segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Reprovada

Acordei com a manhã me afogando em chinês:
análises sintáticas me deixam insegura
com suas nomenclaturas infinitas, infalíveis
às paralelas estructuras cabíveis de não-sei-o-quê.
Fiquei presa, Álvaro, aos teus dialetos
de delírios gramaticalmente opostos
aos meus problemas milimetricamente
neuróticos.
Condeno-me às próclises, ênclises, qualquer dessas
coisas
desde que te agradem o espírito
satisfazendo teus desejos normativos.
Shibari incólume:
meu corpo em coordenadas assindéticas
mil laços de fitas transpassados
queridas feridas acordadas
meus calcanhares aquilianos subordinados
objetivamente indiretos
procurando teus caminhos
de outrora.
Corto todo artigo indefinido
da bagagem sentimental:
transcrevo meus absurdos
nas bordas das gramáticas infinitas.
Meta-me em seus delírios
ultrapassando substantivos nucleares.
Depreenda os sentidos das minhas pernas
cruzadas à direita:
metalinguística bem no meio
certeira exata analisando particularidades
numa relação intra sintagmática.

eu pequena unidade de estudo sintático
me perco nos teus períodos enclausurado
esse teu todo proposicional
que me envolve lentamente
enquanto "uivam chacais"
adormeço "imensa... imensamente".

sei, de verdade, que não sou
nem uma função à parte
sou reles:
um desprezado vocativo
desgastado, exaurido... Extenuado.

Você, núcleo predestinado.
Ó, singular sujeito implícito
dos meus verbos!
Perdoai
indecisões semânticaóticas
tristezas linguísticas
saudades histriônicas
neuroses psiquiátricas
minhas desconcordânicas
minhas irregências.
Quero ser um período simples
mas estou perdida.
Na gramática não posso chorar...
nem no teu ombro suave, brando
cansado.
Nem posso gritar:
Psicanalise-me!
Analise meus discursos!
Quebre meu ego, cubra meu corpo
com tuas mãos antigas cheias de éticas
ultrapassadas.
Não me permito questionar:
seu superego gritava enfurecido nas noites
insones? amargurado ou culpado?
Inocente, eu te absolvo por amor
às docilidades compassivas
inexistentes.
Desejo-te meu.
Cada pedaço sagrado do teu corpo
esquartejado em versos pobretões
escalafobeticamente construídos
desesperadamente gritados
aos, nada amigáveis, animais salivantes
desejosos de teu cadáver exposto.
Pobres urubus!

você sabia que eu sonhava contigo
noite e dia?
destruí-me em amarguras alcoolizadas
esquecendo meu corpo em outras mãos cheias de poéticas
perturbadoras esquisitices
pensava eu em você
noite e dia.
mais à noite do que de madrugada
enquanto você dormia.
de dia, você encontrava com a claridade a razão
interrompendo meus sonhos
com algemas e foices e dedos na cara.
tristemente solitário garoto pobre
compaixão solene, mas agora sou livre
eu
livre pra dizer seu nome?

Ainda não
mas nem importa.
Meus versos melhores que os dela
frustrada poeta amargurada abandonada
flechada à facadas nas costas
coitada
chorei por ela ontem
mas hoje sorrio por ti, Álvaro

pois
hoje és menos impossível do que ontem
hoje és menos impossível do que ontem
hoje tu és menos impossível do que ontem

pois
volto a sonhar, Álvaro.
volto a desejar
que sejamos transfrásticos.

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