terça-feira, 7 de junho de 2011

Fado

Tudo me sufoca
facilmente
porque não cabe muita coisa dentro de mim.
Sou incompleta
de valores e caminho perdida no mundo de dentro de mim.
Mundo a vácuo.
Perdida no mundo escrevendo sempre as mesmas palavras
de um vocabulário limitado...e cruel.
Repetindo-me até me entender...
até cansar de me ouvir falar de mim mesma
até tudo se resolver da pior forma possível
até eu cair no caos de vez e sem volta

Duvido
de tudo do mundo
e a confiança nos outros
não tenho em mim.
Em nada de mim.

Nada me decifra.
E não sou complexa, profunda, complicada, misteriosa
essas coisas assim ditas bonitinhas nas mulheres
modernas...assim como ficar vermelhinha na hora certa.
Fui, sim, desengonçada na minha própria construção
meio alheia aos caminhões cheios de Beleza, Pureza,
Arte...Saltos altos...coisas assim....sei lá.
Fiz-me mal
porcamente entre pedaços de outros, ecos de vozes mortas
na garganta de seres também perdidos
e ...assim ficou.
E, tudo meu
mesmo novo
está aos cacos...tudo velharia
e uma porcaria de coração de brechó, faltando um botão
numa criatividade de segunda mão,
e, de brinde, ganhei um casaco com mangas entediadas e verdes.
Palavras, catei num ferro-velho abandonado entre páginas molhadas
de lama...caídas de um caminhão de lixo.
E toda vez que olho pra mim, não sou nada.

Sofro, de novo, todo dia.
A todo momento...uma falta de lugar
em todos os lugares insegura e seca. Fria.
Volto ao papel e à caneta como forma de fazer passar a dor:
nem que seja por um segundo de paz...e fecho os olhos.
Cura não existe. Poesia não é doença, caríssimos.
Procuro, desesperadamente, por palavras
que me façam distrair
me
do significado oculto em viver.
Viver dói todo em mim profundamente...no músculo cardíaco
corroído de ácidos
de auroras boreais...de sonhos pequenos passados e imperfeitos!
Viver
magoa profundamente a existência sutil
infantil que inventei para os meus sonhos.
Porém, minha profundidade se alastra como fogo
no capim seco.
E hoje, seus olhos estavam diferentes.
Olharam-me durante longo tempo,
analisando, reconhecendo-me em cada traço
de minha pele macilenta e esquisita.
Ah! Sou velha, amor...sou velha de alma
Velha de poesia...
Uma mulher desbotada, flor do asfalto partido em dois
velha com a pele embolorada. Perfume de livro antigo.
Cara de biblioteca de Alexandria.

Meu tempo é longo
e curto demais todo dia.
E a dor, tigresa faminta,
já marcou meu rosto com suas garras ferinas.

Não posso e você não deve.
Não sabemos o que pode acontecer.
Por isso, o medo, a solidão e o desespero
cantam canções de angústia e fel
aos nossos corações...
Em longas noites de efusivas insônias.

Teus olhos espiam-me, secretamente.
Cheios de conceitos metafísicos
que me explicam coerentemente
para análise mais detalhada de mim.

Desistem na primeira curva do rio da minha inconsciência,
do lancinante acervo mental de caracteres gravados à unha
E o doloroso lirismo marcado à fogo na pele. E ele brilha.

Agora, choro.
Drummond estilhaçou o vidro da janela
que eu via
eu via a vida passar. Sem pena, nem culpa. Indolor alienação desconstrutiva.
Parti-me toda em milhões de pedaços de vidro comum
sem brilho
por todos os lados
espalhado, espatifado, pisado
dentro de ti e dos teus olhos, da tua casa, da tua rua, nas tuas mãos
e das minhas lágrimas de vidro comum
sem brilho. Indolentes.

O ideal não é mentira.
O ideal é o real de dentro de mim.
Não são mentiras, amor, não são mentiras, eu juro:
ele só esqueceu que podia acontecer...
Os ideais só esqueceram de acontecer...
aí ficam aqui, em mim, boiando nas lágrimas
de sal e fel que me compõem

sinfonia de ideais...lírica trágica
de uma mulher meio Medéia
meio Medusa.

meio louca
meio confusa.

e a flor está cheia de náuseas.

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