terça-feira, 24 de maio de 2011

Rotineiro

Teus olhos, amor, são tão plenos de signos linguísticos flutuando entre nós
quando me falas e quando me olhas, só, simplesmente.
Teus olhos de anoiteceres incompletos
contém tanta tristeza...uma melancolia profunda
plena em tanta escuridão
que te sufoca quando tentas dormir.
Tu te deitas, te cobres, olhas pro teto.
Vira pro lado, abraça tua mulher tão amada
que já dorme o último sono...
E pensas e pensas e pensas...choras, o mais silenciosamente possível.
Levantas, pés no chão gelado do azulejo da cozinha
Bebes água, tentando não fazer barulho no percurso
Desistes de vez de dormir...os olhos vermelhos, o pijamão molhado de lágrimas secas.
"Não há ninguém aqui", sei que pensas.
E sei que desejas a visita da Indesejada das Gentes.
E declamas o poema, sozinho, sentado no sofá
no meio da escuridão densa
e sabes, no fundo, no fundo, sabes
que nada está preparado
e que nunca haverá mesa alguma a ser posta
e sorris, nada seguro de si,
bebendo lágrimas com água gelada.
Jogado assim no sofá, a coluna dói...falta sono.
E, de repente bate um ódio surdo
uma onda de raiva sem explicação
e xingas, mil vezes, a si mesmo, no escuro
e choras sem mais saber por quem os sinos dobram.
For whom the bell tolls?
E assim, a raiva se vai esvaindo, sumindo...
se pensas em ligar a tv, logo desistes...
ligas o notebook
ou "computador portátil", mas é um termo muito grande
e não pegaria assim fácil.
Começas então a digitar tua insônia, tuas dores, tuas mortes, teus pesadelos
e não contas a ninguém
porque, às vezes, escrevemos para que ninguém leia.
Escrevemos só para que aquilo saia e possamos dormir, meio satisfeitos...
Para acordarmos no outro dia e repetir nossas rotinas
sempre meio satisfeitos
com meio sorrisos
e meia cartela de neosaldina no cérebro.
Ah...Cansei disso.
E aí, você pensa. Desiste de tudo outra vez
e sabe que toda noite pensa nisso.
Desiste do mundo e vai dormir
seu sono turbulento
pra ter outro dia turbulento...
E dorme. Esquece de tudo
e dorme.

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