segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Anéis

Quais serão os deuses que me levam a olhar para dentro do mundo?
Nada de coração ou sensibilidade.
Só olhando pro abismo e sem escolher palavras,
observo o abismo cair sobre mim
e sonho.

As flores murcham, tédio perene as consome
o fogo espiritual não é belo em suas chamas cármicas.
Nada deve fazer sentido.
E se, um dia, tudo acabar como eu espero
eu não tenho mais caminho
eu não tenho mais amanhecer que me aguarde
fim da linha, pensamento em alfa.

Não há conclusões nem mirabolantes certezas.
O fogo consumirá tudo.
As filosofias que estudei terão que ser esquecidas
cobertas por sete véus mágicos
de loucura e fobia social
E toda minha vida só terá quatro paredes
a poesia desaparecerá
e dará lugar à neurose
ao transtorno de abrir e trancar portas mil vezes
e nada resolverá o mistério dos fantasmas.

Secarei como seca o sol ao girassol da montanha mais alta
Perder-me-ei como perde-se o extremo fim da vida
Tudo que tenho de mim é ilusão
e um bilhete de avião.

Saudades sim, no dia de hoje
e amanhã, eu já esqueci.
Os erros todos queimaram também
no furor do dínamo do esquecimento.
Dormentes fadas caem levemente
enquanto durmo e sonho com florestas.
Paraísos só existem para caçadores
as índias correm
as aves gorjeiam em qualquer lugar
e o passado escorre, vermelho... pelos livros.

Escruciante foi a dor de outrora
que me rasga em fragmentos oníricos
deuses me jogavam de um lado a outro
perdida num caos de guerras e venenosas serpentes...
Lilith, ó deusa amarga! Lilith, ó deusa da carne crua!
Diz a verdade, grita a verdade nua!

Meu cérebro é uma multidão de metáforas ardentes
de infernos silenciosos
de figuras estranhas caminhando para lugar algum
Tudo que tenho, nada é meu
E se eu fosse embora, o que ficaria?

Nunca te amei. E isso é para tantas pessoas.
O mundo não é meu, nem de ninguém.
O mundo é do próprio mundo.
E aqui só reina o Caos.

Fúria divina ou demoníaca...
Não importa mais de onde ela reina.
Nem de onde ela vem e cairia.
Nem de onde ela viria, se não fosse
a última salvação ou legítima defesa.

Não! E diante da Morte, o que você faria?
O medo que maltrata é o mesmo que não te deixa sucumbir.

Ir embora? Há algum caminho de volta?
Há algo aberto a essa hora?
Há alguém a sua espera?

E isso devia ser um bloco de escritos.
Já não é mais poesia.
Já não há mais eu.
Deixa apenas que eu me cale
deixa que eu me sonhe no escuro
e tudo que surja depois seja desespero
e fúria
e uma dormente sede.

Corte sua língua ou guarde meu segredo.

2 comentários:

Naaman disse...

Você deve conhecer a música "Arrastão" do Edu Lobo e letra do Vinicius. Pois bem, quando o Vinicius mostrou a letra por Edu, ele estranhou: "Pô, Vinicius, o arrastão é puxado pelos pescadores mar afora, para a a praia, e não 'entrando no mar sem fim'..." E o Vinicius: "Meu filho, é a tal da 'licença poética'".

Aí, entra o seu ácido crítico literário: "...observo o abismo cair sobre mim...". Abismo caindo? Tá parecendo o horroroso "risco de morte"!!!!
Professor, ô Professor, me ajuda. Pode essa licença poética?

Agora, "...Perderei-me...", tá brabo, num tá não, Poetinha?!

Mariana Figueiredo disse...

Ah, pai... É minha licença poética. Nem vem com essa não. rs
Sobre a semântica não discuto.

Porém, o "perderei-me" realmente está errado, mas também tenho justificativa. Já viu quantas vezes por dia usamos a mesóclise? NENHUMAzinha sequer.
Pois é... às vezes, eu tenho o direito de esquecer dela também.

Tá, tá... já vou corrigir isso...

Beijo, beijo

Mari