sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Cabeça, tronco, membros, alma e emoção.

I
Corri para a tentativa de vingança mas, errei no meio do caminho. De nada adiantou a pressa: poderia, sim, ter planejado melhor.
Era mesmo uma vingança? Não. Era uma só tentativa...como quem joga na loteria e sabe que, no fim, vai perder. E eu perdi.
Ganhei liberdade e sonhos infinitos. Não me valeram. Não me seguram. Não me bastam.
Eu quero o olhar, a conquista, os sorrisos, o toque...a dúvida. Mas, não tenho. Só tenho o barulho da conversa alheia num shopping lotado.
Eis o que tenho.
O que tenho em mim quero mudar. Mas, não quero que eu me perca na metade do caminho. Mesmo assim, eu vou.
Eu já estou indo.
Já fui.
II
Caminho por milhares de caminhos já caminhados por milhares de caminhadores melhores que eu. Caminho por esses milhares de quilômetros, imersa perdidamente numa imensidão de pensamentos cotidianos que em nada me ajudam nem iluminam.
Penso num vestido azul, imagino uma sandália colorida, vejo o livro não-lido, sinto a frase não-dita.
Espero alguém que me tire dessa monotonia de versos-capítulos repetitivos, intolerantes e cáusticos como um diabo azul que mata a fada verde do absinto francês.
Desejo mais que tudo, um tom novo capaz de me guiar por um caminho novo, uma saída permanente desse lugar-comum do clichê.
Estou me sentindo um mármore que alguém bate e bate e só o que tem dentro é um monte de ossos esperando exumação.

III
Tem um cara sentado esperando a mulher terminar as compras.
Tem uma balconista cansada com saudades de casa.
Tem um garoto vestido de branco carregando papéis embaixo do braço.
Tem uma moça comendo batata frita.
Estarão esperando quem os colorirá a vida?
E eu aqui.
Alguém? Tem alguém aí?

"Eu faço versos como quem morre."

A moça de blusa verde, o casal de braços dados, o cara rindo e falando no celular, a muher de vestido branco, o segurança de camisa social, um cara cantando a música dos fones de ouvido.
Mas...será que tem alguém aí?
Vem a criança, de mãos dadas com os pais. Fala e gesticula, mostrando as vitrines, apontando as pessoas, aponta pra mim, me olha e sorri.
"Monalise, vou pra casa...Já posso dormir."
IV
Estou sentada no chão em frente à porta. Mas ela não está aberta. Se eu tivesse a chave, valeria a pena abrí-la?
Definitivamente, preciso enfrentar e viver, confrontar e resolver.
Não. Não é uma guerra. Nunca foi.
E eu poderia ficar aqui horas, dias, séculos, pensando nessa guerra imaginária...criando armas, escudos, bombas, estratégias...
Mas estou aqui e é tudo imaginário.
E sei que não há nada além de vida.

Poderia haver olhos. Olhos castanhos, azuis, verdes...sei lá, mas que seriam olhos especiais que brilhariam estrelamente ao fitar os meus olhos-amêndoas.
Poderia haver ruas em que eu não caminharia sozinha...e sim, haveria alguém que pensaria em mim antes de dormir.
Mas, não há coisa alguma. Olho algum, rua alguma, pensamento nenhum, nem...sono.
Não há enfrentamento, não há guerra, nem estratégia...só o que existe é vida...e, no fim, a solidão, a velhice, a morte, a dor, a ausência, o fim.

V
Perco tempo pensando no que poderia acontecer se.
Perco tempo passando tudo a limpo porque.
Não tenho muito mais tempo de tudo passar a limpo.
Não tenho o que passar a limpo.
De concreto, nada mesmo a dizer que dure tanto. Nem me arrisco.
Meu coração está assim, entregue a.
E minhas histórias morrem, esvaecendo-se em pó, antes de terem o fim.
Mozart e Schumann tocam inutilmente pois não ouço mais nada além da batida do meu coração.
Não me consola. Estou viva.
Daqui a pouco, o metrô chega, o verso acaba, a caneta dorme.




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