quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Mil vírgulas

A John Constantine


histórias compartilhadas num passado obscuro. assombrando nossas noites calorentas, fritando os cérebros largados no sofá como ovos mexidos na frigideira do pensamento. minha carne oleosa na nascente da tua cama. a parede branca marcada de suor. minhas unhas fincadas no teu cobertor. a árvore genealógica que eu desenhei, os versos que te escrevi, canetas azuis e vermelhas na margem dos meus feitos poéticos. tudo a cópia da cópia da cópia do que víamos boiar no rio de perto da tua casa. os mosquitos feito anjos nos velando no verão. minhas mãos querendo enforcar teu inverno guardado naquele casaco velho e manchado de óleo. e você me deitou naquele colchão manchado suas mãos eram cordas meus pés frios esperavam a morte. saias rasgadas meias sem par somos panelas vazias sem tampas calçados furados. desenrolei tua língua entre as travas dos meus poemas. perdi-me de mim antes de encontrar-te a ti. situações agramaticais sem literaturas que nos bastem. o amor foi tudo que podia ser e será que volta será que volta circundando nossas cabeças em zumbidos doutros mundos? Poéticas gravadas nos breus da alcova que nos sufoca. os outros não completam minhas rimas perdidas você sabe de onde elas vem e pra onde vão como se escondem nas dobras da minha roupa. onde eu escondi você dentro de mim pra que nenhum outro bastasse encaixasse na tua fôrma formatada pra caber apenas um. morde meu poema agarra com tuas presas bárbaras minha carne flácida e rasga meu corpo em dois e três pedaços de heavy metal e contos eróticos e solidões silenciosas. eu vi a lua e quando brinquei com ela não ouvi tua voz porque estava clara a noite. e teve dia de eu carregar tua sombra na pele feito tatuagem. correntes de paixão na panturrilha. algemas de culpa nas mãos queimadas. dedos amarelos de combate fulminante. espadas sem fio. já largamos nossos escudos? onde deixamos nossas harpas? sentávamos no chão atrás dos muros depois de guardarmos cadeiras e mesas e ríamos ríamos de tudo do mundo. nossos óculos batiam e tínhamos que tirá-los beijando as bocas procurando os lábios de bem perto bem perto do coração um do outro e nossas lágrimas eram amargas mesmo quando o riso era largo e solto. e o pranto não nos abatia porque o abraço do outro era o mundo inteiro. vivíamos sem deus feito crianças em jardins de asfalto. e escrevo pra você em linguagem cifrada porque você sabe ligar os pontos das minhas cicatrizes de batalha. até o beijo é mistério quando temos um pacto de sangue. feito vampiros nós relutávamos com o sol do amanhecer fazendo mil filosofias na madrugada. era a morte, a lama, o óleo fervendo. era o amor entre a bateria e o baixo.

continuo parada esperando aquele ônibus. mas ele não veio mais.

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