quinta-feira, 10 de julho de 2014

Simão e Janaína

Afundei os pés na areia
puxei as redes vazias de peixe
o barco era como se fosse de papel:
guardei minha tristeza
com os remos e as velas,
a viola botei no ombro
e assobiei uma lamúria
pra voltar pra casa...

quando a praia ficou escura
e o manto das estrelas se espalhou
do céu pro mar inteiro,
escutei aquele canto profundo
que não é de gente
que não é de homem:

"te prendo na beira do mar
com cordas roubadas do naufrágio.
te amarro nas pedras
com meus cabelos azuis.
as marés vem e vão
seu corpo vai e vem
de dentro do meu."

assobiei uma cantiga velha
de mamãe (que deus a tenha!)
pra que jeová me valha
neste dilema (que iavé me livre!):

"Com as cordas romanas
te deixo preso no meu barco
amarrada ao mastro principal
ou pra ser comida de deus
ou pra ser alimento do Tempo"

Cantiga dos tempos antigos
que só salva quem conhece
os segredos do mar. Sussurrei,
dedilhando de leve a velha viola.

Ela veio mesmo assim:
aquele andar de cigana
dissimulando as pernas morenas...
aqueles cabelos de sereia
se movendo sem ventania...
aqueles olhos de leoa
me devorando as entranhas...
aquelas mãos de fada
me fazendo de bolinha....

me cobriu, me abençoou:
seus beijos me afogaram.
eu, pescador de homens?
Não deu tempo, nazareno:
beijado fui pelo amor eterno
de Janaína, rainha do mar
e deusa... Deusa dos meus lamentos.

E lá se vai o Jeová irascível
levado pelas doces ondas
dos cabelos de Janaína.

Cá estou eu, fisgado e entregue
feito peixe num anzol: de boca aberta
e coração arrebentado.

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