quarta-feira, 9 de julho de 2014

A torre

Aos atropelos,
tropeço na invenção do próprio talento
e o dom roubado me parece volúvel
porque foge, porque me abandona, porque é volátil
já sei o segredo: não é meu.
Todo fruto de assalto é absurdo.

Aos sobressaltos,
desisto de mim mesma aos pedaços
e me fragmento nas vestes escancaradas
do olho aberto do Mundo
na candeia acesa na janela
esperança marcada à bala
já sei o segredo do fruto proibido:
dom roubado, fortuito assalto
gasto amor ao robusto cálice.
Todo amor é absurdo.

Frígida insensata, grito
às paredes. Berro no abismo sem eco,
acorrentada às outras decisões já
desistidas de fato. Seus olhos não saem
das minhas vistas de loucura. Grito e
empurro a pedra, mais uma vez
até chegar ao céu.
Toda pedra que me rasga a pele
é absurda.

A vida é curta
e grossa.
Por isso, me livrei dela na primeira
oportunidade.
Agora, aqui, ontem, amanhã:
nada de tempos
nem auroras.
Mas tudo tem um preço
quando se deseja ardentemente
a liberdade.

Não me lamento.
Li os desejos do Destino
nada que fosse novidade...
Não me angustio.
Li os desígnios dos deuses
li as mensagens das estrelas brancas
li os sinais nas areias
li as mãos das ciganas...
Não me atordoo.
Não faz sentido chorar.

Tudo está traçado e somos cegos.
A vida é curta
e escrita grosseiramente
por linhas tortas:
a mão de Deus treme com a caneta vermelha
do sangue dos santos.

As lágrimas dos santos não nos redimirão.
Os olhos dos anjos perderam o brilho.
A voz de deus ecoou:
tapei os ouvidos.

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