quarta-feira, 9 de março de 2011

Andaluzia

Décimo sanduíche de presunto e queijo
que degluto com um copo de refrigerante.
Já nem sinto mais gosto de nada.
"Chão de giz"? Mais uma vez?
Já nem ouço mais nada também...
Um banho gelado no meio da madrugada gelada
A água percorre minha pele insensível
e cai nos meus pés amortecidos.
Já não era sem tempo: não sinto mais nada.
O monstro que abre lentamente a porta do meu guarda-roupas,
o fantasma que fica em pé na porta do meu quarto,
algum assassino invisível que faz barulho ao subir lentamente as escadas,
o corvo que me olha atentamente pela janela,
a Senhora vestida de preto que me sorri friamente...
Nem adianta...todos podem ir embora: eu não tenho mais medo algum.
Um gato mia no meio da noite, um cachorro qualquer late...
Está frio, mas estou na janela olhando qualquer coisa no céu negro
As estrelas são pontes para imaginar muitas coisas
que não sei o que são, pois não imagino nada.
Minha cabeça dói...é só o que sinto: uma bomba pulsante de dor no meio da minha cabeça.
Olho o outro lado da rua...não há ninguém nem nada.
Começo a falar sozinha. Sozinha mesmo?
Não sei.
Mas, no fundo, queria que alguém ouvisse.
Não adianta, não falo nada de interessante...e me calo.
Olho de relance a imagem de Jesus Misericordioso na minha estante...o terço antigo que minha avó me deu está a seus pés.
Penso em rezar. Mas não...Tem guerras acontecendo, pessoas morrendo...Ele está ocupado.
Nuvens encobrem o céu...as estrelas somem. A dor persiste.
Todas as portas estão trancadas...tudo estará eternamente trancado pra mim.
Não acredito em mais nada.
"Chão de giz"? Outra vez?
Eu vou quebrar o rádio. Mas, não vai adiantar nada.
A música está dentro da minha cabeça. Bem no meio da minha dor de cabeça.
Queria escrever nas paredes brancas do meu quarto-manicômio...mas minha pretensa conduta social me diz que não posso rabiscar paredes.
Conduta social. Quantos estão acorrentados a isso, além de mim?
O homem que veste seu terno todos os dias e trabalha em algo que odeia.
A mulher que veste seu terno todos os dias, e sorrindo, trabalha todos os dias de sua TPM e de sua dolorosa menstruação...além de estar num lugar que odeia.
Preciso cortar minhas unhas. Preciso deixar crescer os cabelos. Preciso embranquecer meus dentes. Preciso vestir roupas de grife. Preciso sorrir mais. Preciso ganhar dinheiro. Ganhar dinheiro é essencial. Essencial é ganhar dinheiro. O essencial é invisível aos olhos? Foi o que meu pai me ensinou e eu, já nem sei mais.
Haverá luta na minha mente. E mais dor.
Não. Melhor parar de pensar, de escrever, de digitar, de falar...de existir.
Acho que vou comer outro sanduíche. Tomar outro comprimido. Dormir, esquecer, sonhar talvez.
Mas, com essa música na cabeça...Impossível descansar.
Talvez amanhã...talvez outro dia...talvez dia nenhum. Nunca.
Estou delirando. Deliro em meio a essa noite gelada de março. Todos estão rindo, pretenciosamente felizes...e cantam, cantam, cantam!
A dor já não está apenas na cabeça. Ela corre pelo corpo, acerta em cheio o coração, pinta tudo de vermelho.
Onde estão os Anjos? As Flores? A Cruz?
Não deliro. Não é um delírio.
É o tapa sem luva de pelica. É a porrada na cara. É a realidade vestida em tons pastéis.
E ela canta, ela gira, ela me engana, ela ri de mim
E sabe que eu vou desistir. Abrir mão de tudo. Fraquejar. Chorar.
A dor está gritando pelo meu corpo.
Minha mente está calma. Não deliro mais.
E eu grito por Zora, Isaura, Tlön e Uqbar!
E no meu grito está o meu canto, minha dor, minha vida.
Caio em sono profundo e vejo Clarice fumando...
Acordo e estou numa rua deserta...o chão é de terra batida...o cheiro no ar é de gengibre, canela e cravo...Não está frio...Vejo o pôr-do-sol róseo. Vejo, enfim, alguém caminhando até mim: é uma velha cigana, com uma saia de panos coloridos esfarrapados, um lenço azul celeste na cabeça...e ela vem calmamente e sorrindo, sempre sorrindo me pede que a acompanhe.
-Aqui eu não sinto dor.
-Eu sei, menina. - e sua voz é encantadoramente doce...além de me parecer extremamente familiar.
E eu vou.

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