sexta-feira, 8 de abril de 2011

Sexta-feira

I
Hoje percebi o quanto tenho de lágrimas em mim. Presas.
Por que as guardo, eu não sei. Por que as prendo, sim.
De qualquer forma, me sinto uma estranha entre as gentes, sempre.
E não é mais a ausência de uma identidade porque já descobri donde provenho, donde nasci, donde vem minha cor, meu sangue.
Falo agora como individualidade. Influenciada e modificada por uma sociedade e pelo estado de coisas, eu sei, mas ainda uma individualidade. Um um dentro do todo. E assim penso, assim falo, assim existo.
Tudo que há em mim hoje é cansaço. Uma dor meio embaçada com maquiagem, mas ainda uma dor. Sem explicação lógica.
II
A vida é um caminho solitário. Não. A minha vida é um caminho solitário. E cá estou eu nessa sala, outra vez, com o professor falando...gêneros literários, eu anoto; Adorno, eu anoto; Humbolt; eu anoto e lembro de Rembrandt. E pronto, foi-se a aula por que agora vou ficar no Rembrandt, aí lembro do Van Gogh de orelha cortada, o sanatório, David Helfgott, piano, Rach 3, vou ouvir música clássica, ...
"E vamos passar para a próxima frase do ensaio..." - volto pra aula.
Joyce, Beckett, sentido, imagem acústica, primeira natureza, segunda natureza, linguagem alucinada, Paul Stillman - pensamento vaga, divaga, transvaga...a aula já foi.
III
Limite-me, para que eu não me ache tão profunda.
Surpreenda-me, para que eu não me ache a única.
Ofenda-me, para que eu não me ache diferente.
Infantilize-me na sua mente, para que eu não pareça tão madura.
Use minhas próprias palavras e ponha-me na guilhotina.
Não me ouça, não me dê chances de falar,
nem de respirar, nem de pensar, nem de agir.
Veja-me etnocentricamente.
Olhe-me com teus olhos purulentos.
Despreze-me, para que eu ache que não tenho amigos.
Cristalize-me, para que eu não vá além do que você já foi.
Projete em mim tuas dores, tuas carências, tuas pendências,
teus dilemas, teus assuntos mal resolvidos.
Desenhe-me como teu alvo, dispara tuas flechas envenenadas
para que eu ache que não posso desviar e que está consumado.

PS: Um abraço para Renata, Mariana Valle e Daniela. Um sincero agradecimento a Rodolpho Amaral, Valéria Lourenço, Claudia Capua e Juan Nahuel. Um abraço cheio de saudades para Alexandra. E a todos os outros, não menos importantes, um bom final de semana.

Um comentário:

Naaman disse...

Bom final de semana. Beijão,