segunda-feira, 10 de novembro de 2014

transeunte

o poeta se perde nas instâncias judiciais da própria mente
à deriva deixa-se levar pelo absurdo
folhas levadas
o vento
outono foi embora
apenas uma onda de tédio
bebi de bergerac o talento para auto estima elevada
auto referencia irônica
narcisismos escondidos sob um verniz bem fininho e triste
caladamente
cedo às tentações de abrir as asas e tentar um canto
algo diferente do disparate habitual de lamúrias e venenos
otimismo como máscara esfomeada
gritando versos à beira de um poço vazio
as ruas com semáforos avermelhados
paredes pichadas cheias de sonhos
meio-fio espreguiça-se sob a lama
chuva arrasta
outono deixou apenas esse céu cinzento
eu perco o movimento das nuvens
eu, deixando de olhar, perco o movimento dos pés
das ruas
olhos velozes passam pelos carros
solitárias as mãos se movimentam aclamando
ônibus violentamente flanando
derrubando enlameadas propostas de amor
bardos já não cantam
todo seu segredo repousa silenciosamente no pó
das árvores, agora, móveis envernizados da casa.
eu ouvia os móveis reclamarem
do silêncio e da imobilidade
Mas, sendo árvores, eles também não estavam lá, paradinhos,
cada uma em seu lugar?
Não. Eles dançavam quando o vento vinha
choravam quando a chuva abençoava
lamentavam quando o sol
esturricava...
Era algum movimento.
Hoje só poeira se acumula. E são inúteis
as estantes de jacarandá
carregando coisas humanas
em folhas de papel
que os bichos comem
devagar, deglutindo letras pastosas
com grandes segredos que descobrimos
nós humanos voláteis
assassinos.

descrevo teus passos invisíveis
esse teu casaco esfumaçado
tudo mentira
abro os braços para te receber
arrependimento é certo
a coragem, inválida.
lamentos
autobiográficos
explícitos
invisíveis aos teus maliciosos olhos.

Coração murcho
enterrado nessas folhas de papel
estou tão fraca
e, por isso, mansa.
Não entendo o que é paixão
e nem quero continuar caminhando.

Charme manso com seus dentes de tigre
alimentando-se do meu coração.
Silenciosamente esgueirando-se
pelo meu corpo
e tornando tudo roxo, cinza e escuro
pupilas dilatadas
perdidas por entre as linhas das tuas mãos
psicóticas
mantive quietas
enquanto a lua invadia minha voz.

Os lobos devoraram minha alma.
a imortalidade pretendida
era a tua
sobre meu cadáver.
olhos fechados te viram dormir
sobre meu corpo estendido
cabelos feito tapete cobrindo
teus caminhos
e eu me perdi

Chove
e eu, toda sem segredos,
aguardo alguma resposta
que não chega
que é infinita
que não chega
e é maldita
que não chega
e é preterida
que não chegará
porque é eterna.

humana fútil
temperamento volátil
cheia de meiguices por hábito
e nenhuma sinceridade.

só,

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