segunda-feira, 2 de maio de 2011

Pedra

Sou uma serpente enrolada em si mesma
sinuosamente movendo a cabeça triangular
medindo teus passos pelo balanço do ar
teu cheiro passeia, ondulante, na minha língua bifurcada.
Sou uma cobra com duas cabeças, cobra falsa, naja de areia
sem veneno, sem antídoto, sem habitát
meço teus passos intuitivamente
quando te sinto passar...quando sinto teu vento passar
por mim.
Sou a pantera numa noite sem lua,
gata borralheira, imunda do lixo cotidiano,
tigresa sem listras, sem garras,
leoa que não sabe caçar.
Agora mesmo viro árvore
de caule desprotegido
porque querem me ver sem seiva
sem raiz
sem terra minha.
Planta que não dá flores para alegrar alguém
Planta que não dará frutos no próximo outono
não deixará legado, nem herança, nem perfume.
Planta sem medicina, sem cura, nem veneno
planta que não alimenta, não cuida, não ajuda.
Mudo.
Cristal decadente, que não vale mais nada, sou eu
nem mesmo uma ônix, nem um quartzo com poderes místicos
nem lápis-lázuli, nem olho-de-tigre
sou pedra-cascalho, pedra de rua
pedra que a gente chuta sem perceber
pedra de tropeço
sou pedra sem cor, sem nome, de qualquer lugar,
qualquer forma, qualquer coisa.
sou pedra que quebra
pedra que fere
pedra opaca
pedra quebrada
pedra sem valor.
Sou pedra e estou no meio do caminho.
Pedra na bifurcação da língua da cobra
sem saber que caminho escolher...
só sei o que não sei
o que me pertence é o que não é meu
e eu também não sou de ninguém.
Não sou mais pedra.
Não sou mais nada.
Sou um "dar de ombros", um não sei, uma falta de objetivo
um "que horas são?", um "Amém" sem convicção
um "Aceito" constrangido, uma aliança sem futuro.
Sou toda uma cadeia de fatos inúteis
Sou toda uma reserva de coisas de mim
Sou toda eu...sem querer nada
Sou tudo. Sou nada.
Ah! Eu sou o clichê.
Eu sou o exótico.
Ainda sou pedra, não esqueça,
pedra que você chuta,
pedra que te mata,
pedra que te incomoda,
pedra dilacerada.
Pedra dinamitada.
Pedra cheia de fim.
Pedra cheia de nada.

10 comentários:

Naaman disse...

Gostei! Cena do filme "O Sétimo Selo" do Ingmar Bergman, com o Max Von Sidow jogando xadrez com a morte. Caraca... voltei mais de 40 anos no tempo... E você me fazendo surpresas. De onde você tirou essa foto, garota??????

Mariana Belize disse...

ahhh pai, tirei do google, né? rsrsrs

acho que a gente tem um grau sério de telepatia...rsrsrsrs


que bom que gostou. Beijões!

Mari

Naaman disse...

Sim, mas tirou do google, porque? Já viu o filme?

Fernando Vieira disse...

Faço minhas as palavras do seu pai: que imagem!

Parabéns!

Naaman disse...

Esses caras mais antigos, tipo Bergman, Fellini, Kurosawa, Bunuel, davam uma importância muito grande à qualidade da imagem dos filmes que faziam. O Kurosawa chegava a desenhar cada quadro antes de filmá-lo. E o Bunuel teve cenas boladas e pintadas pelo Salvador Dali. E não tinham os recursos que os caras tem hoje. Tô sendo saudosista? Acho que sim. Hoje em dia, quem faz isso? Tarantino, Almodovar, os irmãos Cohen. Não estou falando de imagens espetaculares como as do "Guerra nas estrelas" ou "Avatar" (que eu gosto muito!) Tô falando de imagem limpa; como se você pudesse parar o filme de repente e ter uma imagem fotográfica muito bem composta na tua frente. Se você prestar atenção na imagem do Bergman, vai perceber que o rosto da Morte está todo iluminado, enquanto o do cavalheiro está metade na sombra. O tabuleiro do xadrez também tem metade na sombra. Não sei se o Fernando viu o filme ou se já conhecia a imagem, me pareceu ter ficado impressionado, pois colocou até exclamação no comentário dele... Já falei demais. Você sabe do que estou falando. Nenhum desses nomes aí em cima são estranhos pra você. "E la nave va", com o rinoceronte e todos os loucos...

Mariana Belize disse...

Pai, eu já vi esse filme sim do Bergman. Aliás, você bem sabe que nenhum desses nomes é estranho pra mim. rs



O rinoceronte! rsrsrsrsrsrsrsrsrsrs

Já disse que você não tem limiotes aqui, pai, pra comentar ou criticar.

Beijões!
Mari

Fernando Vieira disse...

Eu assisti sim, Naaman, a "O Sétimo Selo", do Ingmar Bergman (1956). Gostei tanto que a obra está entre as sugestões cinematográficas que faço no meu blogue. Aliás, convido-o a dar uma olhada nas coisas que existem lá (www.linguaemtranse.blogspot.com). Não há tanta poesia quanto existe aqui. No "Lingua em Transe", há muita lamentação. Acho que me encaixo na categoria de gente que o Machado qualificou de "choramingas" (rsrs)...

Abçs nos dois - pai e filha!

Mariana Belize disse...

Meu blogue tá virando bate-papo...rsrsrs
Não que eu esteja reclamando, mas achei curioso. rsrsrsrs
.............
Eu sabia que o prof Fernando já tinha visto o filme porque já havia comentado alguma vez em sala de aula.
...............
Sobre o Língua em Transe não acho que seja cheio de lamentações...eu gosto muito dos textos de lá...
..................
Um abraço pra vc também, prof. e sinta-se sempre bem vindo ao blogue.

Naaman disse...

Ô Fernando, vou correndo prá lá. Já que você falou no Machado, achei o Dom Casmurro publicado em inglês (na Saraiva). Maior barato... mas muita coisa da fina ironia do Machado se perde. É mais ou ou menos como as traduções do Poe para o português. Você deve saber disso, senão, a editora é Farrar, Strauss and Giroux - www.fsgbooks.com.
E, garota, não se meta em papo de hômis adultos, tá! hehehehe, sacaneei...

Mariana Belize disse...

Hômis adultos? ah tá!
o Fernando eu não sei, mas você, pai? Você é uma criança grande! Nem vem com esse papo de "homem adulto". Não cola meeeesmo, tá?

Beijo.
Mari