segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

"Vou-me embora para Andaluzia"

Desci as escadas do prédio devagar para não levantar suspeitas de que estava acordando tão cedo. Os vizinhos ali, tinham paredes e as paredes têm ouvidos agudíssimos e bem treinados. Saí de casa carregando só a maleta com as roupas e de repente eu quis voltar. Era confortável ficar lá dentro sem ver nada, carregando o laptop pra cima e pra baixo até pra ir na padaria comprar pão. Esta informática está me matando. Já nem sinto mais meu coração bater. Mas que bom, coração só atrapalha. Vou pegar um trem, vou pra Andaluzia. Onde estará meu celular? Meu relógio? Meu modem de um milhão de megasuperultrabytes? Onde eu estou? Vou pegar um táxi, ir pro aeroporto, comprar uma passagem. Vou pra Andaluzia. Vou ligar pra minha mãe...Qual o telefone dela? Qual o número do túmulo dela? Onde ela está enterrada? E meu pai? Meu pai, eu sei. É só eu olhar a fatura do cartão de crédito.Não está aqui na maleta. Está em casa. Não vou voltar pra casa.Não vou voltar só pra ver isso. Esqueci de botar uma meia e de pegar o guarda-chuva. Vai chover e eu vou me molhar. Não posso me molhar. Não posso ficar doente. Tenho que chegar são em Andaluzia. O céu está cinza, com certeza vai chover. melhor eu voltar em casa só pra buscar o guarda-chuva e botar meias.O tempo é tão ameno em Andaluzia, vou comer tâmaras mesmo sem saber que raios é isso. Vou andar de cavalo, vou me molhar de chuva e não vou ficar doente. Será que o guarda-chuva não está aqui na maleta e eu achando que ele está em casa? Se eu ficar doente, eu vou morrer.Se eu morrer, não chego em Andaluzia vivo. Vou me converter ao Islã. Em nome de Allah, o misericordioso. Malba Tahan e o homem que calculava. Serei um sheik e dormirei numa cama de diamantes com lindas gueixas. Gueixas? Não. Gueixas não. Gueixas não. Meu pai curtia gueixas.Vou dormir com lindas dançarinas de dança do ventre com véus verde-esmeralda, que meu pai nunca pensou que existissem, mas que existem.Só em Andaluzia.Meu pai nunca se ligou que Andaluzia existisse. Pronto. O ônibus chegou.

-Esse ônibus passa no aeroporto? Vou pegar um avião pra Andaluzia sabe...
-Passa.

E então as dançarinas vão dançar pra mim eternamente. Depois quando eu estiver velho...não, ninguém fica velho em Andaluzia. Eu não vou ficar velho. Vou me casar com uma delas, ela me trairá, eu a matarei e lavarei minha honra no sangue dela. Nunca amarei.Em nome de Allah, o piedoso. Vou me converter ao Islã. Hoje. Quando eu chegar em Andaluzia, vou comprar meu cavalo negro. Vou jogar esses óculos fora. Em Andaluzia ninguém usa óculos.

Em nome de Allah, o compassivo. É chegada a hora. O aeroporto, enfim! Adeus, pátria estúpida de meus pais mortos. Adeus, pátria pútrida de pecados fétidos! Adeus, enfim, adeus! Até nunca mais! O avião, ah! o avião para Andaluzia, minha passagem, minha vida, minha luz!

Assim, o avião parte. Ele toma o veneno misturado no refrigerante do avião. E parte, de vez, para Andaluzia.

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