quarta-feira, 6 de abril de 2011

Memória

Dedico à professora Giane, a recuperadora de memórias; a Rodolfo Walsh, a Salvador Allende, à professora Camila e a todos os latino-americanos.

Eu, filha do chip e da radiação nuclear
Eu, filha do monóxido de carbono e da tecnologia anestesiante
Eu, neta da colonização e da vergonha
Eu, me dispo de toda a identidade que me deram
naquelas aulas intermináveis de história pálida,
unilateral, injusta, maquiada.
Dispo-me da Rainha Xuxa, das Princesas Angélica e Eliana.
Dispo-me da autoridade marcial da diretora do colégio particular.
Dispo-me do mundo da Coca-Cola...de Hollywood...da Califórnia Beach das Barbies.
E, agora, vou tentar chorar minhas lágrimas
pelos meus índios, ó Terra dos Mares Amargos;
pelos meus negros, ó Terra do Ouro Roubado:
Em que o sangue se tornou moeda de troca
pelas minhas mulheres tomadas pelo horror
de terem arrancadas de seus ventres
de dentro de seus ventres,meus Deuses!, os filhos.
É pelos filhos que choro também
e tenho vergonha de estar aqui agora.
Ajoelho-me.
Eu, que não tinha me dado conta
que meu sangue é negro, branco, amarelo e vermelho
O meu sangue não é meu, é nosso
O meu sangue é latino-americano
E meus irmãos, por aí, espalhados, passando fome.
Eu, irmã de sangue e de horror dos chilenos
do 11 de setembro que só eles lembram...em suas memórias-exiladas...
Eu, filha-neta de Allende
ó Allende, onde estás agora?
ó Walsh, onde está você?
Venha, quero abraçá-los
pedir perdão pela minha falta de conscientização
E pela ignorância.
Eu, que tenho mais irmãos do que imaginei...do que sonhei
Eu, filha da Latino-América
Eu, filha do Brasil
Neta de Tupac Amaru
E, se me lembro bem
Filha dos Oceanos, dos Mares do Mundo
Meus olhos são gotas do Mar Portuguez também
"Ó mar salgado, quanto do teu sal/ São lágrimas de Portugal?"
E, sim, guardo em mim também as orações das mães
dos marinheiros perdidos nos mares revoltos
com os corações melancólicos de saudade dos Lares, das mulheres, dos filhos...
Eu, guardo em mim todo o Grande Mundo
Dos Céus, das Terras, dos Ares, das Fogueiras
Batendo palmas aos Orixás
a Alá, a Cristo, a Krishna, a Todos os Deuses!
Reverenciando os Grandes Caciques
E, ofertando arroz aos meus Antepassados.
Ó Brilhante Oriente, também oriente-nos!
Minha alma, muitos altares! Acendam os incensos, velas e defumadores!
Minha alma, todos os Deuses!Todas as histórias rimadas, todos os amores!
Eu, guardo as flores das Nações:
as poesias, as cantigas e as canções.
Mas, tenho as marcas das chibatas nas costas
Tenho as tatuagens nas mãos
Tenho meus véus manchados de sangue
Tenho a burka rasgada, já não me escondo mais: Eu grito!
Tenho as marcas da violência no ventre
Tenho as marcas das lágrimas no rosto ferido
Eu, guardo em mim as dores dos irmãos torturados
E acordo, assustada, pela face dos meus torturadores do antigo-novo regime militar
que dizimou minha memória, minha identidade, minha verdadeira cultura
e muitos dos meus irmãos!
Porém hoje,
Eu não sou mais estrangeira!
Não sou mais a exilada!
Eu tenho a minha terra e meus irmãos!
Minha Latinoamérica!
Meu Oriente!
Minha África inteira!
Minhas tribos, meus lares!

5 comentários:

Carmen Figueiredo disse...

Que coisa maravilhosa estas frases perfeitas e verdadeiras. Que seus sonhos sejam cada vez mais
profundos e permanentes nesta sua busca incessante pelo seu caminho na vida. Sorte daquele que tem Memória e Memórias para compartilhar. Quem não as tem, não viveu, apenas passou sem deixar rastros.

Carmen Figueiredo disse...

Não podia deixar de comentar. Gostei da nova abertura do Blog. Perfeita!

Naaman disse...

Já escutou "Yo pisare las calles nuevamente" do Pablo Milanés? É de arrepiar os cabelos...
Se você recebeu bem a "Introducción" do Gabo que te mandei por email, me avisa que te mando "Yo pisare".
Gostei do sentimento latinoamericano.

Naaman disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Naaman disse...

Tava repetida... porisso a remoção.