quarta-feira, 22 de outubro de 2014

"o amor dos lobos pelas ovelhas"

Espelhos quebrados:
olhos de cigana dentro de
sete anos de azar mal calculados
carnês de carmas em prestações atrasadas
num mês de 28 dias
dissimulados
27, 26 horas de trinta minutos cada
quarenta segundos de
uma lua cheia por ano obscuro.

Duas liliths feito fatias da mesma moeda:
quatro sóis e quarenta e cinco graus dentro do peito.
Duas chuvas torrenciais na coroa de mil pétalas,
granizo nas mãos, trezentas facas brilhantes amarelas,
pirarucus se debatendo no estômago vermelho,
jambus presos nas pernas, tropeçar em pupunhas,
melancias rolando pelo corpo quebrado,
jabuticabas no nariz, guaranás nos olhos,
unhas arranhando no quadro negro do pensamento ruidoso.

Uma buzina de caminhão no ouvido da otite antiga,
600 mg de ibuprofeno dando socos no estômago,
amoxicilinas mordazes no esôfago,
uma mordaça de espinhos sisos,
agulhas embaixo das unhas vermelhas,
pisar em cacos de vidro coloridos:
amar é pisar em ovos.

Calculo mentalmente a leveza das minhas mãos
medrosas
grosseiramente pousadas nas pernas
roliças
para deslizar o mais levemente
possível
pelos teus cabelos
tentando alcançar
eu toda delicadezas
o coração da tua mente
sílfica.

Porém, tudo flutua
numa gravitação diferente...
e eu me perco observando
alguns bytes passeando em flashes.
Distraída, procuro alguma sinalização
e estou no país das maravilhas?
Encontro seres tocando bongôs,
crianças soltando pipas coloridas,
flores contando histórias mofadas,
um lagarto fumando narguilé,
e já vi isso em algum lugar, Alice...

Caio em uma piscina
de bolinhas
deslizo numa montanha russa
de palavras desconhecidas
Amaterasu me entrega uma esfera do dragão
e não sei onde pôr
Estou sem troco...
Um saquinho de areia no meu bolso furado
um anel de pedra azul que, no meu dedo, não cabia
um símbolo que não conheço desenhado na minha mão esquerda
três lobos brancos rosnando em cima de uma montanha
de neve
quatro planetas sem nome girando à minha volta
e cinco animais mitológicos falando seus nomes
em grego, latim, aramaico, japonês e tupi.

O Tempo vem, se abaixa pra encarar minha mente volúvel e sorri.
Chove.
Descubro um caminho sutil
coberto de grama
- é grama mesmo? - nem sei
mas é macio ao toque dos pés
Descalça, tateio o caminho
e vai tudo ficando cinzento
o pensamento anuviando
a água volitando
flutuando como coroa em minha cabeça.

E, até as lágrimas...
São lágrimas?
A chuva é salgada.
O que chove é lágrima...
Não sabia que teus céus choravam...

Água profunda
desconhecida
de hidrogênios e oxi
gênios do ar
silfos marítimos
fadas sereias
brancas árvores de algas marinhas
peixes voadores
vários mundos em um
único pensamento:
Alef.

A perfeição do pensamento
surrealista:
relógios derretidos em chamas
de imaginação.
Deuses a descansarem nos regaços sutis
de poemas perdidos em algum lugar
que não sei bem.
Idiomas desconhecidos pranteiam
línguas ágrafas cantam
hieróglifos serpenteiam na minha pele
árvores sagradas me cobrem
esfinges vigiando meus passos
druidas com varinhas nas mãos
bétulas, carvalhos, stonehenge
ilha de páscoa e reticências sinceras...
gigantes de pedra adormecidos
e os de gelo, aborrecidos.
Odin e seus corvos
Loki pisca um olho - memória e pensamento voam -
e
estou de volta ao início do tabuleiro?

Ele também é Hermes
Trimegisto. Sagrado alquimista do Mundo,
secreto mago das obscuridades da terra,
O charmoso eremita:
Alexandre o Grande,
Filósofos passeando,
Platão flutuando,
Sócrates tergiversando
Cicutas.
Cíceros, Sênecas, Césares
troco todas as épocas
sou indolente e me ponho boba
nas mãos de Cronos.

O Tempo me circula
é divino e cruel
não posso acompanhar sua jornada
sou humana, mortal e volúvel.

Caio, fluida, numa roda...
a tua samsara plena
estarei no Oriente da tua mente?

Sun Tzu e quarenta espadas escondidas
Amaterasu e kamis sagrados
arroz e saquês guardam segredos milenares:

Os bambus sabem
as cantigas do infinito
só passeio pelos seus domínios.

Autorizações presumidas
seus sutis sorrisos
espalhados pela aurora do monte Fuji.

um grande sol vermelho esparso
num branco céu
bandeira de coragem
e guerra
trágicas plantações
no seu coração manchado do passado.

Dois passos em Hiroshima,
quatro passos em Nagasaki.
falo baixo os versos bonitos
de Lao Tsé
e  misturo tudo:
estou sempre equivocada,
desculpa?

Volto a procurar o caminho de casa
em passos trôpegos de bêbada:
teimosamente. Carrego os postes comigo,
conto histórias aos cachorros.
embalo pássaros mortos,
guardo pedras nos bolsos...
Canto músicas antigas
dos bailes de bolero...
E grito, grito
que estou apaixonada.

Um mero lapso:
meus pés me levam cada vez mais longe
de mim.
Talvez o mistério seja:
Onde mora teu silêncio?

Gosto de caminhar, não ligo
pros calos que ardem nas minhas solas.
Gosto de caminhar, não ligo
pras digressões do caminho.
Aposto que gosto de caminhar
só pra me perder em ti,
andarilhar no teu destino.
Toda fluida, me convenço de que
tua sabedoria é uma cerejeira em flor
Um dia, muda.
Outro dia, floreia os caminhos
e tudo se transforma.
Amanhã, estarei aqui sob a cerejeira.
Os caminhos dourados em paz.
Eu estarei aqui sob róseas pétalas
cheia de amores e delicadezas.
Amando Marte com as águas cancerianas,
cantando para Hermes com os mares poseidônicos,
polifônicos,
assistindo uma lua ariana aparecer,
com meu rosto de escorpiã atrás da máscara leonina.
Minha juba deitada sobre as flores
misturando-se à tua terra
e sendo semente plantada:
encontrei teu coração e me afundo
lépida.

Existem mil-flores, mil sementes.
herméticas velocidades, sublimes complementos
estrelas de mel e açúcar
cometas e fogos de artificio
espetáculos mil. Ano novo
do Boi chinês.
Cheia de charme, confesso:
meu nome é mil-palavras.
Sou um cavalo de metal.
E estou aqui por ti.

Descobri teu silêncio todo:
guardei só pra mim.

Nenhum comentário: