sábado, 28 de junho de 2014

ask me

estranha companhia da madrugada
você se levantou umas mil vezes
e saiu e voltou e saiu e voltou
transpareceu dentro de mim
passando por fora
entrelaçando-se aos outros como por sete véus:
lua passando por dentre as nuvens
sem sons, sem perguntas, sem olhos

a ponta do meu frio dedo
no teu couro cabeludo
foi o ponto alto da noite trágica:
eu era uma aranha tecendo a teia
lisergicamente entretida nas cores
de dentro do profundo cristal do teu olho
oceano azul

o quão tarde é agora?
um surdo desassossego estilhaçado
entre meus nervos
o cigarro tremendo entre os dedos
e não olhei nos olhos
não me lembro de ter passado por ontem
e nem por aquele dia
nem por aquelas ruas todas cobertas de gentes
tudo é sonho, delírio e desespero
na verdade
não sei.

em busca da imperfeição dos tempos
nada tem momento certo dentro do caos desses trapos
e eu mesma não quero ter nada certo nem de mim
nem errado do mundo do loado transpassado
quero longe disso tudo, seu mundo azul
your blueberry nights.
Mas ninguém entendeu porque as palavras são limitadas.

Eu não estou aqui, nem aqui falo.
Escrever é destruir. E nem sempre aqui
é alguma coisa de algum lugar de alguém
mas se teu perfume aqui se encontra
não fui eu quem colocou:
a lua se desmancha sobre as catedrais,
as flores morrem suspeitas de assassinatos,
o tédio fuma seu huka na lapa
os zumbis engolem cérebros como o meu.
A poesia, o mundo, tudo platônico
É grande, sem dúvida. E belo e elástico
e colorido mesmo quando preto-e-branco.
Uma bolha de sabão em pixels
é o poema, a inspiração, a noite, a lua
seus olhos
(quando eu olhei não estavam mirados em mim).

as falas automáticas que exalo
em mentiras sistemáticas e perguntas irritantes:
manias, transtornos, colocações pronominais, trechos de músicas, termos técnicos
contação de garrafas à procura de buzinas, andarilhos em fuga do mundo insistente
as dezenas de bandeiras que nos subvertem o estômago, vulcões antagônicos nas praças
deus é paz enquanto bebo e
desacontecimentos baratos que me conduzem
ao erro.
Não sei ficar calada, simples caeiranamente
Não sou pastorinha de ovelhas
sou uma caninana insistente.
A profusão de ideias que me exterminam aos poucos
não somem na profusão das buzinas insistentes
o álcool não definha meu espírito
nem liberta-o dos meus desesperos
e, quando quero, bebo sozinha
o líquido de fel que escorre como lágrima cinza
do meu coração azul.

a noite se esconde no sol do meu olho esquerdo
iluminado fracamente pela lua do olho direito
Faraó, vais compreender as loucuras da viagem
porque o medo é o motor do amor
e da vida
entre as pirâmides as estrelas conversavam sobre a vida dos poetas e dos insistentes poderes mediúnicos das almas dos artistas
elas contavam as tristes histórias dos desesperançados
os suicidas impossíveis
como fênixes renasciam como humanos morriam
balas de prata dos olhos amados
e detalhes indistinguíveis dos amores antigos e verdadeiros
rosas e cruzes nos braços dos amantes
e cartas de tarô por todos os estreitos padrões da vida dos girassóis
os acertos e concertos das águas dos mares desse mundo e do próximo

eu vi mergulhar a sereia abandonada
ferida em cheio pela flecha dourada do Mundo
e nada pude fazer porque não sei nadar
onde está a vênus com a concha mágica
contando histórias sobre as areias iniciáticas
e eu sou um lobo solitário correndo por uma floresta estranha sem lua
nem flores que só abrem à noite.
detalhes à parte, o amor sumiu dentro da casca da árvore do céu
e a noite trouxe os meus segredos de dentro dos barulhos.
mal pude ouvir sua voz dentro de mim
o eco que fazia me surpreendia em cores tão vívidas
que me enfiavam punhais nas vísceras
escruciante o sofrimento tripalium
sacra seara sacra seara sacra seara
escruciante dor, lamento insolúvel
milhares e milhares de palavras erradas:
a fala não é a escrita.
e eu não sou eu.
onde fui parar?

mergulhei no universo dos desesperos e me perdi
dei poder a quem não tinha
e aprendi a errar melhor da outra vez
que não terei.
a vida só dá uma chance
me disse
quando dá duas é porque
na outra
a emenda sai pior do que o soneto.

um beijo
na carta azul que sai
duas torres fulminadas
o sono, o céu, o mar
impossíveis de tocar.

grilhões partidos em raro mar
poética conversa sobre poesia
conceitos de história a teus pés
caim, zaratustra, salomé
coroa de louros...
jesus e Lady Macbeth de mãos dadas
ética em suas negações
informações do processo
castelo em fúria:
dragões.

duas horas por noite
duas horas às quais me permito ser devorada
por Morfeu, fremente, divino, intrincados enigmas
me propõe
nos pesadelos ordinários
ao que me aparece coberto de púrpura escarlate
prefiro morrer:

a queda do céu
encontrar a terra aberta
fundida em si mesma
asas queimadas de ácido
o desprezo de deus
perdão invisível
insensibilidades adquiridas em guerra
a queda do céu
paraíso perdido
árvores sussurrando verdades inquisidoras
questionamentos. dúvidas. violências.
eva amordaçada. lilith desalmada. ana no chão
despedaçada.

quero esgotar a escrita
sair de mim
levantar da cadeira e sumir
quero esgotar a dor
levantar do meu corpo e sair
quero esgotar o coração
parar de bater e transformar em carne
sair de mim e me abandonar:
o fel da vida
brilhando, ardente, no peito.

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