segunda-feira, 13 de junho de 2011

Estrada escura, ventos esparsos

O homem entrou na casa certo de que a encontraria. Ela não estava. Isso o deixava levemente irritado porque não gostava de promessas não-cumpridas.
-Filha da puta. - rangeu, entre dentes, a raiva interna mal contida.
Que faria agora nem Deus adivinharia, no meio daquela noite sem lua e sem graça de inverno seco. Pois então, decidiu entrar no carro e meter com tudo o pé no acelerador e enfiar o ódio maldito pela mulher no primeiro poste da primeira curva.
-Filha da puta. - rangeu, outra vez, entre dentes.
Sabia que ela iria embora... Então por que acreditou, por que confiou nas palavras dela, por que enlouqueceu com a possibilidade de vê-la uma última vez?
-Filho da puta. - e dessa vez, rugiu para si mesmo como um animal ferido, arrependido de ter acreditado na mulher.
E continuou dirigindo a cem, cento e vinte por hora, pouco ligando para as buzinadas esparsas de outros carros que passavam zunindo na estrada escura. Se pudesse iria a quinhentos, um milhão de quilômetros por hora.
Ouviu, no meio da gritaria infernal do ódio na mente meio alcoolizada, o barulho do celular tocando.
-A filha da puta apareceu finalmente? - resolveu parar no acostamento a fim de xingá-la melhor do que faria com o carro em movimento.
Olhou o celular, o visor piscava insistentemente com o nome dela: Victória.
Atendeu ansiosamente. E logo que ouviu a primeira nota da voz quente dela, a raiva se dissipou como névoa ao sol brando da manhã e a narrativa se tornou, até para mim, muito mais agradável que antes. Não...na verdade, não se tornara. Ficará tudo pior daqui pra frente.
-Olá, meu amor. - ela sempre começava as ligações da mesma forma e ele percebeu, naquele momento, que estava puto de saudades e não de raiva.
- Onde você está, minha amada? Onde você está? Eu fui até sua casa e você não estava. Como pôde pensar em fugir assim de mim. Eu amo você. Nunca quis seu mal. Estou sentindo sua falta. Onde você está? Onde você está? Não sente minha falta? Não sente saudades de mim? - todas as frases assim mesmo, mal colocadas, atropelando-se umas às outras, num desespero incomum àquele homem enorme e mal encarado, que agora chorava, pequeno como uma criança à procura da mãe...e chorava alto naquela estrada escura, enquanto a mulher, do outro lado da linha, tentava explicar muito calmamente o ocorrido como quem apresenta um assunto muito complicado a uma pessoa muito burra.
-Ah...meu querido...estou presa num engarrafamento aqui...não sei que horas vou aparecer...só liguei pra dizer isso...tá bom?
E ele, com o coração na mão, quase arrancando os cabelos, não conseguia fazer nada nem respondê-la da forma como ele pensava que ela merecia. Ele pensava em xingá-la, desmerecê-la, chamá-la de puta e canalha e tudo que viesse à mente que ofendesse e humilhasse uma mulher porém, perdê-la seria pior que qualquer tortura ou espera a que fosse submetido. A necessidade de estar com ela já tinha se tornado um vício difícil de largar. Nunca saber onde ela estava de verdade, se estava sozinha de verdade, nunca saber se aquele era mesmo seu nome, se ela era ela mesma ou outra. Tudo era uma insegurança incomum e os números de celulares que mudavam a cada encontro, os endereços diferentes de cidades diferentes, os empregos diferentes...tudo dela e nela mudava de uma noite para outra, o jeito de tudo, de beijar, abraçar, amar, falar. Os cabelos, as roupas, os sotaques, os perfumes, as palavras. Ela era Victória; e era muitas outras milhares de Victórias espalhadas dentro daquela gigantesca sala de estar que compreendia o coração daquela mulher que era tudo...e também era nada. Era sólida na noite escura de amor e era pura névoa sem orvalho na manhã seguinte, quando ele acordava e ela já havia desvanecido no sol morno e preguiçoso da manhã. E tudo ficava frio e vazio sem ela. Como um túmulo. Um céu sem lua. Era uma síndrome de abstinência. Era o fim.
-Então, você... não vai... vir? - perguntou, implorando. As lágrimas pesadíssimas caindo no blusão. Salgadas, entrando nos lábios. O corpo gigante dele era todo lágrimas e pesares e medo. E tremores de pavor de perdê-la. E frio, um frio de morte que lhe transpassava a espinha.
E o suspiro longo dela foi resposta suficiente. Não a veria essa noite. Pelo jeito, não a veria nunca mais.
E ela desligou.

2 comentários:

Alexandra Moraes disse...

Adorei!!

Naaman disse...

Pois é, eu acabei lendo o final da história, antes do começo.