terça-feira, 7 de outubro de 2014

Um conto

Diz a lenda que numa montanha distante aqui da minha terra, existe uma caverna mágica na qual mora um sábio. Ninguém sabe a idade dele, nem como é seu rosto. Muito menos quantos anos tem ou há quanto tempo mora lá. Sei que nos livros sagrados da tribo constam os relatos dos mais antigos, os que o viram subir a montanha, mas não contam o porquê. Minha avó diz que ele tinha o poder de fazer a montanha chorar quando tocava suas sinetas mágicas e que nenhum olho humano o havia tocado desde que havia se retirado do nosso mundo. Segundo os livros sagrados, vestia-se com um manto branco e usava sandálias de couro, alimentava-se de mel e não caçava. Misturava-se à natureza imitando o som dos pássaros e estes o obedeciam, cantando e pousando em seus ombros. Os peixes contavam-lhe os segredos dos oceanos longínquos e ele sabia de todas as batalhas antes de acontecerem. Condoía-se das dores das crianças e das mortes das mulheres, amando profundamente toda criatura. O principal livro sagrado de nossa tribo o chamava profeta, minha avó o chamava de "o sábio da montanha". Eu achava essa história toda extremamente fantasiosa, até que a seca chegou e arrebatou todas as plantações da tribo e carregou rapidamente todos os animais para o reino da mortalha.
Se este homem fazia a montanha chorar e derreter-se com sua tristeza e os pássaros cantarem em sua alegria, por que ele não faria o céu devolver a vida de nossa tribo através de suas lágrimas doces? Minha velha avó, curvada pela idade, abriu seus grandes olhos em espanto e susto de minha decisão de encontrar o homem sábio que traria a chuva novamente. Entregou-me seu livro de receitas e eu, sem entender, enfiei-o com toda má vontade na mochila surrada. As botas pertenciam a meu pai, que desde a morte do último boi trancara-se num silêncio titânico e nada o tiraria de lá, a não ser o murmúrio da chuva. Minha mãe contentava-se em deslizar as contas do rosário imenso, rezando pra virgem nossa senhora que trouxesse a chuva de volta. Saí pela porta enxugando lágrimas, enquanto minha avó recitava bençãos e proteções de anjos e santos.
Percorri o primeiro dia de viagem apenas para descobrir que não seria fácil manter a promessa que tinha feito - trazer o sábio e a chuva na mochila. Na primeira noite, o desespero resolveu me acompanhar. Criava sombras, vultos de corvos roendo minha cabeça em pesadelos terríveis. Eu, de garganta seca, não conseguia gritar enquanto minha pele virava pó, minha mãos se transformando em areia e meus cabelos se virando em cobras e os pés cobertos de escorpiões. Acordei e o sol já ia alto no céu. Esfreguei os olhos vigorosamente, espantando os monstros sonhados. Lá longe, um vulto branco mexia-se entre os galhos ressecados de alguma planta. Pus os óculos e levantei do chão, carregando mochila e correndo atrás da figura esguia.
O manto voava pelos galhos sem esbarrar em nenhum, como um fantasma deslizando sem levantar poeira enquanto eu perseguia suas ventanias. Depois de tanto correr, me estatelei no chão fervendo, em quase-desmaio. Na ânsia de encontrar o sábio acabara quase encontrando a morte. No quase deserto que precedia a montanha sagrada das lendas mais antigas que a minha existência, pude ouvir a voz de minha avó contando as histórias mais uma vez. Todos os sons da voz dela misturavam-se aos clamores dos pássaros. Não sei quanto tempo fiquei nessa ânsia de levantar do chão, mas fraca eu mal podia mexer a cabeça.
Foi quando uma trovoada arrebatou meu coração e eu me levantei assustada com o estômago dando voltas. A chuva viria mesmo sem eu cumprir minha promessa? Não, a alguns metros de distância, sentado sobre uma relva de ervas daninhas, o sábio acariciava uma gigantesca serpente colorida e assobiava as mesmas canções que minha avó entoava pra mim. Caminhei até ele cheia de medo e alegria. Havia encontrado! Mas não sabia se ele traria a chuva. Seria a trovoada apenas uma alucinação? Minha cabeça rodava e eu continuava caminhando, trôpega, bêbada de sol e sede.
Até que a serpente falou ao profeta: Temos companhia.
E eu gritei as últimas forças que tinha, desmaiando em seguida. Acordei algum tempo depois, deitada sobre o chão fresco de uma caverna de pedra. A serpente deslizava calmamente pelo meu tornozelo, pesada e plácida, me observando com grandes olhos verdes brilhando, esmeraldas em brasa, sobre os meus.
"Que queres?" - ela sussurrou e eu pude ver o manto brando na entrada da caverna. A resposta era para os dois.
Ao pensar em responder, a serpente se afastou lépida e saiu da caverna. O profeta se abaixou ao meu lado e pôs os óculos em mim. As lentes acertaram o foco e pude observar aquele rosto apolíneo pela primeira vez. Imaginei barba longa, olhos embaciados, uma velhice proeminente... Ledo engano! O profeta se embebera em formol por todos aqueles anos? Que magia era aquela que mantinha seus olhos de amêndoa com tanto brilho? E o sorriso com tanto frescor? E o cabelo de finos fios caídos displicentemente... hum...
Minha pele ressecada colheu cada uma das doces lágrimas que deslizavam pelas bochechas e, por fim, pelo sorriso do profeta. Silenciosamente, ele tocou meu rosto; seus dedos pareciam sussurrar segredos sagrados... E eu, enterrei minha cabeça no abraço profundo daquela alma gentil. Eu, o coração seco de mandacaru, deslizava pelos braços daquele homem feito roseira de jardim, espinhosa mas volátil. Feri seu coração com minha humanidade, manchei seu manto branco com minha luxúria e o homem sorria. Nós não dizíamos palavra.
Trovoadas e trovoadas lá fora anunciavam o que as nuvens pesadas traziam: a chuva prometida. A serpente criara asas e desenhava o arco-íris para marcar nossa promessa. Foi então que eu, calada, dei-lhe minha primeira lágrima de amor. E devolvi a voz àquele homem.
-Meu amor, minha alma gêmea... renuncio às bençãos da solidão para me aventurar nos teus mares. Meu amor, minha vida... vem para mim e me ensina a vida no mundo outra vez.

E o beijo selou a chuva. O amor trouxe a vida de volta.

"Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, dai-nos a paz."

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