terça-feira, 16 de setembro de 2014

folhas ociosas

Os olhares dos outdoors passam por mim sem amor. Minha cabeça pendurada num açaizeiro selvagem. Meus olhos de semente de guaraná, herança indígena desconfiada da tradição inóspita, pálida... Tenho três sóis lá fora perseguindo espíritos, arremessando raios nos vampiros. Era uma criança cheia de palavras e foi testando-as que enfiei as guerras mente adentro. Os inimigos, juízes de crianças, cortavam minhas mãos e arrancavam línguas... Suspendiam meu corpo empalado nas absurdas areias do Saara e minhas lágrimas eram os rubis das imperatrizes.

Eu não sabia que estava errada. As letras pequenas e redondas me contam histórias infantis, enquanto o sinal da maturidade uterina me escorre entre as pernas, inundando minha cama e seu corpo encolhido ao meu lado, passarinho que caiu do ninho, sangrado dos braços da mãe, encontra aqui o calor suave do meu sofrimento, do meu ócio, da minha melancolia escarlate. Bebe minhas lágrimas ácidas e queima na pele meu nome e grita suas dores no escuro.

Descrevo-me hoje, mas não sei do que falo. As palavras que não possuo me aterrorizam a escrita. Queria descobrir os mundos alheios. Queria que meus territórios acolhessem as aves do Norte. Queria saber os segredos dos corações humanos. Adivinhar os amores e os ódios. Porém... tudo é tão trivial que me mantenho escondida nas dúvidas alheias. E não grito. Só me encolho e vorazmente me devoro até sumir.

Talvez fosse isso então: eu era uma criança cheia de segredos. E tinha medo de que me descobrissem com a boca na botija. Até de mim mesma suspeito hoje, que dirá do mundo inteiro?

A janela é tão grande! Por que eu só olho praquela folhinha verde-valente no asfalto?

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