segunda-feira, 10 de novembro de 2014

quase-amanhã

No simulacro de uma solidão, voltando a escutar seus ecos alquímicos
do meu caminho poético
pavimentado, todo ele, em aporia.
Estou sempre me apuros.
Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos
e conversasse e a cada um compreendesse
de maneira tão perfeita e lúcida,
ainda assim eu estaria insatisfeita.
Não ponho uma arma na cabeça
porque sei que atiraria.
Ouço música bem baixinho pra poder
escutar os pensamentos e os ruídos do tempo.
Tiro a venda dos olhos somente
para assistir as estrelas cadentes.
Faço três pedidos
que serão negados.
O universo pune os descrentes
com a elegância de um raio.
Ele não dá seus segredos
não entrega seus mistérios
a qualquer um
mortal falível, humana gente
arrogante, egoísta.
Narciso construiu o lago de lágrimas
no qual se afogou.
Tenho uma bela adormecida
embalada pelo soar do meu coração
seu sono é quase infinito
e só às vezes é que desperta
exaurida de sonhar.
Enquanto ela, desfalecida, imagina mil mundos
e sobre cavalos conquista as estrelas
Deixa aqui nesse mundo incolor
o dragão insaciável
esse monstro devorador de pecados, almas
tristezas e cheio de astúcias
me consome
até matar.
Sopra o fogo valente sobre minha cabeça
enquanto os homens à volta
tentam roubar-me a consciência.
Nada temo
o que roubam é, para si, veneno e armadilha
o que terão para si, vergonha e humilhação.
Não tenho forças para cantar.
A poesia sai fraca
dos buracos dos meus olhos.
E dos meus ouvidos
sai tua voz para que eu te esqueça
de hoje até amanhã.
Arrogantes filhos de Tiamat
nossos corações encastelados
desde o princípio até o fim.
Nossos diálogos infindáveis
sobre questões ultrapassadas
enfiando dúvidas
em potes de ouro, mirra e incensos
oferendas aos nossos belos pensamentos
nossas mentes generosamente sábias
e mentirosas
Acreditamos em nossas saídas
supremas
em nossos jogos de cena
em nossa
 tangencial saída pela esquerda
fugas impróprias que todos aprendem
e com um sorriso
desgastam toda fé de si mesmos
Desistimos de nós mesmos
andamos na ponta dos pés em desespero
corda bamba que não é a vida
 mas a lucidez.
Não abro meus pensamentos
minha mente é ferina e desagradável
só à força você pode me tomar
só à força você pode tentar
como as cordas bondagicas, baby
ela só afrouxa se você relaxar
enquanto isso ficamos presos
nessas redomas esquisitas do meu pensamento
E eu te encho de perguntas sem sentido
por que a água da chuva cai para baixo?
ou por que o mundo tá tão vazio?
Tranco-me no banheiro do vizinho
abro o gás e admito:
a sanidade é prazerosa e calma.
Sisifando esses problemas
nessa montanha maluca de gelatina.
Queimei as asas miguélicas
naquele sol maravilhoso
mas postiço no alto do meu talento.
Procurando médicos com pílulas
de milagres farinhescos.
Procuro estrelas que brilhem
de dentro dos teus olhos
aqui no meio do teto
do meu quartinho.
Cansados. Estamos sempre
cansados.
Quero correr atrás da vida
mas esse carrossel é impossível de pegar
porque roda rápidodemais
e eu fico tonta só de assistir
mas gente!
que correria
que maluquice
pára.
pára o mundo que eu quero descer.
onde aperta?
sou uma estrela de cinema perdida
em descartes.
sou a scarlett o'hara da geração
inexistente.
dramática sem aura.
beleza sem pureza.
lágrima sem pudor.
amor selvagem de unhas e dentes
te ameaço durante toda a noite
e, se me deixares entrar, espanco teu coração.
bisturis de espiritualidade
conselhos aromáticos para almas inodoras.
lavanda, alecrim e amém:
têm-se os segredos da vida aeterna.
nem quero. nem ligo.
cruzo os braços e assobio.
não reviso. só aviso.
mil pássaros carregam
meu coração de pedra
pelos céus.
está longe a pedra limada.
aqui só restou carne, sangue
palavra-fel.
Meu coração é um pão-de-mel
amassadinho
na geladeira do destino.


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