terça-feira, 27 de setembro de 2011

Gênio feminino?

Já me esqueci
do que vim fazer aqui.
Já me esqueci
do que era pra ser.
Já me esqueci
do que ia escrever.
E, na verdade, na verdade,
tenho vergonha desses versos
tenho vergonha dessas palavras
tenho vergonha dos meus amores.

Por que não a gramática, rígida norma e culta bela,
ao invés da poesia, essa louca neurótica,
hoje brincalhona, daqui a pouco agressiva.
Por que viver assim?

Já me esqueci dos meus sonhos
de quando era criança.
Já me esqueci de como cantava
em inglês errado.
Já me esqueci das cartas que escrevia
para meus sinceros primeiros amores.
Ali, tudo era verdade. Eu tinha certeza de tudo.
Hoje, só tenho essas dúvidas. Dívidas eternas com minha alma.
Dívidas com a consciência. E tudo deu errado.

Zarpei do cais com o navio errado.
Comecei a escrever com a caneta de outro.
Penso com as outras cabeças. A minha apodrece num canto.
Leio livros que todos condenam.
E sim, eu já li Paulo Coelho.

Já me esqueci do que eram as Valquírias.
Já me esqueci das músicas que gostava.
Já me esqueci do tempo perdido.
Já me esqueci do passado.
E me alerta o futuro sombrio
Escondido na noite, como um ovo no ninho
de outro passarinho.

Edgar Allan Poe é um gênio.
Goethe também.
E Mozart e Strauss e Beethoven.
Castro Alves e Joaquim Maria Machado de Assis: genialíssimos.
Cruz e Sousa, Carlos Drummond de Andrade: genialidades eternalizadas.

Chamo o mundo da janela do meu quarto
e ninguém escuta. Chamo a poesia da janela do meu peito
e ninguém responde. Não há nada lá.
Nem aqui. Nem sei o que procurar. Há o que procurar,
verdadeiramente escondido:
Onde está meu gênio?



PS: Título copiado do livro da Julia Kristeva.

Um comentário:

Alexandra Moraes disse...

"Já me esqueci dos meus sonhos
de quando era criança.
Já me esqueci de como cantava
em inglês errado.
Já me esqueci das cartas que escrevia
para meus sinceros primeiros amores.
Ali, tudo era verdade. Eu tinha certeza de tudo."

lembrei do "tempo em que festejavam o dia dos meus anos"...

belo. muito belo.