terça-feira, 14 de junho de 2011

Desespero

Desligou o celular tão tranquilamente e sem peso algum na consciência que achou a noite extremamente agradável para um uísque e uma paquera. Logicamente, pensou, poderia chorar, mas não pelo sofrimento dele, não por ele. Só por si poderia chorar, lamentar, sofrer. Pensou em mudar de cabelo, roupa, jeito e nome outra vez, mais uma vez. Só para não perder o jeito, a tática, o mistério de si mesma e da imaginação. Poderia fazer tanta coisa, agora livremente, sem preocupar-se em ser nada...para ele. O choro dele a havia impacientado por um segundo, o coração pensou em bater mais forte, ela pensou em pedir desculpas. Desistiu, porém. E arrependeu-se de ter tido um fraco momento de fraqueza interior. Sentiu pena ao imaginá-lo bêbado cantando tangos antigos pelos botequins perdidos na beira da estrada. E se ele se matasse num momento de loucura maior? Não era sua culpa. Não, não era. Ele era fraco. Por isso, tinha perdido a oportunidade de tê-la ao lado. Ele não era um arquétipo de príncipe perfeito.Ele era um nada.
Mas, por que pensar nele agora? Tanta coisa há de ser feita essa noite...o uísque, a paquera...
Mas, é o tal negócio, ele estava chorando...homem pra chorar é porque a coisa tá séria...Não. Lágrimas de crocodilo! Concentre-se na roupa, na maquiagem, no sapato, no cabelo. O uísque, a paquera.
Sentiu de repente o perfume dele no ar da noite e o coração acelerou. Pensou ter ouvido passos no corredor. Sentiu nas mãos a maciez dos cabelos negros dele. E tudo tão rápido, tão de repente, que as lágrimas vieram banhadas em ódio, em gritos, em desespero e culpa. Repetia aos gritos, pelo apartamento, que o odiava, não o queria ver nunca mais, e mentia de todas as formas para viver aquela noite terrível. Noite de perda, de frio, de silêncio e solidão. Ainda havia o lá fora, o uísque e a paquera. Mas, para quê? Para quê, meu Deus, se tem um homem agora morrendo por mim? E gritava e rasgava as roupas , arrancava os cabelos feito louca.
-Meu homem! Meu deus! Por quê?
E ele não atendia mais o celular. Nem poderia. Estava morto, envolvido em um lençol velho cheio de sangue, na estrada sinuosa e perdida no fim da cidade. Atropelado, sem dó nem piedade e bêbado, sua última palavra em meio aos gritos gerais e buzinas, foi o nome dela, sussurrado, quase inaudível: Victória.

2 comentários:

Alexandra Moraes disse...

Uau!
Sem ar!

Naaman disse...

Caraca! Muito bom!

Vi isso daí escrito, não sei aonde, um dia desses, bem antes de ler o "Desespero"...
"E como sempre sou eu que termino namoro (e namoro não é casamento) não sei como é sofrer com separação. Sempre que termino é porque não gosto mais da pessoa então, de certa forma, não faz diferença."

De qualquer modo, como tenho que criticar...
"um fraco momento de fraqueza interior." Poético? Como sempre, acho que a sonoridade redundou... Consulta o professor e me diz o que ele acha. De repente, faz parte do estilo.