segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Brumas

as palavras que desapareceram
na ubiquidade dos teus olhos
surpreendem pedindo passagem
sob as dunas, levantando areia
espalhando nos ares o que
secretamente na tua sombra ondeia

marés de névoa, ondas de neblina
mórbida praia, selvagem partida
em meu brutal alento cobri teus ombros
minhas flores perfumando a garganta
espúria da noite, insinuei meu corpo
na areia escondendo as lâminas entorpecidas
meus atos enterrados sobriamente
sem bandeiras nem honrarias
abrandam as trevas em fúria
cubro meus ombros com fé e glória
piso na salvação do meu lamento
cruzo os lábios em desespero
mergulho no mar sem volta
ele não perdoa, me afoga

lateja em mim
fremente pausa estranha
vírgula sobrecarregada de silêncio e modorra
esfrego meus olhos
mas os vidros não se abalam
eu vejo meu reflexo
pairando sutil nos teus olhos ardentes
assisto o filme em meio a morangos silvestres
cafés em paris, os olhares blasé das belas sofias
os deuses... os homens... as ruas...
flanando a minha volta
a lua ronrona
nuvens sussurrando teus segredos
de olhos bem fechados
sorrindo o desprezo hermético
os alquimistas estão chegando

caminho torto pelo qual as crianças deslizam
pálidas sementes de civilizações perdidas
seus skates em vias tortuosas, patins em vias-crúcis
pipas carregando rebentos estranhos
o passado enterrando o futuro em rivotril
nós conversávamos
bem me lembro
e você se encolheu no meu colo
um bebê de proveta
cobaia frutificada em tubos
de ensaio
a vida eternamente no rascunho
do mundo
cortinas levemente abertas
diretor cortando falas
e o público de costas
sem aplaudir
embora eu dê minhas flores miseráveis
de nada te valem
sem aplausos

arrasto-me para a borda da linha tênue
entre amor e paixão obsessiva
encontro todo meu temor
nos pequenos fios brancos
que te enfeitam
beijo tua cabeça como monges tentam
conquistar os corações das najas
arrisco-me, esquisita, sem me mexer
encostar sutilmente no teu peito
colar meu lábio na tua nuca
sou toda desespero e lágrima oculta
às tuas costas eu, escondida
desfaleço
meu bolero fatal me arrebata
dramática me desvelo
e bela
me desfaço em dilemas:
revelo as garras. Abro as asas.


você não compreende meu idioma
cifrado em caracteres incomuns
profiro frases mal construídas
sobre o amor que existe no meu corpo inteiro
ninguém ouve o cantar sutil
das borboletas no estômago?

eu falo que és bonito
que o mundo é perfeito
que as flores durarão para sempre
quero te consolar da vacuidade da vida
do não-sentido da existência
e da nossa auto-destruição consentida.
você está distante, sempre esteve longe
não alcanço teu desejo
porque não estou nele.
fujo da solução final
os comprimidos invadindo meus pensamentos
o sono mortal cantando réquiens
e me iludindo, iludindo, iludindo.
eu me afogando, desiludida
mansa feito cordeiro perdido do bando
ovelha sem pastor
filha bastarda
pródiga.... abandonada.

versos longos
sem arrebatamentos.
estico as costas
estalando meus tormentos.
depois volto,
escrevo.

primeiro... Desisto.









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