segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Adeus a Orfeu

Tornada árvore:
galhos ressequidos e boca silenciada.
Lembro-me de que errei
por amor furioso
toda imersa em pathos
meu destino
natureza da qual não fujo
imergi egóica
toda mitologia
E na Grécia radicada
me sinto viva
E eternizada.
Errei. Teu nome é outro
que eu não adivinhei.
A esfinge devorou a si mesma.
Errei. Teu caminho é outro
que não percorri.
O novelo se enroscou no chifre
do Minotauro.
Tua lira encantadora, Orfeu,
tirou das sombras:
meu titânico tédio
dos solitários gritos.
Perdida em cavernas
sombreada com nomes escusos,
berros vulcânicos,
voos escondidos,
olhos fechados.
Teu nome eu repeti
numa infalível calma
e amei
como nunca pude
nem poderia.
Amar não é para mim!
Nunca foi!
É maldição
agarrada na garganta
prende-se feito corrente
nos meus pés de falcão
Cabelos de Medusa
Mea sombra hárpica
Sacra senhora
da Escuridão
Sacra Lua
Sacra divindade do Vinho
E da Loucura.
Nas adivinhações
os oráculos disseram
as estrelas brilham
com cores erradas
A serpente já a tinha
raptado para a Morte.
A tua mulher, Orfeu
já estava sendo comida
pelos vermes.
A morte imensa
devorando seus pequenos
amendoados olhos de gazela.
Não sou tuas ninfas.
Não sou.
Longe disso até.
Defendo meus abismos
com dentes afiados.
Arrisco meu couro
com garras possessivas.
Meu olhos não são portais
pros Campos Elíseos.
Meus pés não te levarão
a encontrá-la.
Meu ventre não é morada
da santidade,
mas da terra roxa e crua
E meu grito
é a vingança leviatânica.
Quando encontrá-la
e vieres cantando
E ela teu nome pronunciar:
- Orfeu...
Não te lamentes!
Teu olho a matará
novamente
Devolvendo a alma ingênua
aos braços pérfidos da Morte.
Não te arrependas!
Olha pra terra, volta
e levanta tua fronte.
Encontra-me para
amar outra
vez.
Não.
Fiz-me vestir em berros
em feitio de trovoada.
O teu
não.
Não me importo
Pelo teu não.
Você tem que morrer
pela rejeição
pelo teu Não
pela rejeição
a tua Maldição
pela rejeição
sempre lembrarei.
Olhe para trás
para vê-la sumir
outra vez
Corto sua cabeça
Infeliz
Olhe para trás, no rio,
para vê-la desaparecer
Olhe para trás
e ela virou fumaça!
Olhe mais uma vez
para não esquecer...

Sou árvore calada
num último grito
silenciada.
Não me importa
o silêncio eterno.
Risco a unha no quadro
eternizando tua lembrança.
Já não sou eu
quem olha pra trás.
O rio arrastou consigo
sua cabeça decepada.
As Musas somente
erguem
quem as cativa:
ó Filho de Apolo
sagrado herdeiro da Lira!
lembrai, lembrai
da fumaça esverdeada dos olhos
da moça divina
se dissipando na escuridão
do caminho infernal!
lembrai, lembrai
porque teu pesadelo
é minha glória!

Nada importa.
Estás salvo
e não por minhas mãos.
Nada temo!
Meus gritos abafados
à força de um deus estranho
de gente que não conheço.
Tribo esquisita que
cricrila Iavé Iavé
e eu não faço ideia
do que isso
significa.

Nada importa.
Calo-me vestida de árvore
e cintilo meus olhos
na figura feliz
de uma serpente esverdeada
enlameada
caminhando a quatro pés
ainda
pelo lodo da Árvore da Vida
segundo chamam.
Pra mim, é só uma
daquelas punica
granatum
Nada diferente...

Mas a morte invade a pele
da moça gentil
uma estranha costela chamada Eva
e me transformo noutro mito.

de Mênade
 de Mênade
  de Mênade

Tríade dantesca
nem de pai, nem filho
nem holy spirit

Eu sou a infiel
Antes Mênade
Agora Lilith.

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