quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Dá-me tua mão

Evito olhar dentro de mim.
Pra escrever, me escondo
e a nuvem de lágrimas é inevitável.
Evito olhar dentro de mim.
Acontece, às vezes, um acidente.
um olhar de relance,
e a nuvem de lágrimas reaparece.
Evito olhar dentro de mim.
Sinto horror à morte.
Evito olhar dentro de mim.
Não vejo deus.
Evito olhar dentro de mim.
Pra escrever, me escondo
falsamente fugindo de mim
evito olhar pra dentro
evito olhar a fundo.

Sou meu próprio cavalo de Tróia.
Minha própria armadilha mascarada.
Minha própria tortura chinesa.
Minha solidão amargurada.
Minha guerra...

Evito olhar no espelho dos meus olhos.
Meu duplo não é amigável,
me sufoca, esfaqueia o coração com palavras vis
e depois se chafurda na lama
que evito olhar.
Evito olhar pra dentro de mim.
meu duplo é triplo, quádruplo
múltiplo de mim
espelhado
em tudo
multiplicado ad infinitum

evito olhar pra dentro de mim
e temo.

Estou amarga, velha, petrificada em mim
com tudo
tudo
me puxando de volta
pra dentro de mim.
E já não posso fechar os olhos
abandonando-me à própria sorte
pois que já não tenho sorte
pois que não tenho caminho, nem norte, nem morte.

O espelho me fulmina.
Os olhares me alucinam: serão sonhos? Serão algemas?
Eu mesma me amarro, eu mesma me corto
em mil vãos pedaços.
Eu mesma de mim em mil gritos petrificados.

Em vão,
evito olhar pra dentro de mim.
Já não sou eu.
E, no mais, só tenho a mim. Só,
há mim.

2 comentários:

Anônimo disse...

Fico Orgulhoso e feliz .. por ter visto algo q vc criou , está muito bom o blog. Voce sempre foi uma pessoa "complexa" e inteligente demais ... se cuida Abraços ^^

Mariana Figueiredo disse...

Obrigada, sr. Anônimo.
Só peço que se identifique na próxima.
Será que vou ter que bloquear comentários anônimos ou vocês anônimos serão legais comigo e colocarão seus nomezinhos?

Forte abraço e...ah! eu não sou "complexa". Eu sou o que sou. E pronto.

Volte sempre, mas devidamente identificado.