segunda-feira, 14 de julho de 2014

Colher vermelha de plástico

Beijo o talento esperando pelo tratamento de choque.

depois, corro pelo risco do fósforo
apagando-me em cinzas de vulcão.

atrás das paredes, um cadáver encena
à morte, o comando das suas vísceras
expatriados das órbitas, os olhos
prosseguem a vigília inócua.

o assassino enganado pranteia
o sono perdido.

quizila desperta sob o tacho no fogaréu das almas:
as árvores sintomáticas da perversão,
pássaros sorumbáticos, bichos calados, homens mortos
chão de terra batida molhado de lágrima
deserto em esgrima com o sol.

a autora desperta com um cartão de passagem
numerado e carimbado e confirmado,
tem carteira de identidade, comprovante de pessoa
física, título de eleitor, carta de
aceite, histórico escolar,
curriculum lattes, e-mail, tele
fone, endereço, número de roupa, eti
queta.

mas não tem certeza se existe mesmo:
se desespera entre sonho e despertar
porque não sabe quando sonha se está desperta
porque não sabe se desperta está sonhando
não sabe andar sem flutuar
flutuar sem esbarrar
esbarrar sem cair
na própria miséria.

os pneus dos ônibus escrevem poemas que não serão lidos
esmagados sobre o asfalto
morrem antes de serem cantados
pelas freadas bruscas.

(nicola tesla.
stephen hawking.
albert einstein.
marie curie.
ninguém sabe,
ninguém viu
o despertar das estrelas
em abril.)

a moça que tira as cópias é poeta
o motorista de ônibus dorme até tarde
o carteiro escreve cartas de amor
o florista adorna a loja de flores mas tem alergia
espirra pólen atrás do vidro, mas sempre me recebe com sorrisos
ele também é poeta.
...
os banqueiros querem mais dinheiro invisível
mas gastável
os burocratas querem mais dinheiro invisível
mas explorável

os seres humanos desejam o dinheiro invisível.

as moedas são sementinhas burocráticas
tilintando aos sorrisinhos
nas bolsinhas das crianças.
...
eu não sei se tenho que querer alguma coisa
a dor é o que faz a gente sentir que está vivo?
ou é apenas a sensação da anestesia
que faz
eu acordar sorrindo
dormir comendo
assistir jogando
viver morrendo?

quero um celular
quero uma câmera
quero um carro
quero uma casa
quero quarenta milhões de dinheiros
quero ser humilde, manso, são e paciente
quero ser piedoso, santo, beato e papa
quero comprar o mundo à prestação
quero pagar sem juros nem alíquotas especiais
quero um carnê
quero desconto
...
sou uma colher de plástico quebrada
vagabundeando
...
sei que tem algo maior que tudo
mas, às vezes
só quero escrever e mais nada.

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