domingo, 19 de junho de 2011

Rejeição

Bateu-me aquela saudade de ti.
Tudo corre naturalmente enquanto finjo que estou bem
pra não choramingar pelos cantos
pra não me fazer de fraca pra ninguém
pra não chorar na frente dos outros
pra não ser tão infeliz assim.
Tudo transcorre naturalmente enquanto faço mil coisas
pra não lembrar de você
pra não remoer a saudade
pra esquecer o sentimento
pra apagar mais rapidamente o ontem.
Tudo está bem e eu finjo muito mal
A comida está sem gosto, a bebida não anestesia
A noite me engana com teu perfume no vento frio
O silêncio me acua com a nota mais profunda da tua voz
E não há riso nem pranto dentro de mim.
Tudo está bem enquanto me seguro
pra não sentir o gosto das lágrimas salgadas
pra não deixar despedaçar o coração, em meio às minhas passadas largas
de um lado para outro...como um animal numa jaula.
pra não perder a alma no meio da ilusão
pra não querer dormir pra sempre.
Tudo está bem enquanto repito que está bem.
E estou sempre fazendo milhões de coisas
...preenchendo as lacunas que você deixou
...tudo está bem
, mas não me convence.
Não sei o que fazer.
Já está tudo feito...tudo consumado dentro da noite.
Enquanto eu sou toda escuridão...e caminho sozinha...
está tudo consumado, tudo perdido
acabado. Mas mal explicado.
Sem esperanças.
E toda a vida se esvaece num pesadelo...
enquanto acordo e vejo que ainda é noite
Porque não há mais dia...não há mais luz,
só noite profunda, fria, cruel... que grita
e o corvo que grasna...no galho da árvore morta.
Na noite sem neve. Noite de vento.
Sou uma rosa que não abriu...
E essa dor...não há remédio que faça ir embora
nem droga que me alucine
nem poesia que me liberte
nem música sacra que me acalme o coração estraçalhado.
Olhar atormentado...no rosto singelo.
Dor secreta...no coração apertado.
Sorriso...com gosto amargo.
Toque suave...das mãos com pulsos que sangram.
E tudo em mim é dor.
Tudo em mim sempre é dor.
Vivo num mar de escuridão,
jogada de um lado a outro
por sombras frias de dedos longos
e olhos vermelhos.
Mar que me afoga e aflige.
Mar que não sossega nunca.
Mar de dentro de mim.
Mulher sempre assombrada.
Mulher num mar sem fim
sem chão para apoiar os pés,
sem calma para respirar...
a água salgada...agita
e afaga...
queima a garganta
não consigo mais gritar
e o mar me leva ao sabor de sua ressaca....
Viver não é preciso...nem amar.
E o caminho é pavimentado de incertezas.
E a noite já não seca minhas lágrimas.
Travesseiro de lágrimas...cama de prantos...
pesadelos que gritam, demônios querendo sair
de dentro de mim.
A dor da luta...mata.
"Apedreja essa mão que te afaga", mulher!
"Escarra nessa boca que te beija", mulher!
Porque sou sempre a que ama
e que é sempre desprezada.

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