quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Cega

Procuro pela companhia da que nunca me esqueceu
Busco sua presença imortal em meu corpo
E sua cantiga, mais antiga que o tempo, fundou todos os universos
E minhas passagens por este planeta
e tantos outros
Encontro em seus olhos, minha amada,
as respostas que não seu distinguir
não entendo ainda os teus segredos
embargo meus olhos em teus mistérios
e, mesmo quando a abandono, você vem
e me acha em qualquer bosque perdido
em qualquer cabana abandonada
Companheira fiel tens sido por tantos séculos
infinitas lições tens me ensinado apesar
de minhas teimosias infantis
Porém te busco esta noite como em outras tantas
já busquei o prazer nos braços dos amados
te busco hoje, Dor primeva, porque és o mistério dos meus dias
porque és a presença ferina das madrugadas
 rosnar pelos cantos da caverna de minha mente que fenece aos poucos
Dor, busco respostas eternas e só o que tens  são os gritos da humanidade
a sofrer e matar e morrer?
Nossas dores compartilhadas.
Somos fracos e maliciosos
não temos senão intriga e inveja em nossas mãos a amaldiçoar as criaturas
e somos a raça que sangra enquanto sorri.
Mal consigo chorar
não há dor bastante para mim
E hoje ainda terei a morte, terei a fome, terei a herança humana
sobre mim
Ambições que me consomem a juventude
e todos os dias nunca existiram
porque a madrugada espalha por entre as flores
suas cores enevoadas e cinzentas
sua neve maldita corroendo meus nervos
matando todas as minhas sementes
minando minha alegria fugidia
Tenho mil tragédias a superar
e mal consigo respirar
para afinal contar minha história.
Herança da raça cainita
carrego em mim as marcas dos dentes dos demônios
eram mil
os que arrancavam minha carne nos umbrais da morte
e enquanto eu me arrastava, via outros como eu
reconhecendo-nos pelo inferno à volta
 hoje nos desconhecemos pelas dores mútuas
O inferno não está dentro nem fora
 Está afogado entre nossas lágrimas nunca choradas
e nossos gritos nunca ouvidos
e nossas canções silenciadas
e nossas vozes amargas
e nossos nomes emudecidos
Condenados a vagar eternamente
somos nós, pequenos e frágeis
carregando as correntes que circundam os abismos
e as cruzes insensatas dos poetas
que morreram porque não tinham caminho.
Subo numa montanha e despenco
deito-me sobre a fornalha e queimo
nada me consome
somente minha mente que me julga e ameaça
mil acusações me pesam
meu coração pesando toneladas de crimes
e quando baterem o martelo
serei lançada nas luzes belas
do lago eterno de fogo e enxofre.
O Inferno circunda a todos nós! Suas luzes
e fogo eterno nos abaterá,
somos bastardos de deus
e sabemos que não temos salvação.
Devo manter minhas promessas
entregando todos meus mistérios
tentando explicar todo amor que me acompanha
feito chaga aberta no peito?
A cruz que carrego é o amor do Monte das Oliveiras.
Mas não sou bem aventurada.
Frágil mascarada,
invento mundos que não existem
em salas menores do que cabeças de alfinete
porque o universo é muit maisdo que
uma casa só.
o planta terra é apenas uma varanda imunda
na qual as moscas pousam em cadáveres e
pequenas crianças, nós, gritam e  destroem
tudo que está na casa do Pai.
Não há chuva que lave a lama
da vergonha cainita sobre mim.
Minha marca brilha e reluz
cada vez que digo que amo
e me abandono sobre os braços de alguém.
Sabem que sou amaldiçoada,
traídos, me largam em qualquer esquina
e sou arrastada para o inferno
sonhando com um amor que nunca se acabe.
Ultrarromântica
meus pulmões perfeitos exalam a morte por si só
enquanto a juventude me força a exalar a vida inútil que carrego.
Ouço as vozes do infinito
escrevo as mensagens que me dão
Esquizofrênica convulsiva
me debato entre o que é real no mundo
e o que é fruto intragável da minha mente
doentia.
Perco as gargalhadas infernais
dentro dos copos de vodka.
Abandono meu destino fatídico
dentro de quartos escuros
com vozes estranhas
e dores compulsivas.
Devagar, a auto-destruição se torna imponente
e me invade aos poucos
feito o Tempo.
Não sei se estou acordada
ou dormindo.
Não sei as conversas que tive
nem as palavras que falei.
Não sei onde estou
nem com quem.
Fui embora porque esqueci teu nome.
Estava sol e eu caminhei por lugares estranhos
querendo me perder de vez
sem esperanças de algum dia
voltar para o familiar
o cansativo familiar.
Fui feliz por dois segundos
e tudo foi sonho
tudo era inexato
e me esqueci.
Guardo tudo como memórias recentes
e o que passou, já não me lembro.
Ontem é o mesmo que hoje
Hoje será o amanhã
E todas as dores são eternas
mesmo esquecidas
Porque sobrevivem firmemente
em lugares da mente
que não piso
nem me aproximo.
As portas estão todas trancadas
meu lamento surdo
não pode ser ouvido.
Existe alguém que me controla
e alguém dentro de mim que se debate
Calmamente cheio de planos
que não posso cumprir
Quarenta mil espíritos injustiçados berram aos meus ouvidos
que eu seja a mão esquerda de deus outra vez
e desça sobre a terra a justiça eterna
que deus nunca fez
e que eu seja aportadora de toda luz e paz
que ninguém nunca teve
 Que as minhas ideias sejam a luz eterna dos anjos e que eu mesma
seja o anjo perfeito
de carne e osso nunca visto
mas sempre lembrado:
O Lúcifer sobrevivente
da Queda.
Porém estamos todos perdidos
e caídos pelo caminho
nós nos debatemos inúteis a qualquer caminho
e qualquer inimigo
não temos, irmãos
energia nem amor
nem tristezas nem alegrias
 Não temos vida
nem sonho
nem a morte nos quer.
Onde está o teu tesouro?
Aí estará teu coração.
Ele repetia. E repetiu. E voltará
para repetir
o que está gravado em nós
e nossas consciências
juízes nos abatem
noite após noite
dia após dia.
Moral dúbia.
Meus caminhos entrecruzados eternamente
com a fúria.
E a luz se abateu sobre mim
quando tudo era negação e morte.
E eu fui toda sono e definhando
fui resgatada por alguém.
Sonhei com anjos da guarda e trabalhadores da última hora:
todos vestidos de azul.
Mas ninguém veio. Eu tinha cometido
o erro fatal:
beijado a morte.
Não sei que caminho tomar
nem começar a viver outra vez
Estou perdida, tão abandonada quanto antes,
mal posso compreender o que se passa.
Sei que o sinto é dúbio
e os mistérios são escarlates
e inatingíveis.
Recorro a mim mesma
e não encontro nada.
Não sou princesa nem bruxa
nem poeta nem reencarnação.
Mal consigo mover meu corpo.
Pesa-me.
E já vejo a realidade
partida em duas:
reconheço
a luz amarga da loucura
que brilha sobre meus castanhos olhos.
E o que aguardo é apenas sua entrada
triunfal
e depois nada mais importará.
A loucura é a esfinge
que devorará meus mistérios.
E eu me esconderei
aos pedaços
nesses fragmentos
numa cela abandonada
escura e imunda:
pequeno hospício de amor
e graça divina
onde a eletricidade me trucidará
e os comprimidos me arruinarão.
Terei o olhar seco de um peixe morto
e serei eterna
nos meus versos da mocidade.
Morrerei sem sentir
a vida que nunca tive.
Meus versos permanecerão livres
de mim.

Eternamente eu me afogo
em lágrimas
e abraço o destino...
Desisto.

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