quinta-feira, 5 de maio de 2011

eu em um sei-lá

Quero gritar na poesia, mas é impossível.
O grito mediado pela voz mediada pelas letras mediadas pelo cérebro mediado pelo pensamento mediado pelo eu mediado por sei-lá-o-quê.
Perco-me no grito interno em meu corpo. Perco-me de todo caminho possível. Perco-me de tudo.
Porém, escrevo. Conto meu caminho, se paro ou se corro, passo por passo, narrado, chorado, gritado.
Vivo.
Piso descalça no chão do mundo, respeitosamente. Respiro, inspiro, expiro...
Levanto os braços...estico lá em cima...depois solto...o ar fica preso. Engasgo.
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E, desisto...canso de tudo. E a vida se torna uma cadeia de coisas que passam muito rápido...lembranças que se tornam infinitas porque se fixam em cada partícula de mim. Lembranças passam como fotografias mofadas, largadas...numa tentativa perdida de esquecimento.
Procuro a solidão como forma de esquecimento. Procuro qualquer coisa pra esquecer. E, confesso, que temo ser impossível o total esquecimento. Lembranças são inevitáveis, por mais que se deseje não tê-las. Não vivê-las, não sobrevivê-las.
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Vivo constantemente assaltada por medos infantis. Incompreensíveis ao senso comum, duvidosos para quem não me conhece, risíveis para os cínicos...
Ao mesmo tempo que sinto tédio, tudo grita em mim, tudo me grita, me ultrapassa, me quebra...
tudo isso é um processo mental, sensível. Ninguém percebe porque não é um fenômeno observável assim facilmente. Tem que se deter em detalhes, nos meus olhos, nos meus gestos, nas entrelinhas mínimas de minhas palavras sussurradas...tudo em mim é segredo, tudo é escondido, tudo é mistério. Noite.
Mesmo para quem ache que sou realmente transparente, e é um paradoxo terrível escrever sobre isso...porque estou sendo transparente em dizer que não sou tão transparente assim.
Pura loucura sem discernimento. Para os mais sinceros ou dados a ironia, é burrice.
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Olho, desatenta, pela janela do ônibus e arranco o esmalte vermelho da unha com outra unha. De certa forma, não vejo o tempo passar e já me acostumei, dormente, aos balanços do ônibus. Dormência, tudo que escrevo está dormente, contaminado por uma angústia indolente que me enfraquece.
Beijo meus sonhos como quem se despede cheia de dor...escrevo não tendo noção do que essas palavras podem causar.
E a noite chega, monotonamente, sem estrelas, sem lua, carregando apenas promessas de temporal.
"Desilusão, desilusão, danço eu, dança você, na dança da solidão..."
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Não há canto que me acometa mais, nem música que me toque, nem poesia que me acorde dessa indolor impaciência. E nem mesmo a falta de sentimento é um sentimento.
Tudo me entorpece. E para o tédio não há reabilitação possível...nem para essa dor há remédio algum. E aqui me repito, me repito, me repito...leia outra vez quem queira, não me desculparei.
Olho para as cortinas da sala, olho para a estante de madeira, olho para o telefone desconectado, olho para a luz acesa, para a televisão ligada...olho o céu pela janela aberta. Que me falta?
"Eu, caçador de mim..."
E cada vez me mato mais nessas palavras, todo o mistério se vai, todo o segredo é descoberto de suas sete capas...porém, o que é real? No meio de tudo, o que é real?
Ah! Pensamentos malditos que me invadem! Moléstia perene é o pensamento! Não o tempo.
E eu aqui perdida, eu aqui solitária.
Eu aqui insônia dizendo tudo ao mesmo tempo e mais de um milhão de vezes. Exagero.
"Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade..."
E tudo de mim é mero eco polifônico, polivalente, nada de mim é verdadeiramente meu.
Além disso, tudo é um infinito de possibilidades. Menos para mim, presa aqui nessas míseras coisas escritas, sentidas num momento qualquer de uma existência indiferente!
Onde morreu minha alegria, Álvaro? Estará ela no meio da fúria calorosa de tuas máquinas, de tua ode, de teu triunfo?
Onde mora minha mente verdadeira(mente), Álvaro? Estará ela no meio dos teus guardados, dos teus ossos portugueses ou da tua alma imortauniversal?
Álvaro, sei que sabes quem se esconde por trás de teu nome...tudo muito subentendido, pressuposto teoricamente perdido em confabulações metafísicas....hermético-hermenêuticas!
Fechado mesmo! Trancado em mim, Álvaro...e tudo que escrevo, penso em você...constante(mente).
Não sou o mistério, sou a mulher mariana.
Morte e vida mariana.
Mariana, filha de Severina Sertões Veredas Cunha Queiroz Ramos Neto.
"Se fosse só sentir saudade, mas tem sempre algo mais..."
Seja como for, nada acontece. meu tédio vale dez centavos. minhas palavras? nada.
"Isso é só fim, isso é só o fim..."
Fim de tudo, noite adentro. Durmo e canso. Sinto e esqueço.
Tudo fenecerá, passará com o vento, como nuvem. Dentro da noite. Dentro do sonho.
É noite dentro da noite, dentro do vento, dentro da tempestade. Raios da noite.
Voa, corvo, pássaro da noite terrível!
Voa e grita teu nevermore para sempre dentro da noite.
Outra noite dentro da noite dentro da outra noite: insônia eterna é teu pesadelo?
Você é meu. Te vejo do outro lado.

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