quarta-feira, 23 de março de 2011

22 horas

Para exercitar minha pequena humildade, estudo.
Temo pelo orgulho que me cega, pela vaidade que degenera.
Caio. Mas, minha fronte se mantém erguida.
E, se tem um abismo à frente, não olho.
Precipito-me sem encará-lo nas suas profundezas.
No escuro, meu ego é tocha iluminando fortemente minha vergonha.
E luto, longamente, esta guerra contra mim mesma.
Esta batalha interna que tem ares de eterna
Não esconde minhas dores, minhas dúvidas
E nem a alma que ataca a própria alma.
Não esconde a raiva dessas vozes malditas que me rodeiam, falando de futilidades,
inutilidades.
Não esconde o remorso pelos erros passados.
Não esconde o amor, que é proibido pra mim.
Esqueço o que ia escrever pois as vozes não param, em suas risadarias falsamente construídas para entreter os tolos.
Suas gargalhadas estridentes ressoam nesse abismo que é a sala agora.
No fim de tudo, não me controlo: sinto ódio.
No fim de tudo, é só uma inveja inocente...Inveja de suas vidas tão fáceis, tão simples
Num acordar-dormir-comer-sorrir sem fim. Sem utilidade. Sem seriedade.
Não há silêncio, nem o claustro, nem a angústia, nem a dor. Nada do que me assombra.
Não, minhas estridentes, vocês não sabem!
E aqui sinto realmente toda a minha inutilidade. Como sou inútil em tudo.
Sou uma mulher de letras,
que esconde a cara em sonetos,
veste a púrpura enlameada dos últimos românticos,
ajoelha-se diante de um deus barroco,
pecadora, pecadora o tempo inteiro
quebrando as próprias regras,
sofrendo, chorando....pois tudo dói.
Porém canta.
E, no meu canto triste me encolho
a si mesma aconchego
entre meus versos cheios de agonia
crio uma cabana num mundo deserto.
Ali me escondo, ali me guardo de mim
e de outrem.
Em mim não há senão morte.
E o desejo firme de mudar de vida, ter outro corpo, outra alma: não pensar em mais nada.
Ser burra, insolente, intrometida, ser diferente
dessa coisa calada que medita à noite,
e, no meio da perdição do mundo, lê um livro.
Choro escondida sem falar nada, e nenhum gemido emito.
E ninguém consegue ver por trás da raiva
que explode por meus olhos, vermelha.
Ninguém escreve o que sente, ninguém fala do que lhe dói.
Sou repetitiva em tudo, mas só em verdades permaneço.
Verdades sonhadas, vividas, revividas.
E as mentiras? Eu não sei.
Vivo, sobrevivo, morro e renasço
Todo dia me perco um pouco de mim.
Ninguém se importa se me desculpo,
me atraso ou ofendo.
Ninguém me ouve.
Lama, caos e morte: eis o fim.

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