terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Sobre " O correto e o incorreto da linguagem" - Helênio Fonseca de Oliveira

Tese: O correto e o incorreto da linguagem - reflexão voltada para o ensino de português como língua materna
Autor: Helênio Fonseca de Oliveira

*Trechos e comentários*

"A universidade brasileira não pode dar-se ao luxo da ciência pura - correspondente atual da atitude torre-de-marfim representada pelo velho beletrismo - porquanto não seria racional desperdiçar recursos com um intelectualismo estéril e perfeitamente dispensável."

"É necessário distinguir senso prático de superficialismo. Isso, porém, não exclui a existência de uma hierarquia de prioridades: não me parece razoável perder tempo com pesquisas adiáveis, porque pouco prováveis de encontrar aplicação nas próximas décadas, quando outras mais urgentes precisam ser feitas e, no que diz respeito aos estudos linguísticos, um campo em que urge trabalhar é o da aplicação desses estudos ao ensino de português como língua materna."

Comentário: A universidade não pode produzir conhecimento que não seja para o desenvolvimento da sociedade como um todo. Por exemplo, um grupo pesquisa o uso da língua por uma população de pescadores e detecta problemas na estruturação de períodos ou no uso dos plurais. Essa pesquisa foi útil em quê? Apenas detectar problemas?

"(...) o professor não é como o linguista, que pode observar os fatos de fora; ele está dentro do processo e, mesmo que quisesse, não conseguiria omitir-se: participaria por omissão.

Comentário: A escola não deve se preocupar em ensinar o aluno a falar; precisa se circunscrever à leitura e escrita, ao letramento. Ser letrado é ler e compreender, depreender sentido do que é lido interagindo com o autor do texto.
O professor está dentro do processo de aprendizagem. Objetivo da escola: fazer com que o aluno tenha acesso e domine a língua padrão / culta / formal.

" Falar em contribuir para um ensino prescritivo de boa qualidade só não faria sentido se não existisse erro de linguagem, mas o erro existe (...) embora se deva repensar esse conceito em termos mais adequados."

"Entendendo como incorreto não necessariamente o que a gramática escolar corrige, mas o que compromete a eficiência da mensagem, isto é, impede-a de desempenhar bem sua função."

Comentário: O que o aluno aprende da língua materna na escola tem por objetivo o desenvolvimento de sua eficiência linguística e, que esse objetivo não se pode considerar atingido se o estudante continua inseguro em ortografia ou sem o domínio de certos aspectos do idioma.

"Embora não se possa negar a importância do uso de textos, é preciso tomar cuidado para que a 'gramatiquice' tão justamente combatida, não dê lugar à 'textice', que é uma reação contra as deformações de uma gramática inadequada, 'pelo abandono' - como critica Mattoso Câmara - 'do ensino gramatical metódico', substituído por um ' processo de explanações gramaticais salteadas e ocorrentes a propósito da leitura antológica."

" Se um falante empregar um misto do português do Rio de Janeiro com o da Bahia, por exemplo, não será considerado linguisticamente 'estrangeiro' em nenhuma das duas regiões, o mesmo não ocorrendo com o português e o espanhol, cuja fusão, num mesmo idioleto, resultaria num código sentido como estrangeiro tanto nos países de língua espanhola quanto nos de língua portuguesa. O carioca e o baiano não usam exatamente o mesmo código, mas falam a mesma língua, porque se consideram membros de uma mesma comunidade linguística e, supondo-se que sejam cultos, utilizam, nas comunicações escritas formais, a mesma variante dessa língua, que é a sua forma padrão."

Comentário: Neste trecho há uma diferença básica entre regionalismo e língua estrangeira. Além de nos mostrar um ótimo exemplo das variações que a língua portuguesa sofre, sem, no entanto, deixar de ser a mesma.

"A linguagem oral culta é geograficamente mais diversificada que sua correspondente escrita e, entre as formas escritas da língua, no caso do português atual, as literárias variam mais, na coordenada espaço, que as não-literárias, em consequência de um compromisso relativamente recente da literatura com a linguagem coloquial."

"O falante nativo do português não vai à escola para aprender a escrever no estilo sofisticado de um Guimarães Rosa, e sim - no que concerne à língua materna - para tornar-se capaz de produzir uma prosa não-artística razoável e de comunicar-se oralmente com eficiência."

"(Certas) divergências entre o padrão escolar e a língua escrita culta formal levaram alguns usuários do idioma a conceber a língua padrão como algo esotérico, que só alguns iniciados, conhecedores de complicadas regras gramaticais, conseguem dominar."

*Alguns tópicos*

1. Erro estigmatizado - destoa do padrão escolar; não é de uso geral entre as pessoas cultas; é desaconselhável na prática. Por exemplo: falar poblema, Framengo, largato.
2. Erro não-estigmatizado - destoa do padrão escolar; é de uso geral entre as pessoas cultas; não é desaconselhável na prática. Por exemplo: Deixa ele falar, Conheço ele.
3. Língua é uso.

"A variante que a comunidade aprova deve ser ensinada não como algo para ser usado em quaisquer circunstâncias, mas para se empregar em determinadas situações."

" (...) sintonizar com o receptor não quer dizer adotar a linguagem dele. Para o falante de um dialeto prestigioso comunicar-se bem com usuários de variantes desprestigiadas, (...) não é necessário que ele adote traços dessas variantes. nem necessário nem conveniente: tal comportamento poderia mesmo ser interpretado como zombaria. É importante não perder de vista que há uma expectativa do receptor em relação ao emissor. De um falante culto o que se espera é uma linguagem culta."

" A língua escrita não é apenas a oral transcrita no papel. Vários fatores ( como a possibilidade de passar a limpo, o prestígio, a precisão exigida pela ausência do contexto), contribuem para torná-la estruturalmente diversa da modalidade oral. Há frases, por exemplo, que nunca escreveríamos, nem na mensagem mais informal, embora oralmente as empreguemos com frequência"

Comentário: Um exemplo disso é a seguinte frase: "Me dá esse leite aí condensado."

"Quando digo que nem tudo que se fala se escreve e vice-versa, o que nego não é a possibilidade de o sistema de escrita reproduzir a mensagem oral, nem a capacidade humana para ler o texto escrito. Afirmo, isto sim, que há formas de cada modalidade inadequada na outra."

Tópicos:
1. Repressão linguística: "(...) para todas as situações da vida prática, a linguagem (usada deve ser a) considerada correta pela tradição escolar."
2. Revolução linguística: "(...) consiste no esforço oposto, ou seja, procurar mudar a atitude dos usuários do idioma (...) de tal forma que se passe a empregar, nas situações formais, registros hoje exclusivos das informais e/ou dialetos desprestigiados."
3. Normalidade linguística: " (...) O falante que assume essa atitude, isto é, o usuário normal da língua, emprega, em princípio, o seu dialeto (geográfico, social etc.) no registro adequado e, quando necessário, o padrão formal supra-regional; usa, portanto, a linguagem que a comunidade espera dele."


PS: O que está entre aspas são citações do Helênio. Os comentários foram retirados de falas do professor Fernando em sala de aula.

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