domingo, 5 de agosto de 2018

Agosto

Não há o que dizer.
Todos os poemas já
foram feitos.
Como ninguém quis olhar
pro lado,
todas as flores secaram.
Assim como os que
trouxeram o inverno.
Não há o que dizer.
Pronomes escalam as paredes,
números secam, letras desaparecem.
Todos os poemas já foram escritos:
melhores ou piores que este
já acabaram, já foram lidos,
já saíram nos editoriais
já publicaram todos
sozinhos.
Os poemas já se leem.
Os poemas já guerreiam.
Os poemas se matam.
Os poemas votam.
Os poemas
morrem.
Poetas já não temos.
As estrelas sumiram nos espelhos.
A lua cobriu-se de cinzas.
Mulheres escondem-se
dos homens,
dos vizinhos silenciosos,
as pessoas da sala de jantar
não se responsabilizam
jamais
pelas 
frestas.
Já não há o que dizer.
Eu insisto.
Levantem-se os destemidos
para serem massacrados....
Ergam suas bandeiras
para serem queimadas...
Voem
mas para bem longe de nós
os mal nascidos
os inocentes...
E que os anjos, pela primeira vez,
calem-se.
Não há mais anjos.
O universo é.
Eu insisto.
Independente de nós,
os pequenos,
os ingratos,
os injustos,
os repetitivos,
os insensatos.
os inquietos,
Tudo independe de qualquer um 
de nós,
os reis esclarecidos
os tiranos fascistas
as mulheres aristocratas
os homens tecnocratas
A morte nos achatou
Leões, ergam suas cabeças
engulam o orgulho...
Não temos mistérios
nem experiências duradouras
A memória é tão volátil
quanto o éter que nos desmaia
Veneno cor-de-rosa
Enguias de fogo e sangue
mordem a língua
amaldiçoando os que ousam renascer
Serpentes envenenadas
bóiam na terceira margem do rio....
Os reencarnacionistas
revivem
Preparo meus vestidos de seda
e sangue...
Crucifixos
espelhados na loucura
do quarto 
paredes de marfim e fel
Onde está o mistério
por vir?
Ela é linda e completamente infeliz
As lágrimas desfalecem quando as fotografias
borram de ódio
Só tenho perguntas.
Elas me possuem
em silêncio, 
em combate invisível,
calmamente,
entram pelos poros,
eu insisto.
As coisas desfazem-se pelo meu corpo
gotas d'água enlameada
manguebeat atômico
que me distrai
de mim.
Toda palavra dela é um desespero.
Agarre meus punhos
não me deixe fugir
Abra bem os meus olhos
Não me deixe cegar
Abra minha cabeça
Não me permita desistir de pensar
Não há  mais dinheiro.
Não há mais disposição.
Não há mais poema pelo caminho.
Onde está o caminho?
O que eu perdi?
"Suas dúvidas são sua melhor parte."
Eu desacredito, Mestre.
Eu me esqueço de ti, Mestre.
Já elegi para mim
um Caeiro e
o silêncio é um punhal
que nos afaga.

Mariana Belize

terça-feira, 3 de julho de 2018

gatíneo

um dia viro
Ligre...
agora não.
me basta a elegância felina:
um pequeno miado,
doze horas de sono,
comida de três em três horas....
uma ro-ti-na.
e aquela inesquecível
companheira,
a Lua Cheia.
Mariana Belize.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

frugalidade

não escrevo poema.
minha prosa é que é
quebrada.
fôlego curto,
lento pensamento.
não concateno
o tino.
nem assumo o timão
isso é só uma canoa
megalomaníaca
baixei âncora neste dilema

de antemão.
Desatinado
destino,
indefinível
ameaça,
sutil...
Sublime
força:
pausa.
Mariana Belize

Na cozinha

o alho se vinga
da desatenção de quem cozinha:
queima.
Ao amargar-se
é trocado.
Minha avó me ensinou
na cozinha:
"espia, filha:
amor é atenção,
amar é paciência. ..."
Mariana Belize

Distâncias

já quase não escrevo
não tenho destinatário

já quase não canto
vivo enrouquecida pelo Mundo

já quase não
e nada

não há tempo
somente levo
pressa
nestas distâncias de mim

afogadas.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Água

escrevo pouco aqui
agora

porque entrego os versos
ao vivo

em beijos de amor.

Mariana Belize

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Andrea Doria - Legião Urbana

Às vezes parecia que de tanto acreditar
Em tudo que achávamos tão certo
Teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais
Faríamos floresta do deserto

E diamantes de pedaços de vidro
Mas percebo agora que o teu sorriso
Vem diferente
Quase parecendo te ferir

Não queria te ver assim
Quero a tua força como era antes
O que tens é só teu
E de nada vale fugir
E não sentir mais nada

Às vezes parecia que era só improvisar
E o mundo então seria um livro aberto
Até chegar o dia em que tentamos ter demais
Vendendo fácil o que não tinha preço

Eu sei, é tudo sem sentido
Quero ter alguém com quem conversar
Alguém que depois
Não use o que eu disse contra mim

Nada mais vai me ferir, é que eu já me acostumei
Com a estrada errada que eu segui e com a minha própria lei
Tenho o que ficou
E tenho sorte até demais
Como sei que tens também

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Zeitgeist 90

Nascemos pós
vivemos a pós
do pré
e o antes do fim é só o início
de tudo.
Travesseiros feitos de nuvens e
nada.
Vivemos pós sem compreender o método
anterior
a estrutura de marfim e pérola
invisíveis
essas cadeias de sangue, ódio, tortura e ira
Somos as consequências
Colhidos depois da maturação
da degenerescência
Não, que nada!, era um tempo mau
Nós não temos flores nem desgínios
Nós não temos frutos nem fé
Não teremos tempo de culto nem de amassar argila

Telas, contratos, requisições
Documentos, atas, processos
A mente mente e nos engasga
Confeitos da ignorância
sobre nossas cabeças sem número

Aos pés, a lápide
a rescisão
uma pane no sistema
o abandono do mundo não é tão ruim
basta um aperto no botão
E mudamos de canal
Batemos em retirada de qualquer senso
crítico
Somos a chapa branca
quente
à pé concordamos que o cinema
não era vida
perscrutamos atentamente...
e era somente duas horas
depois três
de propaganda.

vendemos nossa criatividade
ao marketing
nossos desejos tragados pelas internets
nosso sexo engolido pela indústria
nossas letras ministeriais
não são mais belas

secas e tórridas histórias
perscrutamos diligentemente
até o osso

Assentimos fielmente
ao denso panorama de nossas cartas natais
Ficamos sem sinal nos celulares, aí já é demais...
E nossos ídolos ainda são os mesmos
as aparências nos invadem, colorem, ressoam
Ídolos de pedra e gesso aos quais adoramos
quietos
enquanto eles roubam nossos cartões de crédito.
Débito em conta, é pra já, meu senhor.

Analisamos as vertentes estéticas
percebemos que o certo era o certo
e a arte, o tráfico de drogas, a política
eram a mesma e indefinida instituição de caridade.
E nós esquecemos de que a impiedade é secularizada.
E a piedade não nos cobre a bunda
desde os anos 70.

A piedade...como é velha a piedade....

Atrasados, antiquados, maquínicos
mexendo os dedos assim
Somos os perdidos de 90
os das balas de festim

Somos os 90 do meio
Sustentados pelas múmias paralíticas
e mal abrigados do pus
que a sociedade secreta
de seus ais
Esse país inexistente tem sua razão
em regra de três

Inoculados de Golfo
Odiando a Etiópia
Somos os 90 brancos
Criados a leite e pera
Rechaçamos o carnaval

Somos os desconhecedores da História contada
e recontada
e transtornada
Somos os minúsculos
A poeira conivente com o tapete
Somos os entre-eras
Os restos
Somos os que ninguém escuta
sobre assunto nenhum
Somos os que não ouvimos nada
também

E ninguém
repito
ninguém nos ouve
porque estamos sempre equivocados
e obsoletos
Não temos nosso próprio tempo
e os vampiros do teatro
somos nós.
Não escrevemos nem ditamos
nossas próprias historietas.
Somos incapazes
de enxergar o mundo a nossa volta
o mundo de dentro
o mundo do mundo
e o fora do mundo.

Somos umbigos ambulantes
sujos
sórdidos
pérfidos
mas exclusivamente bem educados
cordiais
e simpáticos.
Sim, damos bom dia ao porteiro.
Inclusive, às vezes, somos o porteiro.
Mas não somos nós que fazemos as leis.

Somos uma bandeira de sangue
Somos um ódio escondido
Somos uma ira abafada
Somos um bando de protofascistinhas
Todos de uniforme da escolinha particular
Amando e tratando muito bem
a tia Cotinha

Os que não são protofascistas
sim, porque eles existem!
tentar bater coontinência
a outros reis
invisíveis

Não somos sábios.

E os que não são
uma coisa
nem outra
Equilibram-se nas cordas do intestino grosso
Pensam em torres fulminadas
e em porquê Dragonball terminou mais cedo
um absurdo
uma abominação

Arcanos fulminados
almas em declínio
engolimos lixo
vomitamos ouro
ou achamos isso

pais obsoletos
counter strike
um lolzin pra garantir

paint
win
qualquer coisa
assim

tivemos pais obsoletos como eu dizia
e fomos amamentados por mulheres narcistas
uns úteros infelizes
que pensavam nas pensões alimentícias
os espermatozóides combinando
de quinze em quinze dias
visita ao filho
ou a filha
ou a alguma coisa que se mexe ali dentro
ali dentro
ali
dentro do berço, do cachecol
depois dou um presente
e peço a rescisão

e nossos cordões umbilicais cortados
foram rapidamente ligados
a caixa economica federal

Somos os que não deveriam ter vindo
porque a pílula já existia
Mas vieram
porque temos caras de cheques bem polpudos
e trevos da sorte
e somos escudo para a geração anterior e
suas digníssimas merdas

Nascemos de planos sórdidos de sinhazinhas
entre novelas de golpes de barriga
das mulheres lindas e terríveis
e bundas e peitos inocentes
e vilezas que moram na alma
que bebeu o sangue dos mortos
abortos anteriores
não valeram de nada.

às vezes eram nós mesmos
às vezes outros
às vezes fel.

Somos os peritos criminais
meros carcereiros de nós mesmos
um resto de poeira no espelho da mãe
um resto de tinta na caneta do pai

Somos os filhos terceirizados

Somos o resto do século XX
o lixo orgânico da congestão fabulosa
somos o entrave do novo milênio e da era de aquarius
esse lixo que vocês inventaram
a custa de lsd e cadáveres mutilados

e nós é que somos mentirosos e cheio de vilezas.
vilanias e cercados de ovelhas negras

Aos 10 anos, fomos o bug do sistema.
A falha da Matrix aos 11.
Aos 12, já reconhecemos Lord Voldemort.
Aos 15, Osama Bin Laden.
Aos 18... qualquer coisa entre fuzis e AR-15.

E à nossa frente um eterno futuro
desconhecidos somos sem passado
nem pátria

Não gostamos de tropicalismos
não sabemos de macunaímas
nem nos interessa o fim da raça indígena
não entendemos a importancia da alegria
nem essa guerra qualquer em todo canto qualquer
se com um botão
puf
já era

não apreciamos a arte propaganda
Hollywood formou nosso zeitgeist
entre traumas e rolês
Nosso espírito da época
é um dementador cego.
Nosso patrono é antigo, mais antigo que as trevas.

O tropicalismo foi a boca do século XX.
Somos o cu.

Não mudamos o mundo.
Nem mudaremos.
Não lavamos nossas roupas
Nem escovamos nossos dentes
Não

"Estou muito triste porque não tenho dinheiro."
Porque nao sou dinheiro
Porque não valho nada

Estamos tristes porque não somos Midas
assim nascemos
filhos da cólera e da tristeza
netos da miséria e da ignorância
bisnetos da hipocrisia da raça branca

Uma apareência de família louvável
dourada na crosta
essencia podre
que nós dilaceramos e
nos tornamos ocos
e sujos
Na perspectiva de que tudo é
nada.

Nós sobreviveremos.

Nada aconteceu.

Pois bem, mudou o mundo
mas assim é o mundo
assim são as coisas que o cercam
coisas são pessoas

e todo dia
aguardamos ansiosamente
o apocalipse
como única diversão real
impossivelmente real

não sentimos medo
não sentimos nada

Amor pela destruição
foi-se o tempo

nem tédio
nem caos

nem filhos da revolução.

Não viemos gerar ordem
nem nova, nem velha.
Viemos aguardar a destruição.

Somos fortes e cínicos.
Somos redemunhos esfaimados.
27, somos o 90.
Os 90 trabalhos de Hércules.

E o mal de nossa geração?
O silêncio inominável.
A abominação eterna.
Somos o mal desnecessário
de pisar na terra.
Um deletério sistema
Posso ouvir nossos gritos
Todos louvando juntos
o eterno salário mínimo
Todos anotando o verdadeiro
pacto
"Eles vão suportar
o impacto?"
"Vão!"

Estudamos, mas não lemos.
Trabalhamos, mas não fazemos.
Sabemos, mas não ensinamos.

Venha a nós
Seja feita a nossa vontade
assim no céu como na terra
e no inferno triplo.

E não somos nada.

Choramos nossas lágrimas de Letes
Que não conhecemos
Tudo foi feito pelos livros
enquanto nós dormíamos.

Nossa geração não existe.
Somos, ao fim, um amontoado
de erros freudianos.

Nem Édipos, nem Antígonas.
Nem Tirésias.

Meu olho avista nosso santo sem véu
E no computador Win 95
posso enxergar nosso padroeiro sem corpo

Rezemos um Pater Nosso
A nosso padrinho:
Salve, salve
a cabeça de São Penteu.

Mariana Belize

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Rum

meu corpo é um tambor
batizado e alimentado
é o som do orixá
que brota
assim, assim
de lá pra cá
mas também sou o vento
que cega a lâmina da maldade
o trilho, o parafuso e o trem
da minha cidadela
não julgo, nem absolvo
não me compete esse cargo
guerreio
sentado na estrada fumando tabaco
quizilo o homem
furando seus sapatos
quizilo a mulher molhando seus cabelos
vinho de palma, azeite de dendê
água de cabaça, samba pra vencer
quem me aguenta
ultrapassa a si mesmo
e essa dor de estar sozinho
e essa dor de estar sozinho
essa dor de estar sozinho
é uma pétala inexata
da flor inesquecível.
esse dom de estar sozinho
esse dom de estar sozinho
é o combate amargo.
molha o combate
com água que arde.
molha a dor
com água que arde.
ria comigo.
brinque comigo.
fume comigo.
não há pecado.
laroiê!

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Ubuntu

Não dê a Afrodite essa sobrevida
de uma energia que não
é dela
nunca foi
Não dê a Afrodite essa sobrevida
querida
essa sobrevivencia
sofrida
que ela nunca teve

A Nzinga me disse:
"Nossos deuses são reais."
Meu pai respondeu:
"Estamos vivos"

Não dê aos seus mortos deuses mortos jeovás
furiosos em enterros, raivosos entre túmulos
e tudo mais de crisântemos e terra escura infértil
Não dê ao seu deus morto
essa sobrevida
que, em nada, é divina.

Quem canta Laroyê
é porque conheceu a dor.
A verdadeira dor
aquela diáspora que permeia
pele, osso, corpo, mente
coração de todos
e um só
Ubuntu
que só quem é, sabe
que só quem é, conhece
quem só quem é
verdadeiramente
abraça
Ubuntu
beija Ubuntu
a força
ubuntu
sagrada.

Não dê aos seus mortos essa sobrevida triste
sem dinâmica
meus espíritos estão nas árvores, atravessam tempos
e jamais definharam
porque vivem
no Orí
Ubuntu, fêmur Nagô.

Nzinga me ensinou:
"Peça misericórdia a Xangô."
Eu pedia vingança.

Não dê aos seus deuses essa sobrevida
aculturando
desculturando
transculturando
o que não te pertence.

Meu fêmur é meu.
Orí é um.
Ubuntu é só pra quem viveu.
E vive.
Sobre tudo,
vive.

Laroiê!

Mariana Belize

domingo, 20 de agosto de 2017

Três

Dei o mapa.
Mas esqueci de explicar
que as pedras são tortas
e que,
pra cair,
basta estar de pé.
Mariana Belize

sábado, 19 de agosto de 2017

nuvens cinzentas
em coelho da rocha.
ilha das flores:
mulheres
procuram repolhos
num rio de alumínio.