segunda-feira, 30 de junho de 2014

Heresias

folha branca que me assombra
sombra amarela nos teus olhos
mensagem amarga de verniz seco nas estátuas
das igrejas que não entro
pra não perturbar os mortos
repete meu nome, repete
feito oração pra santo
mas eu não volto, não quero voltar
o dia de ontem enterrado na hóstia do passado, lembra?
o padre levantava a batina tristemente
não acreditava em deus, só na mão direita consagrada.
não posso contar os segredos dos papas:
as trezentas garrafas escondidas na sacristia.
Vinho nada.  Era o sangue transparente do capeta: Vodka!

Mando mensagens estranhas pelo vento
sou uma esquisita sem coração
uma esquina lúcida na solidão
usando as palavras pra iludir a vivência sem lógica nessa terrinha
um dia alguém fica preso na isca.
oi, tudo bem, como vai
só sei esses três cumprimentos fatais
depois o silêncio é sobressalente à falta de cerveja ou cigarro ou as duas coisas
e fico quieta por respeito aos seus ouvidos. Minha falta de talento: heresias cúmplices.
Depois vou ao banheiro e volto cheia de novidades:
beijei gente no meio do caminho
no meio do caminho beijei gente, entretive público, subi no palco
acendi minhas luzes e fiz show.
Depois volto, silenciosa como uma santa
mas é só da bebida quente.
O corpo gelado sem casaco
precisa de um alguma coisa que o esquente.
Agora vem cá, dá aquele abraço
não esse. O outro abraço amigável, fingindo que somos dois felizes proprietários desses corpos estranhos
com bocas estranhas a se encontrarem no meio dessas luzes estroboscópicas.
Devíamos ter ido numa praia
lua é sempre mais romântica, não?
mas eu não sou piedosa
então não faz diferença se tô na montanha dos teus tormentos.
Ou na praia das tuas lágrimas
caídas no travesseiro branco
areia fina do arpoador.

mentira. tudo mentira.
um vestido preto esconde minhas cicatrizes de batalha
os brincos brilham mais do que meus olhos embaçados
as pernas demarcam território perigoso embaixo da mesa
disputando território com as pedras dos pensamentos alheios
e minha loucura flutua, amante dos sons da noite.

acabei de assistir o filme da minha vida
alguém que já assistiu podia me explicar o final? não entendi aquela cena
descartada. Nem aquela outra inteiramente cortada. Nem aquela fala
que eu não disse. Só pensei. O que eu
pensei ainda conta pra comédia?
isolaram os ambientes de nós dois
e eu estava sozinha na cena, lembra?
você me disse: Hey, garota
e eu nem escutei.

Ao avesso, tudo faz sentido, não é? Você sabe de algo
que eu não sei
e por quê? Como descobriu?
Eu me distraio no brilhos dos seus olhos escondidos
duas pérolas trancadas em conchas.
E eu aqui, trancada nada. Cheia de cerimônias distraídas.
Não fujo do mar... Ele me alcança até em sonho
as ondas mergulham na minha cama
sobem pelas minhas pernas
e cobrem meu quadril
dizendo, enquanto a porta está mal trancada:
Você sabe que isso aqui é sem saída né?
Você sabe que isso é um ippon?
Você sabe que está presa?
Sabe que já era?
Mas mal batem na porta e as roupas somem
os óculos aparecem
as tardes correm
a noite volta
 e estou caçando meus brincos.
Sem paz.

Quando o vento entrou levou toda minha alma
lá fora esperando o último trago do teu cigarro
 eu queria ser romântica
 não
eu queria saber agir em qualquer situação
eu queria saber
sabe?

mas a chance é primeira e as outras são estranhas
...

bota aquela música lá, bota
mas só restou o silêncio da música que você não pediu
mas tocou
e todos cantaram, alegres.
menos meu coração.
não adivinho nada do teu.

quis desvencilhar meu olhar preso
nas tuas mãos.
não consegui.

onde estão as mensagens que eu deveria
ler?
perdidas pra sempre no mar:
nunca soube nadar.

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