segunda-feira, 25 de abril de 2011

Paratodos

Quando eu tinha quatro anos, cantava músicas sem ter que entender as letras, comia meus doces sem medo de fazer sujeira, desenhava o mundo com meus lápis-de-cor, explicava o meu universo aos ursinhos e bonecas, contava histórias com palavras inventadas sem medo de errar...
Quando eu tinha quatro anos, não tinha que ser nada: eu já era tudo que queria! E esse tudo me bastava! E eu era feliz!
Um dia, eu era astronauta; noutro, era bailarina; e por aí vai: professora, princesa, cavaleiro, bombeiro, policial, veterinária!
Quando eu tinha quatro anos, podia falar o que bem quisesse, da forma que desejasse...podia me dar ao direito de chorar e gritar bem alto, podia dizer "te amo" sem medo, podia jogar tudo pro alto e fazer festa, podia falar sozinha que todos já iriam me arrumar amigos imaginários, podia falar com os bichos....podia dançar conforme minha música, eu podia porque podia porque podia porque podia. Podia pedir explicações infinitas e fazer perguntas consideradas bobas...
Mas, depois do doce vem o amargo.

E eu, agora com vinte anos na cara, dois anos no peito, treze anos na alma, sessenta anos nos olhos, TENHO que ser uma coisa só porque ser infinita só me traz desgosto. Tenho que ser uma coisa só. Uma COISA só. Uma coisa SÓ!
Dos meus quatro anos até agora, só tive perdas. E sempre terei! Fui só me cortando aos pedaços, fui me perdendo entre as peças desse "jogo" maluco, fui caindo no meio do caminho, me enchendo de cicatrizes no coração, fui criando máscaras e universos paralelos secretos, fui inventando amores inexistentes e não-correspondidos, fui me tensionando, fui me reprimindo, fui prendendo choro, fui guardando roupa velha, fui me amarrando, fui me crucificando, fui me tornando real, real, real, subitamente, assustadoramente real, fui jogando as tintas, as bonecas, os ursos, os lápis de cor no lixo mais próximo, fui largando meus pincéis, fui me deixando de lado, fui parando de comer doces com gosto, fui ficando com medo do mundo, com medo de tudo, fui esquecendo de mim.
Tomar consciência disso, mesmo que uma consciência inexata, insegura, não me fez feliz, satisfeita, nem me fez voltar a ser inteira, una, feliz. Tomar consciência disso fez com que eu me sentisse pior em tudo, por ficar procurando nexo, lógica, cálculos e cálculos e cálculos, me prendendo a padrões milenares e que não são meus! Nada disso é meu! E eu não sou nada disso! Mas, eu fico aqui me prendendo a porquês.
Agora, aqui nestas cadeiras azuis desconfortáveis, penso, enquanto Baudelaire bebe algo ali do outro lado da sala, penso que estou perdida. Rimbaud sorri para alguém imaginário. Mallarmé está preocupado com uma palavra para um verso. Ninguém sonha, ninguém conversa, ninguém está aqui. Estou só.
E, diante de mim, agora, estão todos dormindo. Dormem em mundos controlados por deus e por políticos. Dormem em mundos de egoístas racionais. Dormem com as mãos nos rostos, fingindo pensamentos profundos acerca da vida, da morte, da sorte. Dormem e babam. Dormem sem pensar. Dormem sem dormir. Dormem sem o mísero sono. Dormem de tédio. Dormem sem sonhos! E porque não há outra saída!
Até o cara que está lá na frente, agora, sorrindo e falando há mais de uma hora também está dormindo. Mas, ele é o pior dos que dormem: é aquele que finge que está acordado, é o cara que está no fundo da caverna vendo sombras também (igual a todo mundo), mas acha que vê a realidade...sem coragem de ir, de verdade, lá fora ver o Sol. É o pior dos que dormem porque sabe o caminho para o Sol, para a Luz e não sai, nem leva ninguém! Nem ensina o caminho pra quem deseja caminhar, nem faz o próprio caminho! Acha teu caminho primeiro, Homem, que aí eu te respeitarei! Você só fala e sorri como se tivesse ido e voltado, porém falta brilho aos teus olhos, falta verdade nas tuas palavras, falta amor no teu sorriso, falta entusiasmo nas tuas letras! Enquanto isso, você fica aí, apontando para as sombras na parede e explicando, explicando, explicando SOMBRAS que se mexem automaticamente e dando-lhes nomes.
Desculpa aí, meu caro, mas eu vou lá fora buscar meu Sol!


E bato a porta mesmo. Pronto!

7 comentários:

Naaman disse...

Pronto! Vocé sabia que essa foi uma das primeiras palvras que você aprendeu a falar? Desse jeito mesmo, com a exclamação: Pronto!

Mariana Belize disse...

Legal!!! Eu nem lembrava...e olha que adoro escrever isso! Adoro a sonoridade que tem.

Beijo.

Anônimo disse...

Amei Mari...Bjs.
Valéria Lourenço.

Daiane Borduam disse...

Caramba moça! Que força hein?!

Se o cara lá da frente for quem eu tô pensando é bem merecido. Sempre que olho para ele lembro-me daquela propaganda que diz: Você tem conteúdo ou só faz cara de quem tem? rsrs

Ótimo texto. Achei perfeita a alusão ao mito.

bjs

Mariana Valle disse...

Adorei, Mari! Principalmente a última frase...

Mariana Belize disse...

Daiane, valeu pelo comentário e pela força!

O cara é esse mesmo que vc está pensando.

Beijos.
Mary

Mariana Belize disse...

Mari Valle, obrigada pelo comentário e pela força também.

Abraço.
Mary B.