domingo, 26 de junho de 2011

Saudação ao Sol

Braços meus,
primeiramente estendidos ao alto
logo
abrir-se-ão qual enormes asas
a receber sublimes e fracos traços de poente sol...
Guardo, nas palmas das mãos, raios alaranjados...
agonizantes de divinos crepúsculos... secretamente escondidos na impura alma.
Nos olhos, mesclam-se diurnas nuvens, claras, esparsas...estrelas nocturnas, acendendo-se...
devagar.

Águia voa num rasante profundo, proferindo saudações silenciosas...
arranca um pedaço de mim com seu bico aceirado:
qual relíquia ardida de carne e sangue e fel, sacerdotisa prometida...
pedaço sagrado de mulher e luz e mel, o sacrifício perfeito...âmago do feminus

Eleva assim, um rastro de seiva virgem aos Deuses...e todo o céu pintado e rasgado
pincelado à la Van Gogh....rasgado nas entranhas... dilacerado pela Águia viril e formosa...
Universo em seu concerto rachmaninoffiano...eterno e indivisível.

Carruagem apolínea que se afasta... entre sombras espargidas...
Olhos de Deuses se voltam para o poente... difundindo-se em brumas pálidas...
Céu ainda não azul. Sangue molhando nuvens esparsas.
Terra roja... Mãe de pele vermelha...coberta de rosas...

Anjos de asas brancas e frontes púrpuras...
Ó mensageiros dos sacrifícios!
Permiti, permiti que seja criada aliança pura e sublime!
Permiti que eu não duvide um só momento!

Flecha sanguínea, corre o céu!
Apagando num instante qualquer rastro de luz.

E do céu ele vem, sorrindo em Glória
O Deus, o Grande Deus do Sol
e seu sorriso é vermelho.
Sacrifício aceito.

Nesse momento de silêncio e espera
toda a natureza observa
entre folhagens e flores
o encontro do Sol e do Horizonte.

O céu abandona seu azul celestial
tingido do mais forte tom purpurado...
Eu, o sacrifício sublime.

As montanhas gritam as sacras palavras....
e os últimos raios de sol brincam em minha pele....
se despedindo.

Guardo, num último suspiro,
suas cores outonais...brilhantes, diáfanas...
Ouço flautas...encantadores oboés...fluindo, rios de canções mornas...
Uma última brisa suspira no céu amarelo... canta novamente "Outono, ó como é doce o outono",
ante meus olhos fechados para o mundo.

O Sol guardado no brilho perdido de meu olhar.
Sol morto dentro de mim.
Sol convertido em trevas interiores.
So(u)l in black.

O inaudito...
o inaudível...
o invisível...

Água transparente regando meu ser inextinguível...

Intangível Sol, já por trás das montanhas
já escondido no âmago.
Ó Grande Deus de vestes vermelho-douradas!
Volta amanhã e repara as esperanças num novo sacrifício
de morte e vida
de sangue e salvação!

Ó Doce Apolo, volta a iluminar minhas manhãs!

Um comentário:

Fernando Vieira Peixoto Filho disse...

As nossas manhãs...

Bonito texto...