quinta-feira, 2 de junho de 2011

eu, o Homem, Deus e Maria

Falo que choro, mas não consigo mais verter lágrima que seja.
Falo que durmo, mas não durmo.
Não ouso pensar em derramar uma lágrima que seja.
Não ouso carregar os sonhos nas costas.

Ouso, mas não falo tudo que penso.
Só quando não faz mais sentido é que digo.
Peço mil desculpas quando falo baixo e alguém escuta.
Não ouso carregar nada nas costas...não quero.

Falo que não durmo, alguém acredita?
Meu cansaço é uma preguiça acumulada.
Falo que sonho. Como ouso?
Todo mundo sonha. Não sou única em absolutamente nada.
Só fico aqui, parando, pensando, falando de mim.

Tô virando uma pessoa lúcida. Quase normal.
Cheia de obrigações e meias palavras.
Tô virando uma pessoa normal, consciente de que consciência é um tiro no pé.

E hoje eu vi tanta gente hipócrita que chega me doeu.
Doeu ver que três, quatro pessoas estavam ali de coração.

E o Homem me disse que às vezes pensa que Deus não existe.
Concordei mentalmente, mas não falei nada. Só balancei a cabeça como quem não quer nada.
Eu também acho que Deus some ou tira férias ou dorme mais que a cama.
Acho que Deus é um velho barbudo, sentado num trono enorme com um cajado na mão,
dizendo com uma voz de trovão: Isso está certo. Aquilo está errado.
E manda raios, trovões...tipo Zeus, mas não conta pra ele que eu disse isso.

Às vezes, Ele está de bom humor e conversa comigo.
Às vezes tenho medo dEle. Às vezes ele sorri pra mim na forma de uma borboleta.
Mas, eu ainda tenho medo.

Prefiro a Maria. Ela é mulher, vai entender se eu estiver de TPM...coisas assim que só mulher tem.
Só que eu acho que ela devia ler mais, fazer uma faculdade, abrir a mente, poxa.
O mundo não é só lavar roupa. Mas, ela não me ouve...
Só é chata essa submissão dela...

Deus é um velho resmungão que gosta de pessoas que gritam no seu ouvido.

Gosto de Jesus menino. Jesus do poema de Fernando Pessoa...
dá até vontade de fazer um carinho, botar ele no colo, fazer coceguinhas.
Ouvir aquele risinho que só criancinha tem.
Não gosto dele como rei seja lá de qual povo...ele é só uma criança...


Alguém acredita mesmo que Deus quer uma monarquia? E Jesus é só um menininho
que corre por aí catando pedrinhas, subindo em árvores, correndo mundo...

O Espírito Santo é uma pomba mesmo?
Nada. É uma lagarta...que vai virar borboleta um dia.
Enquanto isso, só come folha.

Os profetas antigos são velhos resmungões também.
E ninguém fala nada que nos faça sentir bem...
Todo mundo esqueceu do amor e do perdão. Ficam só falando desse tal fogo do inferno.

E eu acho, sinceramente, que Lúcifer tinha ciúme de Deus.
E era um cara extremamente inseguro.
O mais bonito sem consciência de sua beleza...o mais inseguro em tudo.
Era um coitado com complexo de Édipo, às avessas ou sei lá. Freud explicaria.

Quando Deus vem tomar café comigo, me conta histórias de Noé até o Jó...
gosto de ouvir ele falar...e imitar as vozes dos personagens.
Mas, Deus gosta das pessoas sérias. Não sou séria.
Ele diz que eu vivo no mundo da lua e que eu tenho que ser mais realista. Será?
Mas não adianta discutir....só escutar. Afinal, ele é que é Deus. 
E o que que eu sou perto Dele?
Eu sou um nada vezes nada.

Não tenho porque sorrir. Nem porque chorar. Não tenho porque fazer nada de mim.
Nem de ninguém. Nem ser nada para alguém.
Desde quando somos o que queremos ser? Podemos? Queremos?

Deus falou pra eu parar de escrever, mas eu não paro não. 
Ele que pare de ficar tão alheio a tudo.
Ele ri...dizendo que eu posso me prejudicar.
Não ligo, cara...não ligo mesmo. Tô aqui pra isso.
Se não pra quê me criou? Pra ficar quietinha? Calada? 
Ahh, Deus, não sacaneia, tá?
E Ele só diz: Isso está certo. Aquilo está errado.
Mas, fazer que é bom? Faz nada.
Acho que quem tem que fazer alguma coisa é a gente mesmo. E pronto.

3 comentários:

Fernando Vieira Peixoto Filho disse...

Alberto Caeiro: "O Guardador de Rebanhos"...

Literatura autêntica que nos marca...

Naaman disse...

Muito bom, MEEEEEESMO!!!!!!!

Naaman disse...

"Não me sinto obrigado a acreditar que o mesmo Deus que nos dotou de sentidos, razão e intelecto, pretenda que não os utilizemos." Galileu Galilei