segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Sensível

O que controla meu sentimento é a sintaxe. A fonte de toda escrita é o sentimento, a emoção. Mas as milhares de revisões não são feitas sob o calor dos momentos. E sim, sob a foice do controle e o martelo da disciplina. Para portas importantes usamos chaves que levamos bem guardadas. O desejo é uma das chaves-mestras. A sintaxe é o porteiro rigoroso, indelicado e vigilante constante, cobrando por cada acento incorreto, vírgula indiscreta ou má colocação pronominal.
Sempre erro. Descobri minhas pernas perambulatórias na Araguaia. Os carros viam as faíscas de mil cores na barra da minha saia enquanto a chuva que se segurava nos meus cachos receava encontrar o chão. As noites inteiras foram caminhadas pelo seu corpo, pela sua cabeça sem atalhos, nem mapa. Jirau de desejos, rede com punhos fortes e eu me balançava, embalada no colo da noite. Tua coroa me observava cheia de pétalas espargindo teu perfume nos meus dedos: mil cafunés voláteis como a madrugada e eu nem vi o dia nascer.
Involuntariamente, descubro algo novo e indefinível por palavras. E a lua nova abre minha janela pronta pra sair. E as paredes desistem de se fechar sobre meu corpo. Não me prendem mais os cobertores de solidão e angústia. Decido não me esconder. Só volto para descansar. E olhe lá!
Aquela ninfa delicadamente rouca que marcava sua voz com um chiado radiofônico arreganhou minha alma e arrancou a erva daninha de uma dor antiga que sobrevivia das minhas forças, se alimentando, cortando minhas entranhas feito as pás sutis de um liquidificador industrial. Olhei pras costas macias dele e pensei em agarrá-lo, enfiá-lo dentro de mim à força bruta pela loucura, sem mansidão, em pleno combate, obrigando e ferindo, gritando e com o sangue fervendo de dor, estranheza e imensidão inimaginável. Mas me veio uma fraqueza, as pernas tremeram, as mãos suaram, o coração despencou ladeira abaixo, a cabeça resistindo bravamente aos pensamentos repetitivos de me jogar na frente de qualquer ônibus em Madureira. Corri, encostei-me à parede azul, não olhei as pessoas e ninguém me olhou também. Nós estávamos cansados, iguais em dores e suposições e eu, incomodada com a força de minha fraqueza, resolvi segurar as rédeas dos cavalos selvagens que moram no meu coração. Senti medo porque eles corriam pros teus estábulos, queriam teu toque suave e encontrar os campos que moram nos teus olhos. Eu queria viver pra sempre dentro do teu coração selvagem. Lutei contra a força das pernas de correrem ao teu encontro, empurrei o corpo contra o solo, segurei as rédeas e as mãos, cortadas da grossa corda, amarravam-se a minha volta, sufocando, maltratando, sangrando. Uma faca lançada em meu peito cantava e era a voz da ninfa selvagem hipnotizando meus segredos. Eu queria gritar todas as minhas verdades, dizer tudo que penso, olhar pra você com meus dois sóis e, mesmo dentro da noite, eu brilharia outra vez como era e fiz questão de esquecer porque não me cabia usar de artifícios para te prender. A dor não gritava mais, meus braços queriam teu corpo tão desesperadamente, meus olhos querendo tanto, tanto que choravam sozinhos, sem o coração, sem minha permissão, sem perguntar o porquê, sem dizerem nada. Meus olhos me traíram tão descaradamente... Escondi as lágrimas procurando mil desculpas, razões, circunstâncias e mentiras. Agarrei-me a resoluções antigas e tentativas, explicações que não cabiam nas motivações novas. Calada, escondida, pequena, frágil. Sensível. O mundo inteiro se debatia dentro de mim em sofrimento. E eu queria correr. Sem forças, resignei-me pela primeira vez e, dentro da multidão, busquei seus olhos. Não encontrei nem tua sombra, nem tua luz. A ninfa largou seus aparatos e desapareceu levando o que havia de mais precioso no meu instante de perdas e estranhezas. Busquei cada poeira do teu passo e me apressei, farejadora dos teus silêncios. Não resisti àquela ausência inexplicada. 

Não te abracei.
Eu fui contigo e meu corpo anestesiado nada percebeu da noite, das palavras alheias e do resto do mundo. Não procuro explicação alguma, minha alma apenas se nutriu dos teus passos sem conseguir alcançar teus motivos. Não sei correr e, por isso, a chuva inteira me alagou como se eu estivesse sozinha e, quando eu falava, minha voz se debatia em todo canto do meu corpo, ecoando nas paredes vazias, sem alma nem constância. Repeti histórias e alegrias, frustrações de memória mas que não faziam mais sentido e contei para todos da rua as minhas mentiras. Meus cabelos cobriram teus lençóis mas mal posso me lembrar do cheiro da tua pele. Eu faço prosa porque meu desejo arranha o interior do meu corpo. A poesia entranhada nas unhas da loucura. Lavei as mãos mais de uma vez pra limpar os versos de sangue.

Eu, vazia.
Quieta, eu sorria e respondia bravamente à saudade que molhava meus tênis. Aquela chuva também era as tuas lágrimas. Eu sabia que era você despencando do céu, volátil e fluido, deslizando e se agarrando aos meus cabelos, se escondendo da própria loucura, querendo voltar a ser o que não podia mais. Eu já era outra antes disso, só não sabia como agir no inesperado percurso dos galopes do peito. Vejo as paredes despencarem, não sei se as minhas ou as tuas. As duas? Buscava teus abraços em minhas alucinações e queria correr pra onde minha alma tinha ido te buscar. Não conseguia escrever mais nada e, de coração calado, eu dormi. As meninas dos meus olhos, apaixonadas de te ver, contavam todos os meus segredos nos teus sonhos.
O sol acordou meus olhos na manhã seguinte. A alma estava deitada sobre meu corpo, fofamente instalada sobre minhas costas. A revoada entrou na minha cabeça feito um furacão. Vi alguma coisa tua instalada em mim. Roubei a argola prateada dos teus pensamentos mas não sei traduzir. Apenas escuto como uma cachoeira infinita de versos que não compreendo. Tua voz é um turbilhão tranquilo no qual eu desmaio minhas palavras afogadas.

Ainda te devo um passeio sob o entardecer dos meus olhos, três palavras mágicas no escuro e meu abraço medroso. Tímidas sensibilidades aguadas da alma desguarnecida. 

Escrevo com meu coração de tamarindo.

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