segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

lembrar e esquecer

Faça com que eu seja livre. Livre pra sempre, sem precisar, sem querer, independente.
Ouvindo música ela estava e rezando ela também estava. Rezando sem saber pra que deus ou se alguém realmente podia escutar.A música estava alta e seus pensamentos eram tão baixos, tão sussurrados quase como uma melodia que a gente tem vergonha de estar cantando mentalmente e tenta deixar pra lá mas não consegue.Por que ela acreditou? Quando tinha dezesseis anos, pensou que a vida era uma só e devia aproveitar. Ela queria gritar agora com quem tinha inventado aquela merda toda que ela acreditou. Lembra como era bom, John? Lembra como era tudo perfeito? John? Você está aí? Eu ainda lembro do teu nome, cara. Eu lembro. No meio dessa profusão de lembranças eu lembro do primeiro beijo meu e teu. Cada um de um jeito. Perdidos totalmente perdidos no meio daquela multidão também perdida.Lembra Michael, você lembra de mim? Eu lembro de você. Você lembra dos meus olhos? Como foi tudo tão ensaiado da segunda vez...eu calculei dois mais dois e levei teu msn pra casa. Foi tão lindo conversar com você. E passou, como passa agora a folha daquela árvore no vento frio deste verão que tá parecendo inverno. Gosto de sentir frio. Você lembra Paul? Lembra quando cantava Yesterday em Liverpool? Era tão legal, cara, você parecia tão feliz e o Lennon também. Vocês eram perfeitos juntos. Você lembra Luther? Você lembra de quando tinha um sonho? Todos nós temos sonhos. Mas defendê-los, quem se arrisca? Quem quer tentar viver de sonhos? Você lembra? Alguém lembra de algo que quer esquecer? Sempre lembro. Tudo que me disseram de ruim, não sai de mim. Não largo mesmo, não tem jeito.Você lembra de tudo? De tudo mesmo que eu falei pra você? Você lembra Fernando? Lembra de quando o dono da tabacaria sorriu? Eu lembro. Lembro de tudo. Lembro de quando esbarrei com a nordestina e a Clarice tava vendo do outro lado da rua. Eu sou tão sem graça que a nordestina esquisita foi tema de livro, é, é a Macabéa.Eu não ligo, eu não ligo não, eu amo esse livro e a nordestina também. Lembra do Esteves, Fernando? Lembra do Dono da Tabacaria? Eu lembro, mas não, eu não fumo. Lembro porque quando eu ia levar tua comida sempre te via olhando pela janela, aí descobri que tu ficavas olhando pra tabacaria do outro lado da rua e ficavas falando de mansardas, gênios e loucos. E eu ria, só ria de boba que eu sou e de tanto que eu gostava de te ouvir falar. Mas aí você parava de repente e começava a escrever de novo, e eu sabia, só sabia que era hora de sair e te deixar com as palavras. Servi café pra Clarice mas ela não gostou, disse que eu adocei demais o café. me perguntou se a vida era doce assim. Eu perguntei: E agora José? A festa acabou. Ela riu da minha cara de pamonha. Drummond você lembra? Lembra Drummond? Lembra do José? Eu cuidei dele quando ele ficou doente, caiu de cama e morreu uma semana depois.E depois eu perguntei pra ele: E agora José? Ele não respondeu. Morreu de olho aberto.Depois, e depois e depois e depois? Eu não sei. A luz apagou, o barco foi embora do cais e eu tô aqui de idiota que sou...lembrando do Camões...amor é fogo que arde sem se ver, ferida que dói e não se sente...ainda tô aqui Carlos, vai ser gauche na vida, vai, já que eu não fui nem vou. Tudo já foi dito, será repetido mil vezes por mil outras pessoas e eu aqui, de bobeira, atrapalhando os gênios das mansardas e não-mansardas. Você lembra, Caio, você lembra Ana C, você lembra Nonato, meu caro, você lembra de mim? Alguém vai lembrar de alguém como eu fui, como eu sou? Alguém esqueceu de mim, tenho certeza que alguém já esqueceu de mim, todo mundo esquece, mas eu não ligo não, não, ninguém lê absolutamente nada assim em blocos, ninguém pára pra ler uma coisa sem divisão, ninguém vai parar pra ler algo mal escrito, em forma de pensamentos que vão saindo e vão se traduzindo aqui em palavras, palavras e mais palavras. Ler assim cansa a vista, a gente se perde logo já nem sabe mais porque tá lendo. Vai embora, não dá mais. Bem que me avisaram, bem que me disseram, eu não acreditei, eu sou assim mesmo, nada vai mudar e fica assim, fica, fica nessa pose pra eu tirar tua foto e guardar, lembra de mim? A gente vai se encontrar, se rever...eu sei que é chato ler em blocos, e eu já tô repetindo a mesma coisa de novo, que coisa feia, você fez, leu tudo? então daqui, meu caro, acaba tudo. o mundo e o universo acabam num temaki califórnia. e ele é comido com a mão, adoro coisas assim simples. a gente é que complica tudo. e fica tudo tudo tão feio e pegajoso que dá vontade de jogar sabão e esfregar. E isso aqui é literatura? Lógico que não. Daqui a um tempo ninguém lembra mais. Todo mundo esquece, não é, José?

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