segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Vértice

Meus pés são sujos porque não tenho medo da lama. A sujeira visível me preserva da hipócrita limpeza que costumam exibir como coroas de perfeição: me fazem enjoar até o absurdo. E meu vômito não emporcalha o chão, é, antes, o desejo da limpeza verdadeira, interna e absoluta. A sujeira do chão é sincera, se esconde sob os móveis, mas pousa suavemente sobre meus lençóis e posso vê-la brilhar no sol morno. Vomito os bebês que nunca terei. Quero ser seca, uma árvore sem frutos, um corpo áspero com uma pele aos pedaços. Exangue! Ninguém para herdar meu desespero, ninguém para falarem de mim quando morrer. Morrerei dentro de mim e apagarei aos poucos as luzes das retinas guardando como última imagem apenas o teto mofado do quarto. A sujeira me impregna os pés, a poeira se alojando na garganta traz a tosse. Ao menos não maquio a morte próxima com aerossóis de cânceres nem flores que se levam aos cemitérios. Os mortos não fazem questão de flores, os mortos não fazem questão de nada!

É pouco o que me faz sentir a vida: a fome é, sobretudo, o que me movimenta. Sou um animal provido de dentes e unhas devorando o que vier pelo caminho. Mastigo os livros, engulo as ideias, digerindo como um trator os sentimentos alheios. Não sinto nada meu gestando em mim que não seja fome. No meio disso tudo, finjo saber onde estou e quem sou eu, o que faço aqui, escrevo, ando, durmo e acordo. Dentro de um copo vejo o sol. A fumaça daninha que invade o quarto asfixia o desejo. Ouço o arrastar do tempo carregado de amarguras. Os sorrisos queimam sob o sol e sei que sua cara cava um câncer. Não é boa, não é limpa, não é perfeita a sua cara sob o sol cancerígeno do verão. Não me iludo: a morte chega para todos. Exasperada ou não. Etílica ou não. Cordial ou não.

Meus pés são sujos porque meu quarto é sujo. Assim, demonstro que sua limpeza hipócrita não tem lugar aqui dentro. É uma maneira de marcar meu território assim como os pobres cães que mijam nos postes. Pobre mulher, esqueleto solitário sem ideias apropriadas, sem roupas certas, sem palavras. Absurda juventude enterrada numa solidão imunda. Pouca idade gasta em nada. O que levará da vida? Nada! O que cobrará de Deus? Tudo!

Causa mortis: asfixia.

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