terça-feira, 19 de agosto de 2014

Cinzas de agosto

Contemplativo fel:
lágrimas amargas do céu
a chuva inundando minha sala de estar.
Corpo insosso ao alho e óleo
mas mergulhado em suores
temperado à la pesadelo.
A janela da tua casa tem uma magia
na qual eu me debruçaria
do mesmo jeito que deslizo
no mar cinzento dos teus olhos.
Durmo com dois travesseiros:
enquanto um tem insônia
e sufoca nos meus cabelos
o outro dorme profundamente
apertado ao meu seio.
Não sei porque meu coração se escondeu
no forte de Copacabana:
não temos guerra, nenhum desespero
conflitos armados ou guerra civil.
Não sei porque meu coração fica batendo
nas pedras, desliza pelo mar e é jogado
violentamente na areia.
Não sei porque meu coração desistiu de nadar.
Sei que morreu na praia como uma baleia encalhada:
prestes a explodir.
Não respiro mais os ares de casa:
o furor da maresia se abateu sobre mim feito um raio
e eu não vejo nada além do mar dentro de mim.
Em meio à tanta ressaca minha de amor, solidão, perdas...
O mar responde com aquelas ondas doces
notas suaves, noites fluidas, uma lua minguante me acalma.
Não sei porque meu coração se escondeu
no forte de Copacabana, posto seis.
Lembrei do sol indo embora no Arpoador:
imagem que nunca vi, mas sei que existe todo dia.
Não sei porque meu coração escondeu-se num forte
e não quis morar nas montanhas quentes de sol.
E ser aplaudido por estranhos
até depois da eternidade.

eu, calma
tranquilamente em guerra
transponho teus umbrais.
meus olhos, translúcidos
emergem de lentes aquosas
desaguam nas tuas duas jabuticabas
apocalípticas.
minhas letras despertam na madrugada
enquanto você está deitado no meu pensamento
e, devagar, somem pela janela da tua sala de estar.
A noite cansada trouxe uma chuva de fel:
águas amargas contemplando o inverno.
Prendi meu coração no forte de Copacabana.

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