segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Eleanor

Ela desceu os degraus do ônibus sem pressa. Tentou pensar num trajeto a ser seguido. Abriu a bolsa e viu a chave de casa, brilhando no meio das outras coisas. Pensou por um momento em tudo que escreveu, falou, pensou durante toda sua vida. As mil ideias pré-concebidas que carregou nas costas, os outros milhares de julgamentos que fez diante de situações e pessoas, as outras mil vezes que errou e que não aceitou que havia errado.
Haveria um caminho? Dois? Um milhão de caminhos?
Abriu a bolsa novamente. Lá estava o celular também. Pegou e ligou-o. 25 chamadas não-atendidas.Do trabalho.
-Nunca mais volto àquele lugar.
E, realmente, ela não voltaria.
Chegou à praça, sentou-se num banco e ficou olhando o céu azul.

"Eleanor Rigby picks up the rice in the church where a wedding has been
Lives in a dream
Waits at the window, wearing the face that she keeps in a jar by the door
Who is it for?"

-O que estou fazendo aqui? Por que estou aqui? No que acredito? Por que vivo?
Olhou dentro da bolsa outra vez e viu seus documentos, as três contas pra pagar e lembrou de casa. A antiga casa da mãe lembrou-a de sua infância, das carambolas e do cheiro do mato que o pai cortava aos domingos de manhã. Lembrou-se de seus velhos amigos e de há quanto tempo não era tão feliz. Viu assim, sua infância passar diante dos olhos e se perguntou para onde havia ido tanta alegria.

"No one comes near
Look at him working, darning his socks in the night when there's nobody there
What does he care?"

Ela nem mesmo sabia o que ia fazer e já estava escurecendo. Lembrou-se dos noticiários, da violência e sentiu medo de ficar ali, sozinha. Viu o movimento das pessoas saindo dos ônibus e voltando para casa.
-Qual meu nome? Pra onde vou? O que farei? O que vai acontecer?

O marido veio-lhe à mente, ela sentiu saudades da risada dele e, até mesmo, de suas reclamações. Quanto tempo fazia? Há quanto tempo mesmo ele morreu?
-Nem me despedi.
E chorou.
Chorou por ele e por si. Pelo filho que perdeu. Pela mãe que já havia ido. Pelo pai que fora fazer companhia à mãe.
-Estou sozinha. Sem dúvidas, sozinha pra sempre.

"All the lonely people, where do they all come from?
All the lonely people, where do they all belong?
Ah, look at all the lonely people
Ah, look at all the lonely people"

Colocou a mão na barriga, pediu desculpas ao filho pelo útero problemático. Pediu desculpas ao marido, por não ter perdoado. Pediu desculpas à mãe, por tê-la abandonado e ao pai, por nunca ter parado para ouví-lo.
-De que adianta? Eles não estão aqui.

"Eleanor Rigby died in the church and was buried along with her name
Nobody came
Father McKenzie wiping the dirt from his hands as he walks from the grave
No one was saved"

-Para onde vou agora? O que vou fazer?
De repente, a voz: Amor.
Aquela voz que ela ouviu sempre e sempre achou que fosse loucura. Quando criança era mais forte, hoje se manifestava por palavras. Apenas palavras.

"Amor!" - repetiu mais fortemente, a Voz.

-O que é isso?
-"Amor é o cheiro da sua mãe dormir na roupa de bebê que você guarda."

Um pequeno vestidinho verde-água que ela guarda, escondido numa de sua gavetas à chave, tem o cheiro de sua velha mãe. O vestido era seu e ela ganhara de uma madrinha quando tinha três anos.

-Como assim?
-"Você pede explicações demais. Todos pedem explicações demais."
-Por quê?
-"O Amor está no bilhete de seu amado."

O bilhetinho que seu marido deixara algumas horas antes do acidente e ela ainda guardava com todo carinho dentro de seu travesseiro dizia apenas: "Amo você. Volto logo."

-Mas ele não voltou.
-"O Amor está na chupeta de seu filho. A única peça que você guardou de seu enxoval."

A chupeta azul ela guardava numa pequena caixinha, junto com o desejo de ser mãe e a dor de saber que não poderia mais ter filhos.

-Tudo foi à toa. Tudo. Pra quê estou aqui? Não tenho mais ninguém.
-"Amor. Tudo é Amor."

E foi então que um "click" estalou em sua cabeça. O coração se encheu de serenidade ao lembrar da música que seu pai assobiava enquanto cortava a grama:

"When I find myself in times of trouble
Mother Mary comes to me
Speaking words of wisdom:
Let it be
(...)

And when the broken hearted people
Living in the world agree
There will be an answer:
Let it be

For though they may be parted there is
Still a chance that they will see
There will be an answer:
Let it be"

E ela voou em paz, em luz...em Amor.

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