sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Como faz pra ser possível, Clarice? Como?

Caminhou durante tempo demais, perdeu tempo demais, sentiu que havia que tinha tantos verbos e nenhum complemento. Não se perdia em nada e tudo era muito calculado. Entendera finalmente? Ainda não, ainda podia botar a culpa na mãe, na neurose, nos complexos, no outro, no que não sabia porque não queria. Perdeu o terceiro ônibus, passou, foi-se tudo embora. Aquela ideia azul havia morrido em seus braços, estava ali, agora branca, grudada no vestido branco molhado de lama. Resta-me morrer? Não. Ainda não. O ônibus...virá outro. Virão outros. Será? Cristiana está no hospital e eu, aqui, lamentando. Fugiu pra não ver, não adiantou, se salvou por um triz, por acaso, a vida dela nas mãos do acaso enquanto ela acha que manda em tudo. Deus? A morte como conclusão final não conclui besteira nenhuma. Cadê as chaves? Cadê a bolsa?Cadê os sapatos? E o dinheiro. Não adiantou nada. Ainda posso, posso pegar um táxi, em casa eu pago. O quarto ônibus perdido. Foi-se parte de mim nesse ônibus. Não, dentro do Outro. Foi-se parte de mim dentro de ti. Por quê? Eu não tinha deixado, não tinha permitido...arrancaste-me de mim, me devolve, poxa! Me quero de volta. Livre. Nunca livre.
Absolutamente.
Absoluta            mente.
Absurdamente.
Absurda                           mente.
Surda                                                     mente.
O caminho que perdi não é o que faço. O ônibus, quinto, perdido.
Não vou pra casa. Vou contigo. Quero dormir fora do teto, da cama, da coberta.
Do chão.                Do ventilador de teto.                 Do texto.

Um comentário:

Fernando Vieira Peixoto Filho disse...

É o que nos há de mais humano: interrogações...

Abçs!