sexta-feira, 17 de junho de 2011

Ainda

Meus olhos brilham
de lágrimas-estrelas num céu de folhas secas.
Folhas mortas que revivem no sol momentâneo
e enganam...parecem sempre-vivas. Porém, ressequidas.
Menina dos olhos sempre triste. Íris de cabelos pretos e véu de luto.
Retina - velha carpideira maldita...desfia o rosário num canto.
Hipermetropia cremada...astigmatismo sussurra, ninguém ouve seu cântico.

Meu riso aberto
nada mais é do que uma pitada de indiferença.
Meu caminhar nada mais é que um vício, um desvio da coluna.
Meu jeito de falar é altivo e valente
Firo com minha língua - espada
quem quer que seja
quem quer que se apresente à luta:
estou sempre pronta.

Três pares de olhos de cão azul me espiam
e sussurram indolentemente
que estamos sempre sós (neste inferno),
que o amor não existe (é só lamento) e
que tudo que há no mundo é sofrimento, é dor, é o fim ( o sono eterno).

Dentro dos meus olhos desce um rio de águas cristalinas
e amargas como folha de planta venenosa...
Dentro de mim, cai chuva ácida, o ar é perfumado
de infidelidades e incertezas...

Meus cabelos estão no ponto de serem cortados,
minha força assim subtraída, minha fé renunciada por um quarto
quarto de razão...eu, fazendo sala para a Ilusão.
O medo tece seus cachecóis, enquanto enrolo-me
e brinco com seu novelo de lã colorida...sou um gato angorá de olhos pretos.
O medo tece como uma velha senhora...tece uma rede de histórias
mal contadas. Intrigas que só o medo sabe inventar.

Só peço um docinho, um pedaço de cocada que me adoce os lábios
e o ser condoído... a alma condenada, para sempre, a doer
e eternamente a viver.

Meus olhos brilham sempre
cintilam estrelas em minhas gordas bochechas
e são lágrimas, lágrimas da noite fria e ressecada
lágrimas que não são chuva
lágrimas que são de amor.

Olho num espelho em que tudo escurece
e tudo morre quando toca minha pele. A neve ferve. O peito freme. O céu ruge!
Sinto-me fria e decaindo mais e mais
a cada vão...som...que ecoa.
São, sim, as garrafas vazias quebradas
na parede interna do pensamento
parede branca, machada, sem pintura
nem letras
somente rabiscos ininteligíveis
e assim, a poesia se torna em vão.
(Olhos que espiam e sorriem pro meu pesadelo.)
A poesia se torna um vão que me escondo
e me desfaço debaixo de cada tapete
cheio de poeira escondida.
Sou poeira também
poeira pesada sem vento nem norte.
Desfaço de quatro paredes banhadas de sol e chuva
paredes esfaceladas de terror e sombras
paredes sem porta
paredes sem fim. Pintadas de sangue.
Meus olhos cintilantes...estrelados de lágrimas brandas.
Vá...e todo o vento tenta levar para longe
a chuva, as estrelas, a poeira celestial
a música...as flores, a neve escorregadia.
Vá...meu coração está perdido
caminhando por entre as ruas imundas de madrugadas
de festas eternas.
A dor é imortal. Morfina já não a apaga. Nem me dorme.
Dor maior é a da hipocrisia.
Dor maior é a espera eterna... Inconsequente esperança sem fim.
Dor maior é mar...Ressaca de água salgada no fim.
E perco-me outra vez nessa amargura tão santa quanta a Doce Virgem Maria
que mora na Lua Crescente.
Amargura verde como junco...dor vermelha como rosa
presa no cabelo envenenado de ácido...
Abro os braços e tudo é delírio
o chão é o céu
o céu é onde piso sem voar. Não tenho asas, tenho garras.
Fraca é a luz que me ilumina nesta noite seca e atormentada
Grilos por todos os lados
cantam para vagalumes...prometem romances.
Escrevo com lágrimas
sem saber de onde vêm...que caminho tomam para chegar até meu peito.
Sei que escorrem, molham meu escapulário e descem pela barriga.
Sei que queimam. Sei que doem. Sei que me matam devagar. A cada instante.
Transpiro de tanta força. Força para chorar. Pra empurrar as dores para fora de mim.
Lágrimas não me desabafam, nem palavras
todas as dores estão sempre acorrentadas
cavalos com rédeas que perco às vezes
e todo o dia florido seca
e nenhuma flor desabrocha sob as vistas.
Noites roubadas por dores eternas
imutáveis
inesquecíveis.
Dores com noites eternas
lembradas.
E fraca, fraca é a luz que me atormenta.

Meu segredo é revelado:
meu coração me esqueceu.

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