domingo, 7 de setembro de 2014

dom

coração em marcha
pela avenida rio branco.
eu, carregando bandeira,
no meio-fio, abestalhada.
coração, passo-a-passo
em marcha contida,
empunhando armas.
eu, que não sei nada
dessas coisas
senti o couro das costas
arder.
coração armado
talião adornada em aço
gigantesco tanque
fervilhantes mísseis
zunindo sobre a
cabecinha-de-vento
no meio-fio
da avenida rio branco.
coração montado
em mil cavalos sanguinários
de sem natureza
e eu, remando
remando na canoinha
abrindo as águas brancas
do peito-rio.
mire veja: essas coisas asfálticas
esbarrando minha canoinha infeliz
termino nadando em piche.
coração não viu dalí
coração desligou chopin
coração não entendeu
carnavais
de nada sambou
coração insiste
em lacrimogêneos prazeres tristes
infectando o corpo selvagem.
a cara de urucum em sangue de bomba
mil panos embebidos em vinagres:
nariz explosão, traquéia trancada.
garganta cospe o grito.
As bombas engolindo vozes.
Tiros de perguntas capciosas
no arco azul da esfera via láctea.
O ventrículo esquerdo
do coração
pisando na cabecinha- de vento.
A dor é cabelo embebido
em vinagre sanguinolento
pastinha crua de corpo fervido no asfalto
arrastando bandeira rasgada
e o pau da madeira enfiado no torso arranhado
piche vermelhidão da aurora
meu coração armado,
corpo crivado de balas:
teu nome escrito em todas elas
tens aqueles 27 nomes
e a todos odeias.
coração gravou teu desejo
e abusa de mim
coração abrasado
brasão imaculado
ordem dos Bourbon
e não lembra da princesa
suicida em portugal.
poetas em desfiles cívicos
crianças carregando brasil
nas costas
corpo unido ao asfalto
e meu sangue fervendo
matando os peixes
da baía de guanabara.
minha avó me contava
que no sete de setembro
passavam os tanques do exército
aqui no morro
e ela ia pra rua
bater continência para os soldados.
minha avó amava seu getúlio
o vargas.
mas sete da noite
hora do brasil
ia pra missa
porque amava mais ao cristo
crucificado
do que o vargas
assassinado.

lembrei agora
que a música mais triste do mundo
sempre toca às seis da noite.
não é a ave-maria sozinha
mas eu tinha lembrado
era do hino nacional.

corpo estendido
no congresso nacional
coração armado até
os dentes
aqueles livros-da-lei
me mandando ficar calada.

engoli uma bomba
sem relógio
sufoquei no artigo quinto
de constituição ilibada
meu sangue no planalto central
coração de dragão
da independência

o silêncio é a bomba
surgindo devagar
dos escombros do peito
a aurora enlevada
estrela vermelha
prestes a explodir

ela explode teu nome
e meu peito vazio
não se abate.

lágrima no sangue
o asfalto em teu olhar
eu, carregando o poema
esqueci de amar?

coração tem a forma de um avião
despencando
é carvão e alcool
banhado em ácido sulfúrico
o armado e louco
bate continência:
alto lá!
não termine o poema!
desenterrou um pau-de-arara
e desenhou meu nome nele.

corpo
que nem sei mais
pisado, acho, na parada militar.
coração armado
aplaudindo.

e eu
desejando o infinito.

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