terça-feira, 9 de outubro de 2018

Dicas para sobreviver aos tempos sombrios




1. Tome um banho de alecrim
2. Leia Lygia Fagundes Telles ou os poemas satíricos da dona Hilda Hilst
3. Beba água 
4. Tome um café quentinho no final da tarde. Ou chá.
5. Olhe o pôr-do-sol. Todo dia a natureza usa cores diferentes.
6. Cante um ponto de Exu. Tranca Rua é ótimo pra espantar os eguns dos bolsozumbis.
7. Desenhe figuras aleatórias num papel, tire uma foto e mande pro seu amigo.
8. Coma sua comida favorita na companhia de alguém que você ama.
9. Abrace um coleguinha que esteja chateado com os tempos difíceis.
10. Assista um vídeo de gatinhos. Ou cachorrinhos.
11. Assista Monty Python ( sugestão: procure os cavaleiros que dizem Ni) ou Mr. Bean ( de preferência o episódio em que ele encontra a Rainha)
Amo vcs.
Beijos.
PS: Não é auto-ajuda... você não é fraco. Tá difícil pra todo mundo que tem caráter e consciência.

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Teus olhos de ouro

Se tiver que dizer
Não é um poema

Vai. Se tem que ir
Vai.

Eu só estou falando do microcosmo.

Numa roda dos teus versos
Sou uma vírgula no lugar errado

As palavras aleatórias que o Android me apresenta
E eu tento não me deixar
Levar

O celular lê meu pensamento

Eu sou a vírgula do mundo
Moída pela roda da fortuna
Pendurada pelo pescoço
Com uma corda de seda

Teus versos
Nos meus pés
Mas eu não li antes de subir

O carrasco é apressado
Não permite últimas palavras
Ela vem aí a rainha soberana de toda a humanidade e eles esquecem dela caprichosa
A vaidosa
A primeva
A qualquer coisa
A silenciosa
A que anda como o gato

Eu nem falo nada.
Meus pés flutuam no céu
Teus olhos de outubro estão livres de mim

Longe de mim a lua espiã
Eu sonho com métricas Alexandrina
Que nunca cumpriria
O céu preso cor de cúrcuma

Eu nem falo nada
Teus olhos de outono
Teus labios de profeta
O encontro no deserto
Quanto tempo
Longa espera

Saberemos

Galga os degraus do espanto
Poeta
Ergue a sombra da voz
Meu amor
Levanta o silêncio como uma súplica
Minha vida

Teus olhos se encheram de carmim
O outono infinito dos meus versos
Cairá sobre todos

A luz apagada o vento frio
Meu lamento cigano que se mantém eterno como um lugar prateado no deserto

Você lembra dos nossos cavalos?

Mariana Belize

O tom dos teus olhos

Insisto.
Ele acha que estou em busca do prazer
Mas não estou em busca de nada
É a vida esta coisa mínima que me assola os quatro quintos dos infernos
Os quartos salas e banheiros as roupas que lavo e passo
As comidas que tempero com o desejo de mim mesma estar metida na panela
Eu a carne eu o alho eu o veneno
Eu o piano eu o verso eu a cozinha
O vespeiro
O desejo de estar sólida
Quando na verdade atrasada do romantismo
Me vejo lânguida
Pálida no espelho azul da lágrima que cai no fervor
Do feijão
Comida perene
A cozinha me pertence
É meu corpo
Uma plataforma onde meus versos me pressionam contra a parede do inconsciente
Enquanto vejo se o bolo não queimou

A cozinha esta bendita silencia
Ciência fina
Onde o sal e o tempero transformam lágrimas em sorrisos

Eu vi uma abelha rainha.
Mas os deuses
Mas as babás
E as empregadas domésticas
Mas os motoristas de ônibus
E as mulheres
As mães
As mucamas
As armas de leite
Mas
Os museus queimados
As eleições

Nada me deixa escrever em paz
Eu queria falar do outono dos teus olhos
Mas o Boulos
O Alckmin

O outono dos teus olhos
Inevitável
Onde você se escondeu de mim
Ó épico mistério extraterrestre
Metade homem
Metade poema.

Eu não queria ter que dizer mais nada
E você bateria na minha porta agora

Mas eu não estaria lá
É a vida, né
Esse desencontro aumentaria o frisson
Você me aguardaria pegando chuva na madrugada
Que mentira

Eu esqueço o que conversamos antes
E você repete tudo

Mentira.

Já era.

Mariana Belize

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Seta

Guardo os barulhos da ramagem
Inexistencias de referenciais vazios
Palavras selvagens
Deus que me livre
De correr atrás dos lobos

Não faz sentido caminhar pelos centros urbanos cheios de compensações entre rotinas administrativas
E cocaína

O cheiro de tabaco barato
No paletó do homem branco
Reverbera a doutrina espírita
No capital

Eu via a rua descendo a ladeira
Braseiro escondido no seio
A ladainha da tia mandingueiro
Nosso senhor Jesus Cristo
Amém aleluia amém

São cenas do próximo capítulo
E às vezes eu deixo o aleatório escolher a música de acordo com o
Meu humor de baioneta

Frutifica diante do desdém
Escreve no cativeiro
Contando os dias para a liberdade
Ainda que tardia

Subi o morro pela última vez
Há meses atrás
Faço anos hoje
Abandonei a casa dos meus pais

Não há amor bem construído que sobreviva
Hierarquia de talentos
Um filho é mais amado que outro
As mães mentem
Os pais fogem
As tias bebem
Os avós morrem
Família é tragédia desde a Grécia

Ninguém me convence de retornar
Nem morta eu desejo
Voltar
Nem minhas cinzas
Nem meus ossos
Nem meu espírito
Nem se alma existe

A morte vai me buscar em nova Iguaçu
Ou em qualquer outro lugar
Não vou fingir nada
Nem medo
Nem dor
Nem desespero

Ninguém sabe a hora.

Mas ela sente a morte
Na porta do quarto dela
Eu rio até roncar
Pois não aviso que vejo

Eu estou sóbria
Indolente e sóbria

Escrevo pra não morrer lúcida
Escrevo para viver
O Divino e sombrio
AGORA.

Mariana Belize

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Arjuna

Parente é serpente,
eu avisei
na cozinha.

e depois você teve aquela indigestão...
mas não foi praga minha.

liguei os pontos
e na varanda
abdiquei do cavalo branco, da espada dupla
e dos músculos
das missões
inquisições....

Cruzadas.

a encarnação é um peso,
não uma diversão.
eu avisei, garoto,
que pro hindu não tem
perdão.

parente é serpente,
eu avisei enquanto água
pro café
fervia

mas ninguém ouve a ama de leite
nem a vaca holandesa
muito menos a empregada
doméstica
a babá
a que leva o lixo pra fora
nem a jardineira...

Arjuna...
eu vi o que o Mundo é capaz.
um Arcano inconcebível
de dores incomunicáveis...
Arjuna,
meu filho,
foi Krishna que me ensinou
eu não adivinhei essa porra
foi na base da porrada
que eu aprendi essa vida
Arjuna, meu irmão
acorda
e luta pela Verdade.
Arjuna, meu irmão
está vindo tua tempestade.
Arjuna, colhe tuas rosas.
Mas olha, irmão,
que toda beleza tem seus espinhos.
Acorda.

Mariana Belize

sábado, 25 de agosto de 2018

Voragem


O fogo tremido por uma brisa antipática antecipava um olhar de desdém para os que se aqueciam em desespero. Na noite cálida, que agora morava no passado, nós dois nos encontrávamos num sonho perdido.
Eu tinha esquecido as palavras, tinha esquecido mesmo do que vestia. Lembro de calçar apenas a poeira de onde vim. Mas o toque da brisa quente... era verão, estava um mundo abafado, era uma típica sobrevida, naquele tempo enorme para aqueles que derretem e se irritam. Tudo estacionado.
Mas o encontro aconteceu. Eu sei.
Você só desconfia. O sonho era meu, afinal.
E, no presente, esta rua de mão única que é o tempo, faz com que eu me esqueça aos poucos do encontro.
Agora está frio e me esqueço do calor insuportável.
Agora estou só e esqueço como é a companhia.
Agora estou angustiada, esquecida de como é a calmaria.

Sob as sombras dos meus olhos, a noite delira.
O esquecimento fulminante.
E eu vou dormir, outra vez: travar o sonho, destruir as memórias, reconstruir as narrativas.

E esquecer de mais um pedaço
de quem é você.

Mariana Belize


quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Eraserhead


Olho e meu olho
no espelho
contempla o sonho:
rio lacrimoso,
desespero encantado,
absurdo de Ofélia
a Ismália.

Desço.

Desacerto contínuo:
ele abraçado a Deleuze.
Eu contemplando a Central
e seus espectros a cavalo
nem tento fugir para Candelária
nem tento dar aquele brado
retumbante.

Desço.

Calada sou mais persistente.
Teimo e limo e suo...
a caneta estoura, as letras escorrem.
Silenciosa sou mais teimosa.
Enquanto passo a vassoura na casa,
os pássaros estão cantando.

Desço.

Eu teço mais um tapete,
aguardando que ele
retorne.
Entretanto, limpo meu escudo,
afio a espada...

O inimigo está de ronda.
Eu também
e não sou Ismália
e não sou Ofélia
e não sou Amália
e não sou
Amélia.

Sou a mulher do fogo e vigio para que arda.

Mariana Belize


domingo, 5 de agosto de 2018

Agosto

Não há o que dizer.
Todos os poemas já
foram feitos.
Como ninguém quis olhar
pro lado,
todas as flores secaram.
Assim como os que
trouxeram o inverno.
Não há o que dizer.
Pronomes escalam as paredes,
números secam, letras desaparecem.
Todos os poemas já foram escritos:
melhores ou piores que este
já acabaram, já foram lidos,
já saíram nos editoriais
já publicaram todos
sozinhos.
Os poemas já se leem.
Os poemas já guerreiam.
Os poemas se matam.
Os poemas votam.
Os poemas
morrem.
Poetas já não temos.
As estrelas sumiram nos espelhos.
A lua cobriu-se de cinzas.
Mulheres escondem-se
dos homens,
dos vizinhos silenciosos,
as pessoas da sala de jantar
não se responsabilizam
jamais
pelas 
frestas.
Já não há o que dizer.
Eu insisto.
Levantem-se os destemidos
para serem massacrados....
Ergam suas bandeiras
para serem queimadas...
Voem
mas para bem longe de nós
os mal nascidos
os inocentes...
E que os anjos, pela primeira vez,
calem-se.
Não há mais anjos.
O universo é.
Eu insisto.
Independente de nós,
os pequenos,
os ingratos,
os injustos,
os repetitivos,
os insensatos.
os inquietos,
Tudo independe de qualquer um 
de nós,
os reis esclarecidos
os tiranos fascistas
as mulheres aristocratas
os homens tecnocratas
A morte nos achatou
Leões, ergam suas cabeças
engulam o orgulho...
Não temos mistérios
nem experiências duradouras
A memória é tão volátil
quanto o éter que nos desmaia
Veneno cor-de-rosa
Enguias de fogo e sangue
mordem a língua
amaldiçoando os que ousam renascer
Serpentes envenenadas
bóiam na terceira margem do rio....
Os reencarnacionistas
revivem
Preparo meus vestidos de seda
e sangue...
Crucifixos
espelhados na loucura
do quarto 
paredes de marfim e fel
Onde está o mistério
por vir?
Ela é linda e completamente infeliz
As lágrimas desfalecem quando as fotografias
borram de ódio
Só tenho perguntas.
Elas me possuem
em silêncio, 
em combate invisível,
calmamente,
entram pelos poros,
eu insisto.
As coisas desfazem-se pelo meu corpo
gotas d'água enlameada
manguebeat atômico
que me distrai
de mim.
Toda palavra dela é um desespero.
Agarre meus punhos
não me deixe fugir
Abra bem os meus olhos
Não me deixe cegar
Abra minha cabeça
Não me permita desistir de pensar
Não há  mais dinheiro.
Não há mais disposição.
Não há mais poema pelo caminho.
Onde está o caminho?
O que eu perdi?
"Suas dúvidas são sua melhor parte."
Eu desacredito, Mestre.
Eu me esqueço de ti, Mestre.
Já elegi para mim
um Caeiro e
o silêncio é um punhal
que nos afaga.

Mariana Belize

terça-feira, 3 de julho de 2018

gatíneo

um dia viro
Ligre...
agora não.
me basta a elegância felina:
um pequeno miado,
doze horas de sono,
comida de três em três horas....
uma ro-ti-na.
e aquela inesquecível
companheira,
a Lua Cheia.
Mariana Belize.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

frugalidade

não escrevo poema.
minha prosa é que é
quebrada.
fôlego curto,
lento pensamento.
não concateno
o tino.
nem assumo o timão
isso é só uma canoa
megalomaníaca
baixei âncora neste dilema

de antemão.
Desatinado
destino,
indefinível
ameaça,
sutil...
Sublime
força:
pausa.
Mariana Belize

Na cozinha

o alho se vinga
da desatenção de quem cozinha:
queima.
Ao amargar-se
é trocado.
Minha avó me ensinou
na cozinha:
"espia, filha:
amor é atenção,
amar é paciência. ..."
Mariana Belize

Distâncias

já quase não escrevo
não tenho destinatário

já quase não canto
vivo enrouquecida pelo Mundo

já quase não
e nada

não há tempo
somente levo
pressa
nestas distâncias de mim

afogadas.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Água

escrevo pouco aqui
agora

porque entrego os versos
ao vivo

em beijos de amor.

Mariana Belize