quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A carta que não foi entregue

Escrevo-te devotadamente em meio a aurora de um dia fresco...
Escrevo-te em meio aos meus tormentos para que minhas palavras te deem a calma que eu mesma não tenho...
Escrevo-te nesta madrugada anunciadora que acompanha teu sono e minha vigília...
Escrevo-te com o coração em fogo, as mãos em brasas...
Escrevo-te como a alma perdida que mora num corpo puro
que deseja cada pedaço de ti morando em cada célula de mim...
Escrevo-te com as letras de mulher, com a voz feminina da borboleta
que invade teu quarto, tua escuridão, teu casulo de sono...
Escrevo-te com os beijos que o vento te entrega
de uma remetente de invisível existência...
Escrevo-te no silêncio da brisa leve e soturna para que minhas letras te acalmem
o coração atormentado por grandes dúvidas...

Meu amado, que medo tenho em perdê-lo!
E nunca haverá vento que leve para longe de mim certos temores
de abandono e desilusão...
Não haverá lua que embote meu segredo...
Não há palavra que não trema ao ser usada na sua presença...
Tudo se mistura em mim: tudo de amor, tudo de medo...
Medo de perder-te no meio do mundo.

O céu clareia, esperando ansiosamente o Sol...
Eu durmo, esperando sonhar-te aqui comigo...
O céu clareia, espero silenciosamente o novo dia...
Eu acordo, esperando teu amor eterno...
Nuvens esperam as gotas de orvalho desprenderem-se
para molhar minha janela e meu rosto escondido na obscuridade...
Enquanto no escuro, tu ressonas calmamente,
deitado de bruços... abraçado a um travesseiro, sonhas
com um amor infinito que supere todas as barreiras
impostas pelas leis cósmicas
e que não tem brechas... não há saída.

Teu perfume é o cheiro da madrugada
Tua voz é o canto dos pássaros anunciadores do Sol
Teus olhos são as duas primeiras estrelas do dia
porém, dormes...
O espírito do dia nascente ressona em ti
e teu coração bate ao ritmo do Tempo...

O orvalho molhou a pequenina flor do meu cabelo
e bebo na folha verde
as gotas das tuas lágrimas de Sol...
Quanto tempo lamurioso!
Quanto tempo de sofrimento!

Porém, tu ainda não acordaste completamente
ainda não despertaste de alma, corpo e espírito...
Porém, a lua, intrusa, ainda está aqui...
E me ronda, enciumada de tua Beleza...

Olho para os Céus e te espero
Ó Brilhante ser e meu Belo amor!
Onde estás para iluminar
aquela que nunca dorme
senão sob tua luz morna e plácida?

Querido Sol Nascente,
onde se escondem agora
as mãos que me acolheram outrora?

O céu se torna róseo - alaranjado,
pequenos pássaros coloridos cantam
solenes a tua vinda luminosa...
A lua se despede por detrás das montanhas friorentas...
As nuvens enrubescem diante da tua magnificência!
Entretanto, não te vejo...
Ó Sol, meu lindo preguiçoso,
que se espreguiça no teu leito
de flores carmins e amarelas...
Acorda do teu sono e vem cuidar de mim:
a que te canta e enobrece teu brilhar
com as palavras que vão te eternizar!
Acorda do teu sono e vem cuidar do meu
descanso imemorial!

E eu, cansada, triste, sozinha,
já adormeço a sonhar com o toque da tua luz...
E ao despertar, terminarei minha epopéia, já ao teu lado...
Pois do horizonte te aproximas,
sinto te levantares e o abrir leve de tuas pálpebras tão lindas...
dos teus olhos acastanhado - amarelos... brilhantes...
Posso sentir na alma mesmo sem ver-te diretamente
as cores, já luzindo o dia!

Teu nome preenche meu silêncio...
Teu nome é o prenúncio da manhã...
O fulgor do dia! A força da luz que transborda da minha poesia!
A luz do Sol...
Teu nome resgata a majestade do Amor
que eu já desistira de crer...
Teu nome move meus versos
Teu nome me faz mover-me entre escritas e suspiros...
Teu nome... tuas dúvidas... assombram minhas noites não-dormidas...
Porém, teus olhos deslumbram minhas manhãs...
Teu nome acarinha meus sonhos
E desperta meus desejos de tornar eterno esse amor
por meio dessas palavras que não te entrego
também por medo
também por tudo.

E nesta sutileza de perder-me em ti
e do teu nome gritar dentro de mim
já me perco... e não sei o que dizer...
Calo-me e observo o silêncio do mundo
que não espelha minhas emoções...

O sol nasce, silenciando minhas orações
e me admiro
da força do teu olhar
da calma dos teus gestos...
Tua luz me abraça, inebria...
E eu sonho, acordada
se seria possível assistir a espetáculo tão sublime todos os dias
pelo resto da minha vida...
Creio que não, porque, na realidade...
nunca vi o abrir dos teus olhos numa manhã macia de verão.
Nunca vi a luz branda do sol tocar tua alma e pele...
Por isso sonho de olhos abertos
mera tentativa vã de não perder-me em tua presença ausente.
Não posso perder-me em teu amanhecer...
Não posso deixar de te descrever...
Minhas palavras te tornam a Eternidade dos meus versos...

No mistério sagrado do teu amanhecer
abres os olhos, eu me fecho e me calo...
Envergonhada diante de sublime Beleza:
Ó Encanto! Ó Luz!
Meu canto já não é suficiente
E minhas letras já não fazem jus a tua imagem!

E mesmo de olhos fechados, meu coração se acende
e te vê
Iluminado, sorrindo como um bebê-Sol recém-nascido...
Rei Solar! Rei Luz!

Tua princesa insone tenta descrever tua aparição suntuosa
nestes versinhos simples madrugadores...
Enquanto eu olho e tu dormes
Descansas no meu coração
Dormes na natureza
Tua beleza é a da floresta inabitada por gente
E teu corpo repousa lindamente
na beira de um riacho...
E eu observo e me apaixono....
É impossível esquecer tamanha imagem...
Teu corpo ali sob o ardor do Tempo,
sob o calor dos meus olhares...
Tua mão esquerda desliza sobre a água doce,
calma e límpida...
Pequenas gotas do orvalho nascente
descem das folhas e tocam, de leve, tua pele...
Meu Apolo brilhante!
Rei de toda Luz!
Você brinca com meus desejos...
Desvenda meus segredos...
Inclusive o que te confesso agora
perdida e aos tropeçados sussurros:
Amo-te.

4 comentários:

Naaman disse...

....................... no words...........

Fernando Vieira Peixoto Filho disse...

Meu Deus! Que bonito...

Anônimo disse...

Estupefato diante de tais palavras!
Minha única, preferida, eterna princesa...
PS: Rei Sol

Naaman disse...

Encantadora, não é? E eu só consigo vê-la como a minha garotinha que jogava o Jogo da Memória", comigo...