sábado, 18 de outubro de 2014

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Hoje sou um pedaço de pau
imaculado de fogo e raio
encostado, simples, numa
parede sem reboco.
Hoje sou pedra opaca
pedra que a linha de trem
abraça.
Sou um pedaço abandonado
da montanha longínqua.
Hoje não tenho coração
fugiu de mim
correu entre as chamas
da razão ardente
mente pelas tabelas.
Hoje sei que me perdi
não quero encontrar
fujo dos meus olhares:
amores morrem.
Hoje não tenho pulso.
Um coração quizilado
fantasmagórico, ao léu
abrindo mão da poesia.
E eu desistia.
Cercada pelos donos da vida
julgada pelos saberes da morte
Condenada, hoje não faço
promessas.
A ausência das lágrimas -
um perigo! - as facas enferrujando
no amargo som final?
os tempos doces se foram.
E o espírito de deus abandonou-me.
Hoje sei que estou fora de mim
Faço falta em alguma parte
Não sei bem onde
Quero me esvaziar no ralo
do banheiro
Entupir meus vazios de amnésias
alcoolicas
a solidão carregando meu corpo
pelas ruas
largando um rastro furtivo
de conhaque.
Ela chora e ri, estranha...
Dizendo que somos todos falíveis.

Deus é um cobrador de ônibus
que não dá troco de notas grandes.
Fico sempre melhor só
mesmo diante dos melhores amigos.
O silêncio é aquele do pecador
que não está arrependido
mas orgulhoso
olha para deus, embevecido,
e repete as ave-marias entediado.
Não durmo. Escrevo me crucificando
devagar com cada prego, espinho e corte.
Não espero paraísos.
Nem santos.
Desisti de salvar os suicidas:
não me jogo em abismos
que não sejam meus.
não tomo venenos
que não sejam os próprios versos.
não morro junto
porque quero a vida.
E vida em abundância.

Abandono meus versos no escuro
para que não me encontrem.
Fatalmente sou surpreendida
em fuga:
poema é susto.


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