sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Miocárdio

a bola de gordura trans
entupiu minha artéria femural
nem sei se é possível isso
mas uma bomba de açúcar refinado invadiu meu pâncreas
uma armadilha de urso engoliu minha perna direita
fez par com a mordida de tubarão na perna esquerda
(aliás, ela deve estar em algum lugar flutuando...)
uma endoscopia digestiva sem anestesia
trepanações obrigatórias
estripamento noturno com ênfase nas diabetes
missa de réquiem num domingo chuvoso
capas de sal marinho nos meus rins
a fumaça do tabaco no pulmão direito
o esquerdo morreu faz tempo
desidratações automáticas
quadragésimo cigarro que fumo hoje
desemparelhado da trigésima dose de natasha
madrugada no meio fio da central
no qual estou deitada
o sapato que perdi na praia
vestido manchado de lama
uma bola de pêlo que sufocou o gato angorá
a linha de pipa que me degolou ontem na esquina
a bola que caiu naquele vizinho que tem cachorro brabo
caco de vidro que cortou meu pé
garrafa que quebrei na cabeça de alguém
o sangue endurecido na minha pele
meu cabelo lavado de chuva morna

a desgraça presilha dos meus cachos nessa manhã
essas conchas roubadas do mais raso do mar
e as pedras bandidas que guardei sem pedir pra dona
pondo tudo, indiferente aos fatos, na mala do carro
que não sei de quem é
saí a nado até a ilha e só encontrei pássaros filhotes
voltei de lá exausta e em prantos
de saudades de mim
me perdi dentro das areias que inundam os seus pés
e a poeira do teu quarto fui eu que soprei
pra infernizar o teu nariz alérgico.

a miséria cordão que abraça minhas fontes
meu desejo parquímetro do absurdo
paguei multa pelo amor desejado
mais do que além
já tinha visto
era pecado mas eu te quis tão ardentemente
que o inferno fechou as portas
e abriu filial no meu peito
só pra te queimar aqui dentro, eu permiti
todo enxofre da tailândia
ardendo
o himalaia gelado enforcou-se no primeiro sol da manhã
quando o semáforo do céu permitiu o renascer
quem veio?
tua lua.

quatro dedos contam segredos
aos outros silenciosos.
às crianças, conto histórias sobre elfos
e fadas.
enquanto
para mim mesma
minto deslavadamente
sempre

penso à lápis
humildemente
o encanto inexistente
se desfaz em estrelas
cadentes
enquanto isso a via láctea me observa altiva
estou dentro dela.
minha lágrima beija o planeta
inconsequentemente.
decifro meu olho azul
o outro, nego.
dois monstros de mil cabeças.
bestas surgindo do mar
feras bramindo em terremotos.

você com a garrafa na mão é um bicho feroz
sem ela, anda de cabeça baixa
me chama de amorzinho
e muda de voz.

olhei pro amanhã e não gostei
sonhos são como deuses
quando não se acredita neles
deixam de existir

meu coração foi uma maçã que você mordeu
no escuro
por tédio.

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