sexta-feira, 25 de março de 2011

Outra noite

No meio das roupas antigas, ela escolheu um vestido preto. Estava com o cheiro característico de naftalina. Estava cheio de bolinhas. Estava com poeira.
Os sapatos pretos ficariam bem, mesmo menor que o número atual.
O cabelo estava mais ralo, grisalho. A pele pálida, marcada de rugas, sem maquiagem. As mãos já tinham força. Os joelhos doíam.
"Por que ninguém quer envelhecer, meu amor? É alguma vergonha?"
Ela passou as mãos no rosto. Observou melhor as próprias mãos. As pernas já não eram fortes nem torneadas, estavam fracas, finas...cansadas.
"Por que ninguém mais conversa comigo, meu amor? Estou velha, mas ainda existo."
Ela foi para a sala e, bem devagar, pegou o disco e colocou no toca-discos antigo. A música começou, baixinha. E ela começou a cantar.
"Parece que dizes
Te amo, Maria
Na fotografia
Estamos felizes"
-Já fui jovem, meu amor...Você se lembra?
"Te ligo afobada
E deixou confissões
No gravador
Vai ser engraçado
Se tens um novo amor"
-Já fui afobada, alegre, já fui tudo: já fui a Primavera.
"Me vejo ao teu lado
Te amo?
Não lembro.
Parece dezembro
De um ano dourado"
Ela deita-se, confortavelmente, no sofá. E dorme, dorme, dorme.

Nenhum comentário: