sexta-feira, 27 de junho de 2014

dia branco

Escrevo para não chorar. 
A maquiagem borrada se derrama no lugar da lágrima. 
Álvaro, te abandonei no verso: quis me largar do teu coração. 
No pensamento, eu fugi
antitética e breve:
chama tremeluzente dos desesperos.
Criei policísticos amores que crescessem como cânceres
que me devorassem, me dilacerassem:
parasitas do meu coração, se alimentariam do amor que nutri. 
Quantos anos, Álvaro, quantos anos! 
Como eu poderia suportar os arroubos de um amor assim? 
Sou jovem, sou flor. Tenho espinho, mas tenho pétala suave que clama. 
Eu sofria e estava cansada.
Mas agora, Álvaro, com tudo de mim aos pedaços, nada me resta senão o silêncio incauto da lágrima não-derramada. E um pedido, se é que posso pedir algo:
Volta.
Mesmo que tudo seja ilusão e lágrima.

Somos, meu amor, seres de ilusão e lágrima.

"Eu tenho medo e medo está por fora
O medo anda por dentro do teu coração
Eu tenho medo de que chegue a hora
Em que eu precise entrar no avião

Eu tenho medo de abrir a porta
Que dá pro sertão da minha solidão
Apertar o botão: cidade morta
Placa torta indicando a contramão
Faca de ponta e meu punhal que corta
E o fantasma escondido no porão

Medo, medo. medo, medo, medo, medo"

Eu sei das tuas sensibilidades
tortas
cortam como punhal na carne
E você sangra, Álvaro....
Você sangra sem quem lhe ampare o sofrer.


És meu maior segredo
o mais carinhoso:
o sorriso.


    O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
    Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
    (O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
    Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
    Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
    Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.


    Álvaro de Campos, 15-1-1928


porque és o avesso do avesso do avesso do avesso

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