu não encontrei

li todos os livros
ouvi todas as músicas
e estou só
esbarro na noite
sinto o temor
Deus se foi
e o sol se escondeu

uma pétala
um mistério de nome
um segredo da carne
um passado
um qualquer

eis meu nome
eis meu rosto
eis minhas mãos esquerdas
meus pés

eis-me aqui
mas Deus diz:
não há missão.

sou um soldado sem guerra
sou uma bomba sem chão
sou um desalmado passado
sou um futuro inexistente

eis-me aqui
mas Deus diz:
não há missão.

eis-me aqui,
eu grito.

fraquejando, sigo.
não sigo.

entre covardias
e letras,
não sigo.

parada.
estagnada.
deslizo entre as próprias lágrimas

eis-me aqui
mas Deus é surdo
eis-me aqui e mataram Deus
eis-me aqui

e não há missão

eis-me aqui
em oração.

eis-me aqui.
mas é o fim.

Mariana Belize

Tao

arranquei uma pétala
mas era só
meu braço.

Mariana Belize

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Sensível

se alguém perguntar onde está meu tesouro
faço silêncio e não dou resposta
quem tiver olhos que veja
o coração que, ardente,
me habita
presente do universo, dom de Deus
dê a ele a alcunha que quiser
não importa o nome
basta o fato
Sou mulher do fogo
e vigio para que arda.
E se, dentro de mim, há chama divina
é porque alcancei, de dentro da lama, algum aspecto estranho
um degrau
um mistério
uma coisa em si
Inominável.

Mariana Belize