terça-feira, 27 de junho de 2017

Indivisível

no silêncio desta noite que amanhece
venho pedir-te silêncio
que saia de mim e leve meu coração para chorar longe daqui
que não quero nada
não quero nada
de ti

longe de mim pedir o impossível, mas você
por que você está aqui?
irrita essa sede que me atravessa
maré alta de arrebentação
eu olho, olho e não vejo nada
mas você em pé na areia não me abraça
eu vou de vento em vento
ameaçando morrer e não voltar
mas você continua
nessa lida

eu de trem
eu de trem outra vez
japeri vem
central vai

ali em nova iguaçu
mas não nos esbarramos

amor... eu não sei mais o teu nome
e você não sabe mesmo a minha voz
eu não sei a cor do teu cabelo
nem se usa perfume
ou se é só o desespero que rebrilha no meu sonho
mas eu estive lá
e procurei
mas você tinha partido, eu acho.

mas agora você volta
sem eu nem ter perguntado
até porque eu sei que não tô pronta
mas tenho meus trunfos
minhas palavras
meus presentes
minhas alegrias
meus sorrisos
meus poemas

essas palavras....

Meu tesouro sem rei.

Sou a face encantada de alguma coisa que se perdeu
mas não sou a grande Ísis.... eu não voo assim tão alto.
Sou aquela pequena tragédia:
meu nome é Pompéia.

Mariana Belize

Instântaneo

Daqui a pouco, alguém vai gritar lá do outro lado, me chamando pro trabalho. Eu sei que deveria estar em outro lugar. Eu sei de tanta coisa, tanta tragédia anunciada, tanta mão que enfiei em vespeiro. Amor, volta. Amor.... que nem veio.
Sobrevivo desse ritmo que me assombra, mas a verdade ignoro. Ainda tenho um coração e uma prosa. Ainda tenho tuas imagens. E sonhos. Amor... volta. Amor... que nunca veio.
Sobrevivo desse catavento de palavras que assopro na tua vizinhança. Carambolas que não posso pular na vizinha pra pegar porque vou atrapalhar teu sono. Tão perto e tão longe. Amor...volta. Amor...que não veio.
Qual o desenho que te conquista? O que eu posso ser ou melhorar? Nada disso é verdade, é uma farsa pra te encantar. Mentira, fake, face segura escondida sob os sete véus
Mas você duvida. Já viu tudo, eu não engano nada.
Velho... Voz que ribombou pelo mundo. Eu, inteira pequena volátil
bola de gás colorida flutuando
balão de meu avô Hélio
brisa de verão nas tuas sobrancelhas
provei teu suor na noite do deserto
enquanto você dormia
os camelos tem insônia
esse teu pano azulroyal
esse teu olho fechado
essa mão
e o rubi.

Meu coração é a pirâmide de Gizé
encarando de longe teu olhar.
Vem, amor... amor que nunca
Nunca virá.

Mariana Belize

Hórus

Eu não sei onde perdi o amor que sentia por você. Os sonhos ficaram, eu me lembro do carinho em nossos diálogos clandestinos pelas ruas, correndo risco pelas madrugadas. Eu não sei onde me perdi disso, ando sufocada de tudo. O livro que comprei, perdi também, e ainda preocupada com tanta coisa, me perco outra vez. Sim, repito, repito, me deixa repetir. Eu sei que vou parar no mesmo lugar. Novamente, a vida me traz. Esse círculo, essa magia do teu olho esquerdo, o desenho de Hórus. vem, mistério desanunciado. Vem de novo. Me dá uma chance.
Não sei.
A distância não existe, encontro você aqui nesse aparelho de madrugada e quando me olho no espelho. O chuveiro de lágrimas obscuras são essas mesmas palavras que digito em laranja metálico, mas que você não vai ver nunca e tal e tal. A coisa toda é um mistério até pra mim nessa encarnação de areia e pérola. Vem, novamente, caminha comigo, peregrino, vambora.
Não sei.
O segredo sempre há de caleidoscopizar a vida. Será que isso tudo existe e eu queria mesmo era te ver falar mais umas três horas. Mas creio que consiga te encontrar em algum canto dessa vida novamente. Não sei porque você me achou, nem porque estamos aqui, nem se estou escrevendo certo essa palavra sem ação.
Não sei.
Alguma coisa eu sinto e não sei. Ao mesmo tempo sua voz parece mais doce do que eu me lembrava, antigamente.... Eu sonhei com você novamente algumas vezes e com Teresa D'Ávila, mas você estava na rua comigo e falávamos de céu e terra e eu mexia no seu cabelo. Deitei no seu colo, viimos lua e sol nascerem juntos e crianças correndo pela rua. Não sei.
Não sei,
Mas eu lembro.
Não sei.
Mas eu lembro.

Tudo é sonho e nada é sonho.
Impossível.
Não sei.

Mariana Belize

domingo, 25 de junho de 2017

Afônica

desde ontem a cidade mudou
não por mim, mas por quem sabia
de todos os mistérios
e calou.

julgaram-me como possuidora
de segredos, amor
julgaram-me dona de qualquer coisa
que não sei, amor

por onde ir agora
afônica
por que voltar, amor
agora

desde ontem a cidade mudou
enquanto eu olhava minha garganta
no espelho do banheiro

eu partida em mil
sacrílega voz fora das hastes
sumida
e realizo meus sonhos assim

afônica
quem será capaz de dar conta
de mim?


sexta-feira, 23 de junho de 2017

Quebrada

Virgem encantada
girassol de mistérios
bailarina inerte
gruta longínqua

Essa valsa úmida que bailamos
Julgamentos hostis, males sem fiança
Sei que aqui te encontrarei
Ainda
Velha criança

Virgem encantada
Fogueira dos mártires
Infinito mistério
Rainha dos Céus

Tranquilidade de ritmo
que me enfurece
Titânica oblíqua confusa
Frugal devassidão
Combate de sátiros
Na imensidão

Infantil vítima
Calma, coração
Infantil amor
Calma, coração
Infantil tristeza
Calma, coração
Não tenho mais nada

E calma, coração.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Origem

vais longe, amigo
buscar erudição...
apresentas passaporte, lattes, curriculum vitae
diploma assinado, bolsa de estudo, dólar e alemão...

eu q fico por cá
me pego é rindo de ti:
às vezes que leio o Válter e o Teodoro
agora amigados aqui comigo,

tudo deles já tinha ouvido
da boca de minha avó.

Mariana Belize

Sem título II

não
não quero falar aos seguros
não quero falar os onipotentes
aos que escovam os dentes
penteiam os cabelos
e lavam muito bem as partes pudentas

não
não quero me justificar aos de literatura francesa
aos que hablan espãnol
aos que speak english perfectly
muito menos aos filósofos neokantianos

não
não quero que me ouçam os homens
nem os infelizes
nem os meigos
nem os tímidos
nem os cansados

não
mas também não quero que morra
o verso livre
o poema clichê
o poeta babaca
a mulher cabisbaixa do metrô na Central

não
não sei pra onde isso me leva
não
não sei nem o que quero dizer
não
eu não sei se tem um deus a quem dizer
oi, deus
mas também não sei se tem uma mãe a dizer
oi, mãe

eu sei que tem o sol, tem a terra
o ar que respiro dificilmente
mas tento
entre os espirros

eu sei que tem um algo sem maiúsculas
eu sei

mas não
não é pros sinceros
mas não
não é pros famosos
não
não é pra todos

nós, as torres fulminadas
nós, os cachorros-loucos
nós, ainda Pivas nessa vida

eu sinto que nós é que carregamos essa
coisa
eu sinto é que somos jesus menino.

Mariana Belize

domingo, 18 de junho de 2017

Sem título

Estudei e li, o dia inteiro que deus deu, pra chegar à conclusão de que não escreverei mais. Sem voz, a poesia há de inchar, explodir e sumir depois. E â noite, eu não mais despertarei, entre ensandecida e espantada, com as revelações que me vierem seja lá de onde as coisas vem e me assombram.
Até falar de deus é difícil, as pessoas não aceitam nem mais o jesusinho, o menino de olhar doce que até minha vó cultuava às seis da noite, quando a virgem Maria vinha nos visitar pra tomar café e descansar dos pedidos das pessoas. Ela nunca reclamava, adorava o açúcar refinado que faz mal, dizia que no céu não tinha aquilo, nem pasta de amendoim. Minha avó ria e eu enchia colheres e colheres de açúcar pro copo de café da dona Maria ficar branco embaixo. Depois ela lambia a colher e saía, meio desolada mas sorria tão bonita a moça, pra voltar no dia seguinte. Minha vó dizia que ela visitava todo mundo que fosse católico, mas morava mesmo era com o ateu silencioso do final da rua. Não fazia barulho nenhum e ele é que tinha descoberto a história do açúcar, que eu e vovó adotamos, e guardamos segredo.
Mas o negócio mesmo, da poesia, eu larguei de mão. Égua de negócio cansativo.
Enfim, o fato é que vou escrever sobre os outros. Os corajosos que ainda não desistiram.

E eu? Eu quero é dormir.

Mariana Belize

quinta-feira, 8 de junho de 2017

segunda-feira, 1 de maio de 2017

pra ser eterna:
estrutura da língua,
estratégia de linguagem.
não vale apenas a escritura
mas os diálogos da passagem...

Mariana Belize
Para Maya Falks

Sobre ele, ainda

o mesmo olho, o mesmo cabelo, a mesma força
a mesma chama, a mesma profecia, as mesmas orelhas
a testa pequena, a boca descarnada, a garganta frágil
a pele de leite azedo, o coração de lâmina açucarada
a língua, pétala;
sua música, mística.
Olho de tigre da Polônia...
olho da pedra-braseiro
no meu peito.
Amo Kafka, o de sempre.
Amo ele... o de hoje:
Inominável mistério
eterno.

Mariana Belize.
sábado, 27 de maio de 2017

sexta-feira, 19 de maio de 2017

O livro que não vou entregar

Conta uma história singela
nada medíocre
Sem dotes de contos de fadas
nem heranças de epopeia

Conta de guerras interiores e batalhas
lendárias
Nunca datadas, sem nomes de inimigos

Conta de mulheres e homens
figuras de força e fé
Mas descreve, principalmente,
os olhos das crianças,
os sonhos dos bichos,
narrativas de viajantes,
cantigas gitanas,
moedas de exus...

Conta sobre as almas alegres dos outros mundos,
sacis, peixes elétricos,
sereias de cabelos coloridos e princesas turcas
enamoradas...
Mas sem nenhuma lorota burguesa.

O livro, definitivo, ainda está sendo escrito
mas não é por isso que não será entregue.
O livro que não vou entregar
não vou entregar porque não quero.

O livro, grande livro, é meu coração...

Mariana Belize

Die Zeit

não quero silêncio
que é tirania
quero a primeira natureza de volta

eu grito Mãe
mas ela não vem

Mariana Belize

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Poesia

... e se me cercarem
perguntando donde vim

vim... do sangue do poeta
vim do olho esquerdo do lamento...

vim dele, o santo
o profeta

vim da voz
do poeta

Mariana Belize
Amy Winehouse é minha lua.

Ao olho de encanto

inicio a missiva
não receberás o dito
mas somente a magia

doce, doce, o acalanto
do olho verde
mas cruel quando seu sonho
é partido

doce, doce, o veneno que
da língua fendida escorre
e o meu amor não vê nada
o espírito é que socorre

por isso eu canto.
Um olho grego e sete cruzes bentas
de arruda e guiné
murim branco perfumado em alfazema
fita azul pro patuá enfeitar

e Ogum, da inveja, libertar.
Uma vela branca acender
Para o mistério recolher
a rosa vermelha florescer
e o inferno se desfazer.

Mariana Belize

negue

esse teu ritmo, a mim tão simpático
é o que odeiam aquele zumbis
pois, se preferiam ficar parados
o melhor, então é tua partida

ares antigos, vozes doces
a brisa plangente
portuguesa
um avião, um flautim
um vinho... Azeite.

te prefiro longe, se feliz,
do que alvo e dardo
de ares arcaicos e
jogos vorazes.

é um café que me acomoda...
teus versos que leio e releio
tardes em cabanas de aprisântemos
eu me deito, tudo finda
é o lar, é o chão.

te aconheço d'alguma lira
que persigo
te encanto d'algum papel antigo
aqueles versos
que são de fel, cassis e céu.

Tudo é frágil
a palavra, o arco e a lira.
Muito cuidado:
mais frágil ainda
é a corda do meu peito
na qual te equilibro.

Mas não tenho
- nem quero -
hiato.

Mariana Belize

hino à Independência

Brilha o sol detrás das nuvens, ainda
herança de uma idade de pedra
da qual saímos.

Num eterno retorno, nova idade
de pedra se avizinha envolta em bárbarie
e decadência.

Lascas de um tempo incogniscível...
em busca do tempo perdido, nós nos sentamos
às margens da Babilônia
sentamos e choramos...
Sem harpas nem liras.

As lembranças que, da infância, nos sorriem
ainda que a velhice leve de nós o vigor dos joelhos,
mantém em nós, carícia plena,
e a esperança mantém a mente firme
enquanto os sonhos pavimentam os destinos dos homens
e os caminhos, escolhidos à dedo, das mulheres.

Há um mistério venerável às suas costas
Que apenas outro ser... tão misterioso quanto
pode entrever.
Se nas lacunas, não nos corredores...

Se nos teus olhos, não no entrecortar das falas,
são tuas janelas de lágrimas ocultando todo prazer
que sussurram para mim estes versos.

Em outro canto, numa sala cinza,
se ainda aluna fosse
e covarde me mantivesse
livraria a minha cara sem pena
com algum talento retórico
e caminharia entre as vilezas alheias
sem arder nem, das janelas,
me jogar.

Mas essa ferida amarga do teu olho esquerdo
a minha fera ferida, identificada e cálida
conquistou.
Não perdoo filosofias feitas da carne alheia.
Esta pantera, minha herança de família,
se debate em iras ao ver o que fazem de ti:
um Judas em Sábado de Aleluia.
Observo, de mãos atadas. as bombas explodirem...
uma a uma, cotidianamente. Estou atenta
mesmo com olhos de vidro.

Os cinzentos seres que se arrastam pelos corredores
não são bons, nem maus
(o que não justifica os atos que têm)
e eu sei o motivo de toda audácia
pra transformar tua figura
em seta e alvo.

É tua beleza, essa tirana que me adoça
e me agrada ao escrever estes versos...
Ainda que me doa a distância
das tuas asas...
Mas eu jamais admitiria
sem o suave manto do eu-lírico.

É essa absurda companhia:
que me impele
me pega pela mão
me devolve o verso
e me tira da crise.

Abre minha pupila:
o olho direito e tua vírgula.
Entra na minha voz:
Teu vestido e tua língua.

Mariana Belize



domingo, 14 de maio de 2017

dia das mães

Nesse dia das mães penso que minha avó me deixou de herança um grande arca cheia de riquezas.
Nenhum ouro.
Ela me deu palavras.

/belize/

sábado, 13 de maio de 2017

Poema em linha oblíqua

Sempre conheço gente que já levou umas mil porradas
Nenhum dos meus conhecidos foram campões de qualquer coisa

E eu, tantas vezes lúcida, tantas vezes histérica, tantas vezes hostil
Eu tantas vezes uma qualquer coisa sem nome nesse mundo
Indesculpavelmente higiênica mas coberta de transtornos-obsessivos-compulsivos
Eu, que tantas vezes lavei os cabelos mais do que devia
                                                deixando o couro cabeludo em ardências e sangres
Eu, que tantas vezes tenho sido um pesadelo para mim mesma
                                                 mesmo usando os perfumes franceses mais franceses que os franceses
Que tenho passado por todos os lugares e jamais tropeçado
Que tenho sido arrogante, delicada, maldosa e belíssima
Que, se sofro humilhações, jamais me mantenho calada
Que, justamente por nunca ter calado, perdi uma parte do cérebro
                                                 em procedimentos inenarráveis
E ora, ora... científicos!
Eu, que jamais fui cômica!
Eu, que jamais tenho notado qualquer homem abaixo de mim
                                                e, se existem, não me importam.
Eu, que tenho riquezas em contas na Suíça.
Eu, que, quando a hora do soco chegou
tenho segurado a mão do infeliz
e envergado o pulso dele para trás
a fim de quebrá-lo, espatifá-lo, humilhá-lo.
Eu, que não me importo com angústias. Nem minhas, nem alheias.
Eu verifico que jamais procurei pares nesse mundo.

Toda a gente que conheço e que fala comigo
Sempre sofre enxovalhos, sempre foram ridículos do início ao fim
Sempre foram mendigos - todos eles mendigos - na vida...

Quem me dera não ouvir de ninguém a voz
Sem confissões que não me interessam
Sem infâmias que não me perturbam
Que não me contassem nem insolências nem fúrias
Que silenciassem crimes e castigos

Sim, são todos marginais, já que falam, já que ouço
Quem há neste mundo que me confesse
um ato de delicadeza?
Ó mendigos, meus inimigos,

Que merda! Estou cansada desses marginais,
Onde é que há poetas nesse mundo?

Então somente eu sou tão límpida nesse i-mundo?

Poderão as mães não os terem amado
Podem ter sido órfãos - mas lúcidos? Nunca.
E eu, que tenho sido lúcida, sem ter sido órfã
Como posso negar meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido Medéia, literalmente Medéia
Medéia no sentido mais inocente e mais maligno da palavra.

Mariana Belize


Benjamin ainda

escrevo me reconciliando
com o mundo.
escrevo pra me
reencontrar na fôrma perdida
e quebrada
da Criação.
junto aos meus pedaços
fragmentos de magia
junto ao ekodidé
ruas de mãos única
junto ao Laroiê
técnica, arte e
política
Benjamin, seu malandro...
pq vc não me falou que era de Exu?

Mariana Belize

Para o Luiz Antonio Simas que tbm me reconciliou a benjamin nesse dia das Santas Almas Benditas.

Walter Benjamin e as Santas Almas Benditas

Uma confissão nesse dia das almas: nunca entendi muito bem o Walter Benjamin. Nunca fez muito sentido na minha cabeça os textos dele, tanto que me desinteressei, durante algum tempo, de ler e reler ele, como faço com Adorno: uma leitura cotidiana, de levar pra todo canto, do trem ao banheiro.
Num dia desses da vida, conversando com Nonato Gurgel, falei do meu ranço pela leitura de Benjamin e que tinha medo de ser mal vista na Academia (que é mais cruel do que os filhos de Bel), já que Benjamin era um dos mais lidos e mais citados. Foi aí que ele me sugeriu ler "Experiência e pobreza", do livro "Magia e técnica, arte e política". E eu li.
Vou deixar aqui um trecho que me fez ver a minha "bobice" e passar a admirar o Walter em toda sua prosa.
"Ficamos pobres. Abandonamos uma depois da outra todas as peças do patrimônio humano, tivemos que empenhá-las muitas vezes a um centésimo do seu valor para recebermos em moeda miúda do 'atual'. A crise econômica está diante da porta, atrás dela está uma sombra, a próxima guerra."
Isso em 1933. Pré-segunda guerra.
Atual, né?
Infelizmente parece muito com esses nossos dias...
Infelizmente.
PS; Professor de verdade não é aquele que joga na cara do aluno os erros que este comete/repete/insiste. É aquele que traz outra rota, uma fuga à esquerda da rua de mão única.
Obrigada, professor Nonato Gurgel, por me reconciliar a Benjamin. <3 span="">

Shakespeare

nem existiu
era Bacon mesmo?
deixa eu ver aqui.
era.

acabou.

Mariana Belize

Goethe

vou encomendar um bildungsroman
para meu sangue aristocrático tremer
entre tanta verdade vazia
e tanta tinta tecida

vou encomendar um poema do velho
que adora garotinhas branquíssimas
de sangue azul

vou encomendar o cadáver do velho
já que ele mesmo não quis se encomendar
vou dizer... se aposenta, caralho
e morre logo... o mundo não aguenta mais sua presença

vou encomendar uma guilhotina
e matar a rainha aqui no meu jardim
acordar às seis para acompanhar
o sangue esgarçando o capim às sete

e o sorriso do meu amigo
o coveiro
quando a cabeça que rolar pelas roseiras

for a minha.

Mariana Belize

Wordsworth

arrastada
draga maldita de rima antiga
poeta de quimeras
me arrebenta nas runas que orquestra

nem quero ver
foto alguma do teu rosto
guardo apenas o teu ritmo silencioso
entre as dobras

separa para mim um parágrafo grifado
no livro mais novo
do professor catedrático
que recita e me incita com os versos sem pudores

vou me formar, tirano de merda, vou embora daqui
sem fugir
sem arder
e sem te matar de tanto
rir.

coagida a aceitar uma assinatura de revistas
abro meu tarô para ver o arcano sem saída
enquanto recalculo minha rota em silêncio
um combate de palavrório
e saio ilesa
novamente

larga a cocaína, mestre dos fantoches
as pessoas desconfiam de você
assim travado nas aulas...
assim fungando e rindo...
arrumando as cadeiras...

eu vi na tua pasta o pó de runas,
não adianta gritar.

eu não vou morrer
e você não vai me matar.

Mariana Belize

Coleridge

tenho alguma estrela roubada ainda
um verso na manga
um olho na magia
um encanto, feitiço antigo de amor
que irei coser com ódio, veneno de cobra
e seu fio de cabelo branco
que roubei

beijo o verso do seu papel escrito
assinatura antiga tecida com garbo
e as mãos entre substâncias indevidas
atadas de cordas invisíveis
mancham ainda os livros com a cocaína

eu vejo você escondido o tempo inteiro
eu vejo seus olhos perturbados na minha bola de cristal
e sei por onde seu caminho se justifica
procurando mulheres em madrugadas vazias
para aquecer a vida perdida
que o vinho tinto derramou-se por cima

beijo o seu dilema por inteiro
do início ao fim conheço cada vilania
mas insisto em permanecer trancada
na prosa e no absinto
esquecendo a poesia e o amor obscuro
que nos unia

vejo o escorpião albino, a violência, seu jesus cristo
e a branca e virgem maria dos anjos
permaneço calada observando as linhas brancas irem sumindo
enquanto sua oração se torna mais cálida
minha bola de cristal, Álvaro, que aprendi a ler em Andaluzia
traz os mistérios que, em versos, descrevo
mas como profecia
não poesia.

meu tempo de poeta morreu
e foi enterrado com os restos da tua inocência.
pobre diabo!
mal sabe que a criança interior está morta
enquanto caminha pelos corredores dessa catedral obtusa
como um cadáver desterrado

um cálice bento, meu querido
nem alguma hóstia sagrada
nada nos motiva
nada, nem as velas votivas, nos acalma
nada, nem as Vésperas, nos inspiram

nem esse clamor de anjos que ouço
e o pranto imaculado de sua velha mãe
morena como cigana, mas perdida
santa antiga da família
cozinhando o pai feito carcaça
sóbria e lúcida
família tenebris.

Álvaro, volte-se para mim
largue essa arma sem gatilho
volte-se para mim
e o feitiço estará completo.

Duas palavras:
escorpião escarlate.
E o que está feito,
está feito.

Mariana Belize

Tennyson

fugi da poesia
caí na prosa com todo gosto
ainda que em mim ela fosse fogo-fátuo
amor-fati
destino ou carma
tiranias não me apetecem
e ainda que eu, perdida
escreva em versos

falta-me alma.

Mariana Belize

Green chameleon

quem vê a lua
não vê a sombra
a escuridão dói no orvalho
o sereno dói na noite
quem sente o veneno
é porque perdeu a guerra
mas o escorpião sempre está lá
ele vai e volta
revive, eternamente
e não há serpente que o vença
e não há lobo que o abocanhe
e não há
não há sombra que o perturbe

Mariana Belize