segunda-feira, 11 de agosto de 2014

No abraço do mar

Tinha guardado um convite, no abraço do mar,
não pra mim
pra qualquer pessoa que soubesse ouvir:
o convite era pro fim do mundo
aquele que se esconde atrás da pedra do arpoador
aquele que se entranhou na rua da nossa senhora
aquele sentado ao lado do drummmond
o fim do mundo inevitável
inexplicável, inexplicado.

A deusa bonita que todos nós tememos
que é educada, mansa, mas caprichosa
cheia de lições e ensinamentos estranhos,
a deusa dançante pelos bairros lá de baixo
a deusa calada que ri:
a morte.

O abraço era um convite à contemplação sorrateira do movimento
dos planetas à sombra esquisita dos bairros nobres.
A morte dançava com os pés no asfalto e não ligava
pros ônibus absurdos, as mulheres carregando crianças recém-sobreviventes.

Ele me viu. E eu ouvi o convite.
O coração disparava como num último movimento em xeque
mate como a rainha morta
definhou-se o rei.

Ele já corria há mais tempo
entendendo a fuga, o som, a fúria dos corcéis
que somos nós.
Eu corro agora tentando alcançar uma obra prima do passado
-esforço inútil-
mas gargalho do meu reflexo no espelho
e Narciso, eu sei, nós sabemos
seria mais feliz se não houvesse um espelho
e não se afogaria dentro de si mesmo:
o que mata é o medo
o que afoga é o medo.

O que me entalha o peito é assinatura do outro
o próximo a quem tenho que amar e não suporto
o próximo que tenho que perdoar e só desprezo.

Queria uma palavra nova que coubesse em meu peito
e fechasse todas as conexões perdidas.

Minha avó tinha olhos grandes postos em mim
via uma luz que não conseguia distinguir
não sabia que brilhava pra si própria
como lua branca falava comigo:
minha avó era a super lua e ninguém sabia.
hoje ela é semente na terra esperando pra nascer.
E ela me dizia que o amor
o amor é o fim do mundo
e o abraço de fim do mundo
era a morte convidando pra dançar
no asfalto quente ou na beira da rua branda
da madrugada.
E ela ainda dizia:
Eu mesma nunca fiz poesia, nem mesmo
uma cantata.

Mal sabia ela
que a poesia morava nela
e que eu só serviria
de memória.

Não tenho medo das figuras históricas carregando em seus botões conversas próprias
com a morte que não as ouve e não vem buscar seus bustos
nos palácios e nos museus
e nas igrejas gigantescas
não faço questão de saber.

quero o abraço de vida e morte:
o amor
era um conjunto de dodecafônicos
era um monte de orquestras sem trombones de garganta humana
era uma junção de beckett com nelson rodrigues

eram vladimir e estragon
indo embora
no final do segundo ato.

abraço de vida e morte...

e será que a vida mesmo
já não é um abraço errado
torta uma avenida de via única
e ninguém te pergunta
"tem certeza?" antes de caminhar
a vida é relativamente diferente
a vida é muito pior.

Mas eu confio nessa via de mão única que
é a estrada do peito.
Depois falo do beijo, depois falo do resto.
Depois falo dos desacontecimentos, dos presentes e das palavras
o texto único e ausente em si mesmo
mas de um cismado estranho sentado à minha frente
no mundo, no absurdo e na vida em si mesma
um espírito, um ser, um vagabundo
um alguma-coisa-estranha-no-ar
...
não sei se devia contar
pode ser que seja o segredo da vida e da morte
as duas ondas imagéticas que me compões a cabeça
e o corpo...
mas não são:
é fogo e é água, é terra e é vento.
Eu sou o bem e o mal. E você, o infinito.
Não pode ser um ser humano isso tudo.
...
Guardemos os segredos.
Guardemos as palavras.
Suspirando no infinito
estamos o bem, o mal
o único, o estrangeiro:
em náuseas absurdas.
...
Já são as oito horas que prometi. Tenho pressa.
Vou me debruçar na janela dos seus olhos
e gritar nomes desconhecidos pelas gentes.

Amanhã, quem sabe,
eu me debruce nas ondas do mar e não volte mais:
toda afogada no reflexo
espelho dos meus próprios olhos.

Farei parte dos encantos do mar:
escondida numa concha, serei pérola
escondida nas ondas, serei canção
escondida num coral, uma água-viva
escondida dentro da barriga da baleia, ainda serei mulher
(sempre estranha aos olhos de deus)
mas, abençoada, farei moradia do manto imenso
da rainha das águas, a nossa senhora mãe de todos.

E não estarei mais sozinha,
e, qualquer um, qualquer um mesmo
saberá onde me encontrar.
Copacabana posto 6 sentada nas pedras sob o forte
uma sereia branco-perolada sorrindo
com uma cauda cor de laranja acobreada
cabelos azuis cor de céu
também sereia, meu amor
fruto da deusa, princesa dos mares
deusa dos mil nomes.
Serei água e peixe. Serei segredo como agora sou.
Mas encantada perceberei o mundo
não com esses olhos de marujo perdido
Mas com o coração das pedras
minhas lágrimas serão apenas
mais ondas e carícias para as estrelas-do-mar.




Nenhum comentário: